02 - Mestrado - Filosofia
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Item Temporalidade, memória e subjetivação: Bergson e Deleuze a partir do cinema(2026-06-26) Vieira, Gabriel Gnann Belloni; Weber, José Fernandes; Cachel, Andrea; Heuser, Ester Maria DreherEsta dissertação investiga a constituição da subjetividade a partir da filosofia do cinema de Gilles Deleuze, articulando-a com o bergsonismo que sustenta sua ontologia da imagem. Partindo da tese segundo a qual o tempo não é apenas tema do cinema, mas operador formal direto da imagem, o trabalho acompanha a passagem do regime sensório-motor da imagem-movimento à crise que engendra a imagem-tempo, quando a ação cede lugar a situações óticas e sonoras puras e o sujeito torna-se antes vidente do que agente. Nesse deslocamento, a memória – concebida, com Bergson, como coetaneidade do passado e como fundamento da duração – deixa de funcionar como simples faculdade psicológica e passa a operar como estrutura imanente do real e do próprio pensar. Com isso, a montagem interior e o “teatro mental” da imagem-tempo reconfiguram os critérios de verdade, abrindo o campo da potência do falso: não como relativismo, mas como produção de novas relações do verdadeiro sob condições temporais e narrativas não orgânicas. Ao final, argumenta-se que a subjetividade não precede as imagens, mas emerge como efeito das formas de temporalização que o cinema moderno põe em jogo, implicando uma ética da visão correspondente: uma aprendizagem do ver que exige novas maneiras de habitar o tempo, a memória e o mundoItem O corpo (de) Preciado: os rastros de Derrida na escrita de si de Paul B. Preciado(2026-01-22) Julio, João Victor; Nalli, Marcos Alexandre Gomes; Bernardo, Fernanda; Haddock-Lobo, Rafael; Dionizio, MayaraResumo: Esta dissertação explora a afirmação de Paul B. Preciado — “eu sou o leitor cujo corpo se converte em livro” — interiorizando-a como chave de acesso à totalidade da obra preciadiana: desde os seis livros publicados entre 2000 e 2022 até entrevistas selecionadas e o filme Orlando: Minha Biografia Política (2023). Tal como um palimpsesto ou um “bloco mágico”, em que cada registro é feito sob marcas anteriores reconhecíveis, a investigação pensa a obra como um conjunto de leituras e rasuras habitadas pela lógica derridiana do rastro (trace). A pesquisa estrutura-se em três eixos: a inversão paradigmática entre autor e leitor; a dinâmica da assinatura e contra-assinatura na transição de género — em que o nome “Paul” surge como resposta ética ao chamado de corpos dissidentes — e a revelação do nome próprio como o lugar do outro. O estudo conclui com a imagem da garrafa lançada ao mar que o autor aceita o risco do extravio e da leitura desviante, transformando o risco do extravio e o desamparo da interpretação alheia na condição de possibilidade de manter-se aberto ao que vem, sem saber como ou quando o outro chegará.Item A metodologia analítica na relação entre direito e coerção(2026-04-06) Carneiro, Daniela Rigotto; Faggion, Andréa Luisa Bucchile; Decat, Thiago Lopes; Scherer, Fábio CésarResumo: Na tradição moderna da filosofia do direito, autores como Thomas Hobbes, Immanuel Kant, Jeremy Bentham, John Austin e Hans Kelsen compreenderam, de diferentes maneiras, o direito em estreita conexão com a coerção, entendida como a ameaça de sanção em caso de descumprimento das normas jurídicas. Essa associação permaneceu amplamente estável até a inflexão teórica promovida por H.L.A. Hart que, ao deslocar o foco explicativo para o papel das regras sociais e da perspectiva interna dos participantes da prática jurídica, rompeu com a centralidade conceitual da coerção. Sob a influência de Joseph Raz, consolidou-se na tradição analítica a tese de que a coerção não constitui uma condição necessária para a existência do direito. Em reação a esse cenário, Frederick Schauer argumenta que a tradição analítica marginalizou indevidamente a coerção ao privilegiar propriedades essenciais em detrimento de características típicas e socialmente centrais do fenômeno jurídico. Leslie Green, por sua vez, sustenta que o abandono da análise conceitual comprometeria a própria identificação do objeto da teoria do direito. É nesse contexto que Kenneth Einar Himma propõe uma via intermediária: apoiando-se na chamada análise conceitual modesta, inspirada em Frank Jackson, busca demonstrar que é possível reintegrar a coerção como condição conceitualmente necessária do direito sem abandonar o método analítico. A dissertação examina criticamente essa proposta, reconstruindo os argumentos de Hart e Raz, as críticas de Schauer e a resposta de Green, e avaliando em que medida a estratégia metodológica de Himma é capaz de sustentar a tese de que sistemas jurídicos necessariamente envolvem mecanismos coercitivos. Conclui-se que sua abordagem oferece razões consistentes para reafirmar a centralidade estrutural da coerção em contextos humanos não ideais, sem, contudo, estabelecer de forma definitiva que ela constitua uma condição conceitualmente necessária do direito em sentido estrito. O trabalho, assim, contribui para esclarecer as relações entre normatividade, autoridade e força na teoria do direito e para delimitar com maior precisão os pressupostos metodológicos desse debateItem A noção semântica de Tarski na epistemologia correspondentista de Popper(2026-03-31) Barbieri, Francinny Gliebus; Liston, Gelson; Schorn, Remi; Melo, Ederson SafraEsta dissertação busca analisar a noção semântica da verdade de Alfred Tarski nas formulações epistemológicas de Karl Popper, ponderando como as ideias tarskianas podem ter influenciado no desenvolvimento da filosofia popperiana, especialmente na construção do conceito de verdade objetiva como correspondência com os fatos. Para isso, serão analisadas as conclusões de Popper oriundas da teoria de Tarski, no que tange à sua interpretação como sendo uma teoria da correspondência, bem como no seu uso epistemológico. A partir desta análise, será feita uma consideração sobre o trabalho da prática científica na visão de Popper, de conceber e testar conjecturas, tendo a verdade como um ideal regulador. Por fim, será avaliada qual a relevância e implicações da epistemologia de Karl Popper para a filosofia da ciência contemporânea e para a compreensão da natureza da ciênciaItem As concepções de mundo em Hannah Arendt(2026-01-28) Capucho, Rivânia Akemi; Müller, Maria Cristina; Oliveira, José Luiz de; Cachel, AndreaO tema da presente dissertação são as concepções de mundo em Hannah Arendt. Considerando que o conceito de mundo na filosofia de Hannah Arendt não possui apenas um sentido, mas uma plurivocidade de sentidos, analisa-se a obra da filósofa para identificar as definições de mundo. Dessarte, o problema ao qual essa pesquisa responde é: quais são os múltiplos sentidos de mundo e como eles se fundamentam na filosofia de Hannah Arendt? Objetiva-se identificar, por meio da investigação das atividades da vida ativa – trabalho, obra (fabricação) e ação, que são condições fundamentais do modo de vida do ser humano na Terra –, bem como por meio da análise dos eventos modernos, a origem dos sentidos de mundo na obra de Hannah Arendt. Para tanto, procede-se a uma pesquisa que consiste na análise teórico-conceitual dos escritos da filósofa, sobretudo das obras Origens do totalitarismo (1951), A Condição Humana (1958) e Entre o passado e o futuro (1961). Como hipótese de trabalho, estabelece-se que a plurivocidade de sentidos de mundo está centrada em dois aspectos essenciais de mundo: o mundo criado artificialmente pelo ser humano por meio de suas obras e o mundo comum, efetivado pelas relações humanas. Desse modo, resulta que existem ao menos dois sentidos de mundo fundamentais na filosofia de Hannah Arendt, o que permite concluir que o mundo, em seu sentido plural, para existir, necessita tanto da parte material quanto da pluralidade de seres humanos únicos para se tornar verdadeiramente humano.Item O conceito de lugar na filosofia de Nishida : uma topologia da consciência e do nada absoluto(2026-01-13) Murata, Lucas Emanuel Salviano; Santos, Eder Soares; Silva, Diogo César Porto da; Florentino Neto, AntonioEsta dissertação investiga o conceito de lugar na filosofia de Nishida, não apenas como desdobramento histórico de suas fases iniciais — experiência pura e autoconsciência — mas como uma reformulação profunda da teoria da consciência e da lógica em direção a uma ontologia do nada absoluto. A partir de uma leitura filosófica e textual das obras de Nishida entre 1911 e 1926, são analisados os fios condutores que estruturam essa transição, com destaque para a recusa do dualismo, a centralidade da imanência e a busca por um universal que não se coloca como exterior ao particular. O trabalho propõe ainda uma interpretação do conceito de lugar em dois aspectos: como teoria da consciência, evidenciando sua estrutura topológica não dual, e como lógica de predicados, na qual o lugar do nada absoluto é compreendido como aquilo que é sempre predicado e nunca sujeito. Por fim, analisam-se as implicações filosóficas decorrentes de levar a filosofia do nada absoluto às suas últimas consequências.Item Joseph Raz e a tese das fontes: limites internos, objeção de Dworkin e alternativa de Schauer(2026-03-05) Ruiz, Fernanda Ferreira; Faggion, Andréa Luisa Bucchile; Scherer, Fábio César; Bustamante, ThomasEm sociedades pluralistas, o direito precisa orientar condutas e produzir decisões publicamente controláveis mesmo sob desacordo moral persistente, por isso, compreender como a autoridade jurídica se sustenta em casos difíceis é um problema teórico e institucional decisivo. Esta dissertação investiga, a partir de Joseph Raz, em que medida a tese das fontes e a estrutura das razões excludentes explicam a objetividade e a convergência decisória, e onde seus limites aparecem quando as fontes subdeterminam a decisão. O objetivo geral é avaliar se é possível preservar o papel do direito qua direito em casos difíceis sem reduzir a decisão judicial a discricionariedade robusta nem converter controvérsias morais em critério ordinário de validade. A metodologia é analítico-conceitual, com reconstrução sistemática da teoria raziana (autoridade, razões excludentes, pluralismo axiológico e tese das fontes), crítica interna orientada por consequências institucionais e diálogo contrastivo com o diagnóstico de Ronald Dworkin sobre princípios e interpretação. Como principal resultado, argumento que, embora a tese das fontes ofereça ganhos metodológicos (publicidade, previsibilidade e controle), ela é estruturalmente pressionada em casos difíceis, nos quais a prática exige critérios de exceção e justificações adicionais. Em resposta, defendo que o positivismo presuntivo de Frederick Schauer fornece uma via intermediária: regras e fontes operam como padrão normalmente decisivo, mas derrotável sob ônus justificatório elevado, permitindo administrar a indeterminação sem dissolver a autoridade. Concluo que uma arquitetura presuntiva explicita e disciplina o ponto de transição entre aplicação e desenvolvimento do direito, favorecendo convergência e legitimidade institucional em contextos de desacordoItem A terapia das paixões em Sêneca: um olhar sobre a tradição médica(2026-04-17) Ezequiel, Douglas Giovani; Pavão, Aguinaldo Antonio Cavalheiro; Dinucci, Aldo Lopes; Silva, Christiani Margareth de Menezes eA proposta de dissertação tem como objetivo explicitar a função da exortação ao aperfeiçoamento moral (praeceptum) e da retórica interior na terapia da alma em Lúcio Aneu Sêneca, do ponto de vista da física estoica. De modo geral, tanto no estoicismo quanto em outras filosofias helenísticas, as paixões foram compreendidas como empecilhos à plena felicidade humana, de modo que a cura das paixões se apresenta como uma tarefa médico-filosófica. A origem das paixões senequiana em De Ira, bem como a explicação de fenômenos naturais em Naturales Quaestiones, permitem supor que o filósofo tenha assimilado conhecimentos médicos da escola pneumática, segundo os quais as paixões se devem primariamente à diskrasia do pneuma no corpo, implicando uma diskrasia somática. Uma vez que a intenção da pesquisa é explicitar os fundamentos psicofísicos da saúde e da doença da alma em Sêneca, investiga-se em que medida o estoico compreende o discurso interior passional como um abalo do tónos pneumático; em contrapartida, a retórica interior virtuosa não só impele o sujeito à ação moral concreta, como promove a simpatia das instâncias que compõem o ser humano. Dessa forma, a constante exortação à virtude, característica da escrita senequiana, cumpre o papel terapêutico, fazendo com que o filósofo ocupe posição singular na tradição médicaItem Transcendência e imanência na filosofia da morte de Schopenhauer(2025-12-05) Felipe, Ana Paula Manoel; Pavão, Aguinaldo; Weber, José Fernandes; Salviano, Jarlee Oliveira SilvaA presente dissertação visa analisar criticamente a filosofia imanentista de Schopenhauer. Para tanto, pretende-se investigar o possível comprometimento com teses transcendentes presentes em suas reflexões sobre a morte. Para tal fim, o tema do ascetismo e da palingenesia se sobressaem nessa investigação, não obstante, a sua metafísica da morte permeia toda a discussão, visto que a sua coerência está atrelada diretamente à utilização desses conceitos. Uma vez que, em tese, a vontade como coisa em si exclui qualquer fundamento transcendente, cabe investigar a possibilidade do afastamento de Schopenhauer do campo imanente. Essa investigação é necessária tendo em vista o seu distanciamento do domínio empírico em sua explicação sobre a palingenesia e a permanência do caráter inteligível no mundo. Dessa forma, investigarei como a filosofia de Schopenhauer trata e relaciona os conceitos de palingenesia, morte, vontade, metafisica, imanência e transcendência. Nesse contexto, defenderei a hipótese de que Schopenhauer não logrou êxito em depurar de sua filosofia imanentista elementos transcendentes e, por fim, ponderarei as consequências disso em sua metafísica da morte.Item Ensaio e Conférence: duas manifestações do jugement na filosofia de Montaigne(2025-07-25) Martins, Vinicius Aparecido Duarte; Pavão, Aguinaldo Antonio Cavalheiro; Azar Filho, Celso Martins; Espíndola, Arlei deEsta dissertação aborda a problemática da conférence em Montaigne a partir de sua ligação com a sabedoria de vida, ou seja, a formação moral e individual. Para tanto, discute-se um conjunto de conceitos interligados à noção de conférence em Montaigne. Conectamos a noção de conférence com a de ensaio com o objetivo de distingui-la da ligação com o pedantismo e a science. A conexão entre a conférence e o ensaio é um tema já amplamente discutido. Villey, em suas notas introdutórias para Da arte da Conversação (E III, 08), destaca essa ligação ao observar que o método da conférence (conferência ou conversação formal) espelha a condução do pensamento. Montaigne, em sua obra, frequentemente associa o ensaio — e até mesmo os Ensaios como um todo — ao fluxo de seus próprios pensamentos. Ele afirma repetidamente que o ensaio se baseia no uso de faculdades naturais, e não em conhecimentos adquiridos. Com isso, nosso objetivo geral é salientar a diferença entre o que consideramos as faculdades naturais: o juízo (jugement), expresso por meio da prática da conférence ou do ensaio; e os conhecimentos adquiridos: a memória, expressa por meio do pedantismo. Nosso estudo pretende aprofundar a ideia de La Charité (1968) de que a memória produz a science, enquanto o juízo produz o ensaio. Adicionalmente, propomos que a conférence é outro produto do juízo. Nossa interpretação é que o ensaio e a conferência compartilham estruturas semelhantes, pois ambos visam ao mesmo propósito — formar a sabedoria de vida —, originam-se do mesmo processo mental e, portanto, empregam um método comum, apesar de serem atividades espirituais distintas. A metodologia tanto do ensaio quanto da conférence é evidente em "Da arte da Conversação", onde Montaigne enfatiza que seu objetivo está na maneira (forma) e não na matéria (conteúdo). Argumentamos que tanto o ensaio quanto a conférence priorizam a forma em detrimento do conteúdo. Uma filosofia que se concentra nas matérias visa à produção de science e, consequentemente, ao desenvolvimento da memória, ao passo que o objetivo da filosofia ensaística reside no aprimoramento do juízoItem Antiterra, terra e vontade de poder: a constituição do mundo na filosofia de F. Nietzsche(2025-01-27) Kretsch, Marcelo Martins; Weber, José Fernandes; Benvenho, Célia Machado; Gonçalves, AlexanderA presente dissertação abordará a noção de terra e vontade de poder na filosofia de Friedrich W. Nietzsche (1844-1900), objetivando destacar a construção de uma perspectiva contrametafísica de mundo. Nessa direção, primeiramente, propõem-se apresentar a perspectiva metafísica, enfatizando sua relação negativa e fechada para com o mundo que forma uma antiterra, uma imprecação contra a terra e a vida, a fim de destacar a perda do mundo para o niilismo. Em um segundo momento, pretende-se expor a constatação, bem como a crítica, de Nietzsche, sintetizada na noção de Morte de Deus, à história da idealidade, buscando solapar e, sobretudo, ultrapassar, os pontos que constituíram o limiar da metafísica, a saber, suas delimitações e circunscrições. Por fim, busca-se dar destaque à construção de um projeto de contrametafísica de mundo que, ao contrapor aspectos negativos e fechados da metafísica, compromete-se com o horizonte de possibilidades terrestres, a fim de destacar a vontade de poder, tanto no seu caráter antropológico, quanto no seu caráter cosmológico, como perspectiva aberta, bem como afirmativa, de terra e vidaItem O isolamento social como um mal-estar: uma análise por meio da fenomenologia da enfermidade.(2025-04-01) Gianvecchio, Pedro Henrique Percinio; Santos, Eder Soares; Reis, Róbson Ramos dos; Weber, Jose Fernandes; Nalli, Marcos Alexandre GomesA presente dissertação tem como escopo principal explorar a experiência de viver uma enfermidade em isolamento, destacando a vulnerabilidade humana e a interconexão entre consciência e corpo no contexto da pandemia do coronavírus, ocorrida entre janeiro de 2020 e maio de 2023. A privação da convivência social entre pessoas, associada à disseminação de uma doença até então desconhecida e incurável, caracterizou-se como um mal-estar pandêmico, quando analisada sob a perspectiva fenomenológica da enfermidade. A filosofia aborda o problema da enfermidade de modo diferente da medicina, revelando que médicos e pacientes experimentam a enfermidade de formas distintas. O estudo fenomenológico da enfermidade destina-se ao conhecimento da existência humana em situações diversas, como saúde, doença e enfermidade, valendo-se da fenomenologia. A investigação do mal-estar vivenciado no isolamento social pandêmico parte da noção fenomenológica, abordando conceitos como intencionalidade, facticidade e transcendência para compreender o fenômeno da enfermidade. A fenomenologia da enfermidade revela a experiência subjetiva durante o isolamento social, contribuindo para a compreensão de como os seres humanos sentem e vivenciam o mundo quando estão solitários e enfermos. A pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2 impôs o isolamento social a todos, e esse acontecimento foi um inegável mal-estar, observado em um contexto no qual os seres humanos, que naturalmente buscam o próprio bem-estar, subitamente se veem confinados e, além disso, gravemente enfermos. O mundo familiar conhecido vai desmoronando, cedendo lugar a uma nova condição de estranhamento. A enfermidade, o isolamento, o sofrimento e as perdas podem ser vistos como reflexos da pandemia causada por uma doença devastadora. A situação de isolamento vivenciada na experiência de enfermidade, do ponto de vista ontológico, afeta o modo de ser em sua constituição e cria uma condição contrária ao ser-no-mundo corporificado. Há uma experiência do sofrimento na enfermidade que considera, em cada caso, a maneira pela qual os sintomas adquirem significado para aquele que sofre. Isso ocorre porque cada pessoa é um composto intrincado de experiências passadas, esperanças futuras, papéis sociais, deveres e relacionamentos socioculturais e políticos. Por essa razão, sofrer envolve uma perda do senso de si associada a um afeto negativo. A pandemia interrompeu nossas possibilidades existenciais nas relações cotidianas face a face. Em certa medida, a interação intencional com outros molda sentimentos, pensamentos e atividades de diversas maneiras. A enfermidade grave – assim como todas as experiências ou circunstâncias vivenciadas pelos seres humanos – é altamente instável e está em constante fluxo dinâmico. A pandemia da COVID-19 passou por um ciclo com começo, meio e fim; isso revelou a impermanência de todas as situações da vida. A impermanência é uma característica inerente a cada circunstância ou situação que os seres humanos podem enfrentar ao longo da existênciaItem A presentificação da irrealidade na consciência interna do tempo em Edmund Husserl e Eugen Fink(2025-01-27) Gonçalves, Vinícius Eliud; Weber, José Fernandes; Fontana, Vanessa Furtado; Santos, Eder SoaresEsta dissertação investiga a problemática da irrealidade na consciência interna do tempo, conforme concebida por Edmund Husserl e Eugen Fink. Parte-se da hipótese de que todo fenômeno presentificado é percebido como irrealidade devido à sua constituição pela consciência. Para isso, a pesquisa distingue a presentificação da consciência de imagem, com base na análise da consciência temporal. O primeiro capítulo examina a redução fenomenológica, método que suspende a atitude natural em relação ao mundo para revelar as essências das experiências conscientes. Analisa-se como Husserl e Fink empregam essa abordagem para desvelar a estrutura das vivências. O segundo capítulo aprofunda a compreensão da consciência interna do tempo, abordando conceitos como retenção, rememoração e a constituição da temporalidade. Explora-se o papel do fluxo temporal na percepção e memória, destacando como ele sustenta as noções de presença e presentificação. Por fim, o terceiro capítulo investiga a relação entre realidade e irrealidade, atribuindo à despresentificação o esquecimento progressivo da realidade na horizontalidade do tempo. Em contrapartida, a presentificação é apresentada como um modo de irrealidade que recupera o ausente no horizonte temporal.Item O fenômeno totalitário à luz da teoria de Hannah Arendt e sua relação com a contemporaneidade(2025-03-28) Santos, Rafael Marini; Müller, Maria Cristina; Schütz, Rosalvo; Ostashchuk, Ivanpresente dissertação apresenta como tema central a relação entre o fenômeno totalitário próprio da primeira metade do século XX e a contemporaneidade, possuindo como fio condutor a obra desenvolvida pela filósofa Hannah Arendt. A problematização ocorre na medida em que se questiona se há elementos totalitários na política contemporânea e como eles se manifestam, objetivando, nesse sentido, traçar um paralelo não apenas entre épocas distintas, mas entre as diferentes formas assumidas pela ideologia totalitária para se adaptar a contextos diversos e as maneiras pelas quais ela se relaciona com as massas. E, em que pese as diferenças determinadas pelo lapso temporal entre as sociedades sob análise, busca-se pontos de intersecção entre os sintomas apresentados por ambas, tal qual a tendência de negação da política, o solapamento da esfera pública, a banalização da tragédia, o isolamento, a alienação e a atomização dos indivíduos. Tendo em vista o falecimento de Arendt em 1975, faz-se necessário, evidentemente, o apoio bibliográfico de autores que se debruçaram perante a sociedade contemporânea. Denota-se, com o presente estudo, que as condições para efervescência do totalitarismo permanecem presentes, ainda que em estado latente, graças à adaptabilidade de sua ideologia, ajustada às demandas da pós-modernidade e à era da hiperglobalização e da instantaneidade. A pesquisa é bibliográfica e alicerçada na leitura de algumas obras centrais, responsáveis por balizar os argumentos da pesquisa, como Origens do totalitarismo e Eichmann em Jerusalém, ambas de Hannah Arendt; Sociedade do cansaço e Não-coisas: reviravoltas do mundo da vida, de Buyng-Chul Han; Sobre o político e Por um populismo de esquerda, de Chantal Mouffe; Os engenheiros do caos, de Giuliano da Empoli; O ovo da serpente, de Consuelo Dieguez. Por fim, a conclusão obtida aponta à necessidade de retomada da esfera pública como espaço político, onde as demandas dos sujeitos são postas e debatidas, gerando representatividade e pertencimento, visto que o totalitarismo se alimenta precisamente da ausência de tais sensações, conquistando o indivíduo através da ideologia e do terror. Assim, o principal resultado alcançado reside no discernimento de que o fenômeno totalitário, muito longe de se tratar de um fato histórico pertencente ao passado, remanesce como potencialidade de futuro, sobretudo em uma era marcada pela desinformação e antagonismos morais na política, que, por sua vez, é hodiernamente atacada, razão pela qual a luta por sua valorização há de ser constante, permanecendo vigilantes contra as propensões de normalização e incorporação de discursos violentos, segregacionistas, autoritários e populistas na vida política.Item As críticas de Michel Foucault à psicanálise : o sujeito do desejo n’As confissões da carne(2025-01-23) Sanvesso, Lucas Koltun; Nalli, Marcos Alexandre Gomes; Balbino, Lorena de Paula; Garboza Junior, José MauroNa obra de Foucault é possível identificar quatro momentos de sua crítica em relação à psicanálise. A recente publicação da História da Sexualidade IV: As Confissões da carne, abre a possibilidade de se encontrar uma mudança, um novo momento de sua análise ou um possível avanço em sua crítica. É recorrente a perspectiva de que o projeto da História da sexualidade compreenderia uma genealogia da psicanálise, e em seu último volume, encontra-se a genealogia do sujeito do desejo. Reconstruindo as leituras que Foucault faz da psicanálise em sua obra e apontando suas especificidades e momentos de transição, este trabalho propõe um quinto momento da crítica foucaultiana à psicanálise, que tem como alvo a noção de sujeito do desejo presente em sua vertente lacaniana. A partir das obras que marcam os posicionamentos de Foucault em relação à psicanálise, apresenta-se como a construção e análise histórica do surgimento do sujeito do desejo está vinculada à leitura crítica dos fundamentos da psicanálise lacaniana, que orientam sua prática. Conclui-se que n’As Confissões da carne Foucault inclui o pensamento de Lacan em um processo histórico mais abrangente, em que estabelece um lastro comum entre santo Agostinho e Lacan em torno do sujeito do desejo.Item Aproximações entre pluralidade em Hannah Arendt e performatividade em Judith Butler : o espaço público(2024-12-12) Perioto, Danillo Augusto; Müller, Maria Cristina; Duarte, André de Macedo; Nalli, Marcos Alexandre GomesO tema da pesquisa diz respeito ao conceito de pluralidade de Hannah Arendt e de performatividade de Judith Butler. Problematiza-se em que sentido o cerceamento e a coibição da pluralidade e da performatividade de gênero no espaço público compromete o Estado Democrático de Direito e a ideia de liberdade que deveria fundá-lo. A pesquisa justifica-se haja vista que a liberdade é o fundamento de qualquer Estado que se afirme democrático, um direito fundamental que deve contemplar todos. Tendo como objetivo caracterizar a pluralidade e a performatividade de gênero como exemplos de realização da liberdade e da construção política nas perspectivas de Arendt e Butler sob o prisma do espaço público, busca-se construir um “diálogo” entre elas para reforçar – ou evidenciar – sua validade. A hipótese indica que a pluralidade é o ponto central da construção do espaço público e da política e desrespeitá-la torna o espaço público apolítico e pode abrir caminho a autoritarismos que, em geral, oprimem quem é distinto. A pesquisa utiliza como método a revisão bibliográfica de textos de Arendt e Butler, acrescido de textos de seus comentadores e de outros autores devotados ao tema. Hannah Arendt afirma que o espaço público é o espaço da liberdade e da aparência, que só ocorre entre as singularidades formadoras da pluralidade, sem as quais inexiste o espaço público. Butler concebe que, toda vez que um corpo é restringido em seu aparecer no espaço público, está enquadrado como uma não vida e marcado por uma política precária. Ao se analisar os conceitos de pluralidade em Arendt e de performatividade em Butler, constata-se uma convergência fundamental entre elas sobre o significado de espaço público, que ambas reivindicam ser o espaço de liberdade e de exercício dos direitos de todos. Ao final, é possível concluir que, enquanto a sociedade não for capaz de reconhecer a pluralidade e a diversidade humanas e, dentro delas, as performatividades de gênero, entre outras minorias sociais, continuar-se-á encenando uma pseudopolítica e pseudodemocracia, pois a condição de existência de todas as pessoas não é ideológica, mas o direito fundamental de existirem e de se expressarem.Item O problema da consolação como pertencimento: sofrimento, linguagem e sociabilidade sob a metafísica da posse(2024-04-19) Chiaveli, Tiago Damasceno; Weber, José Fernandes; Pinezi, Gabriel; Pavão, Aguinaldo; Silva, Claudinei Aparecido de Freitas da; Nalli, Marcos Alexandre GomesA ideia de consolação ronda a filosofia desde o seu nascimento. Apesar de uma longeva relação que atravessa toda a história, a filosofia ainda não foi plenamente capaz de tomar a consolação como um legítimo sujeito filosófico, e defini-la em um modelo explicativo. Esse esforço foi recentemente retomado, e em uma época cuja cultura é por muitos caracterizada como coping culture e repleta de abordagens e estratégias dissonantes sobre a lida emocional ante os atuais desafios psicossociais. Nesse cenário, este trabalho se une ao atual esforço de caracterizar filosoficamente a consolação, no sentido de encontrar o modelo de linguagem que lhe seja peculiar. Este modelo, conforme a tradição retórica e da clínica psicológica atestam, repousa sobre a condicionalidade – visto que a função da consolação é relativizar, por meio de seus gestos, o estado fatalista em que um sujeito desolado se encontra. Sob esse pressuposto, nosso trabalho investiga com profundidade o que é pressuposto dessa “gramática do condicional”: a ideia de possibilidade, posse e pertencimento, não em seu sentido usual, meramente social, mas nas condições metafísicas dessa sociabilidade. O trabalho mergulha na metafísica aristotélica com esse olhar pragmático, na tentativa de estabelecer quais são os limites da relação entre os fatos absurdos que provocam-nos profundo pesar, e a recriação de possibilidades capazes de nos renovar e requalificar para a felicidade.Item Arthur Schopenhauer e o cristianismo : ascese, negação do mundo e sua relação com a ética(2024-02-20) Feliciano, Gabriel Pedrão; Pavão, Aguinaldo Antonio Cavalheiro; Weber, José Fernandes; Araldi, Clademir LuísEste projeto de pesquisa se propõe apresentar as duas diferentes perspectivas que Schopenhauer possui no que diz respeito ao cristianismo, principalmente no livro IV de O mundo como vontade e como representação, e o capítulo XVII do segundo tomo desta mesma obra, para assim, entender qual é a relação que Schopenhauer tem com a religião cristã: ela é imprescindível em sua filosofia ou não? Quando o assunto é o cristianismo, podemos notar dois lados opostos em seu pensamento: o cristão, que se relaciona com a religião, encontrado principalmente na ética, e o crítico, relacionado às alegorias e sua atuação. Perante a isso, nesta dissertação se buscará entender por qual motivo o filósofo considera sua filosofia cristã, defendendo uma diferenciação entre o cristianismo tradicional e o utilizado pelo autor. Desse modo, o entendimento de Schopenhauer sobre cristianismo é diferente do tradicional, e, quando se relaciona com a religião, o faz tendo base o verdadeiro cristianismo, aquele que sofre influência das religiões orientais, sediado no Novo Testamento, e quando critica, leva em conta o cristianismo com raízes judaicas. Por fim, com base nessa separação entre o verdadeiro cristianismo e o outro, é possível facilitar o entendimento sobre a verdade da ambivalência da religião cristã, e também, da não contradição de Schopenhauer, quando o assunto é o cristianismo.Item Psicanálise e fenomenologia nos dois eixos do pensamento de Gaston Bachelard: diurno-epistemológico e noturno-poético(2024-01-18) Fonseca, Pedro Olivieri; Santos, Eder Soares; Nalli, Marcos Alexandre Gomes; Rocha, Gabriel Kafure daDentro dessa pesquisa, foi adotado um recorte temático para que se pudesse trabalhar com os dois polos que marcam toda extensão filosófica das obras do autor Gaston Bachelard, e investigando a partir delas a possibilidade de uma interpretação da complementaridade entre os dois núcleos de produção do autor. Para isso, foram selecionados temas não só que estão presentes dentro das duas estruturas de produção do autor, como também elementos externos à filosofia dele, mas que pudessem nos ajudar a reunir estas duas partes constituintes do pensamento bachelardiano através da psicanálise e da fenomenologia. Portanto, a problemática está assentada, sobretudo, nessa dualitude de suas obras, mas também na procura das ligações existentes entre elas como complementares. Estes dois lados que compõem a completude do pensamento são formados por um pensamento diurno, claro e objetivo que é estipulado para a atividade científica e por isso caracteriza-se como epistemológico, e outro lado do pensamento noturno, onírico e imagético, que se destina a devanear sobre as imagens poéticas. A despeito da metodologia deste trabalho, foi elaborada uma dupla investigação bibliográfica que pudessem respeitar as idiossincrasias de cada um dos eixos temáticos de produção do autor, respeitando as particularidades específicas de cada área dentro de nossa reconstrução teórica dos pontos principais que decidimos abordar tanto no período diurno como também no noturno. Mas, não deixando obstante nossa busca em reunir aspectos que se entrecruzam dentro de uma dinâmica de alternância para com a variação das atividades dos dois períodos, e que se conectam numa interligação que atravessa os dois eixos por algum vínculo temático filosófico que, em nossa opinião, provoca uma espécie de retroalimentação entre os polos, em sentido de fomentar, enriquecer e ampliar uma mútua influência entre os lados da ciência e da poesia e constituir a noção antropológica do homem das 24 horasItem Estado em ideia: uma perspectiva crítica do direito kantiano(2024-06-17) Riveline, Guilherme Augusto; Scherer, Fábio César; Pavão, Aguinaldo Antônio Cavalheiro; Hahn, Alexandre; Cunha, Bruno LeonardoO tema desta pesquisa é a concepção de Estado de Kant em Primeiros princípios metafísicos da doutrina do direito, de 1797 (RL). Visa explicitar os seus fundamentos críticos. A partir da distinção entre respublica noumenon e respublica phaenomenon, presente no item oitavo da segunda seção do escrito Conflito das faculdades, e subjacente ao parágrafo 51 da doutrina do direito de 1797, investiga-se a teoria do Estado na RL. Assume-se que essa distinção fornece a estrutura arquitetônica-sistemática do direito do Estado em 1797, na qual o “Estado em ideia”, juntamente com a divisão dos poderes, é tratado nos parágrafos 45 a 49, e as diferentes formas, nas quais o poder do Estado aparece enquanto “pessoa física”, são expostas nos parágrafos 51 e 52. Seguindo uma outra indicação sobre essa distinção no direito do Estado, feita por Kant no final do prefácio da RL, implícita nas duas razões apontadas para o menor detalhamento das seções finais (concernentes ao direito público), pretende-se explicitar a concepção de “Estado em ideia” a partir do direito privado, bem como, endereçar a alegação de Kant de que há muitas discussões abertas à parte que tratam das formas do Estado, a doutrina da respublica phaenomenon. Adicionalmente, apontaremos que os conceitos críticos da concepção de Estado de 1797, já estão presentes no escrito À paz perpétua (1795), mas ainda não organizados sistematicamente sob essa distinção arquitetônica. Defende-se que essa distinção elementar, introduzida de forma sistemática em 1797, mas explicitada em sua forma crítica um ano depois, no Conflito das faculdades, é o critério-chave para a reconstrução argumentativa do direito do Estado em RL.