Educação matemática realística e teoria socioepistemológica da matemática educativa: um diálogo
Data
2026-03-31
Autores
Marino, Darlini Ribeiro
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Resumo
Este trabalho apresenta uma configuração de um diálogo entre a Educação Matemática Realística (RME) e a Teoria Socioepistemológica da Matemática Educativa (TSME), no contexto das discussões contemporâneas da Educação Matemática. A pesquisa justifica-se pela identificação de uma ausência de interlocução sistemática na literatura: embora ambas as abordagens compartilhem uma crítica à concepção da matemática como corpo de verdades acabadas e descontextualizadas, não se encontram estudos que as coloquem em interlocução sistemática a partir de seus fundamentos epistemológicos. Essa interlocução revela-se necessária porque permite ampliar o horizonte analítico da Educação Matemática, articulando uma perspectiva didática orientada à reinvenção com uma perspectiva que problematiza a constituição social do conhecimento. O objetivo geral consiste em elaborar e analisar esse diálogo com base em quatro eixos analíticos: atividade humana, realidade, matematização e princípios estruturantes. Trata-se de uma investigação qualitativa de natureza teórica, interpretativa e especulativa, fundamentada nos eixos metodológicos de interpretar, argumentar e recontar (Martineau; Simard; Gauthier, 2001). O corpus constitui-se de textos das duas abordagens, examinados em movimento intertextual e organizados por meio de uma análise em rede, evitando correspondências lineares e privilegiando deslocamentos conceituais. Os resultados indicaram que o diálogo entre RME e TSME não conduziu a uma síntese integradora, mas evidenciou uma complementaridade crítica de focos analíticos: enquanto a RME estruturou uma organização didática orientada à reinvenção guiada e à matematização progressiva, a TSME problematizou os processos de constituição, legitimação e ressignificação social do conhecimento matemático. Esse diálogo configurou-se não como mera comparação descritiva entre as abordagens, mas como um movimento reflexivo que produziu aproximações, explicitou diferenças de ênfase e gerou deslocamentos conceituais, compreendidos como a ressignificação ou o reposicionamento de determinados conceitos à luz da articulação entre os referenciais. A articulação dos eixos possibilitou interpretar a aprendizagem simultaneamente como trajetória didática e como participação em práticas normativamente estruturadas, sugerindo que a atividade do estudante se constitui em sistemas de normas históricas e culturais, que a realidade produziu racionalidades contextualizadas e que a progressão conceitual se configurou como uma narrativa de ressignificações sucessivas. Conclui-se que a interlocução entre RME e TSME amplia o horizonte de reflexão para além da sala de aula, inserindo a prática de ensino-aprendizagem no espectro mais amplo da construção social do conhecimento, sem jamais perder de vista a possibilidade e a responsabilidade de guiá-la intencionalmente. A principal contribuição é a proposição de um quadro teórico que pode subsidiar novas investigações e reconfigurar a compreensão das relações entre ensino, cultura e produção de significados matemáticos, oferecendo ferramentas para uma educação matemática mais justa, crítica e humana
Descrição
Palavras-chave
Educação matemática realística, Teoria socioepistemológica da matemática educativa, Diálogo, Atividade humana, Matematização, Ensino de matemática, Realidade