O Transtorno do Espectro Autista sob uma perspectiva multidimensional: variantes genéticas do MTHFR, biomarcadores metabólicos e capacitação de profissionais na atenção primaria

Data

2026-09-25

Autores

Roldan, Ana Cecilia Novaes de Oliveira

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Resumo

Introdução: O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento de natureza multifatorial e poligênica, cujas determinantes abrangem desde variantes genéticas no metabolismo do folato até déficits no acesso a diagnóstico precoce e capacitação profissional. Compreender o TEA exige, portanto, um olhar simultaneamente molecular e assistencial: entender o que se passa na célula não substitui entender o que se passa na sala de espera de uma unidade de saúde, e vice-versa. O presente projeto integra dois braços complementares, doravante denominados Braço 1 e Braço 2, desenvolvidos no âmbito de um programa de pós- graduação em ciências da saúde da Universidade Estadual de Londrina (UEL): (1) um estudo observacional transversal (Braço 1) que teve como objetivo investigar a associação entre variantes funcionais do gene MTHFR e a gravidade clínica do TEA, bem como a correlação entre as concentrações séricas de ácido fólico e homocisteína em pacientes ambulatoriais; e (2) um relato de experiência (Braço 2) que teve como objetivo descrever a implementação de um modelo de capacitação de profissionais de saúde da atenção primária para detecção precoce do TEA, baseado no modelo de Formação de Multiplicadores (Training of Trainers – ToT) e na Aprendizagem Baseada em Casos (Case-Based Learning – CBL).Materiais e métodos: Braço 1: estudo observacional transversal com 19 pacientes ambulatoriais com TEA com genotipagem completa do MTHFR. As variantes MTHFR 677C>T e 1298A>C foram genotipadas por PCR-RFLP. A atividade enzimática predita foi derivada de modelos genótipo–função validados. A gravidade do TEA foi avaliada pela Childhood Autism Rating Scale (CARS), aplicada a um subconjunto de 22 participantes que compareceram à avaliação clínica estruturada, e pelos critérios de nível de suporte do DSM-5. Realizou-se análise de correlação de Spearman entre os níveis séricos de ácido fólico e homocisteína disponíveis na amostra (n = 17). Braço 2: relato de experiência qualitativo descrevendo um programa piloto de capacitação com 47 profissionais de saúde de diferentes regiões do Brasil, com carga horária de 72 horas, integrando atividades síncronas e assíncronas, reconhecimento de sinais precoces do TEA, uso de instrumentos de triagem, fluxos de encaminhamento e comunicação com famílias .Resultados e discussão: Braço 1: nenhuma diferença estatisticamente significativa foi observada na distribuição dos níveis de suporte do DSM-5 entre os grupos de atividade enzimática preservada e reduzida do MTHFR (p = 0,56). A análise de correlação de Spearman entre concentrações séricas de ácido fólico e homocisteína demonstrou correlação negativa e estatisticamente significativa (ρ = −0,52; p = 0,032), indicando que maiores concentrações de ácido fólico estão associadas a menores concentrações de homocisteína, independentemente do nível de suporte do DSM-5. Braço 2: os participantes demonstraram elevado engajamento e melhora percebida na capacidade de reconhecer sinais precoces do TEA, na tomada de decisão clínica e na confiança no uso de instrumentos de triagem. O modelo ToT favoreceu a prontidão dos participantes para atuarem como multiplicadores do conhecimento na atenção primária. Conclusões: O Braço 1 não identificou associação estatisticamente significativa entre atividade enzimática predita do MTHFR e gravidade clínica do TEA, reforçando a necessidade de estudos com maior poder amostral. A correlação negativa e estatisticamente significativa entre ácido fólico e homocisteína séricos (ρ = −0,52; p = 0,032) confirma a relevância clínica da via metabólica do carbono-1 em pacientes com TEA e é consistente com os achados da literatura que descreveram de forma recorrente, ainda que heterogênea entre estudos, níveis reduzidos de folato e vitamina B12 e níveis elevados de homocisteína em indivíduos com TEA, com influência tanto de variantes do MTHFR quanto de alimentação inadequada. O Braço 2 demonstrou que a integração entre ToT e CBL constitui uma estratégia viável e potencialmente escalável para fortalecer a detecção precoce do TEA na atenção primária, complementando a dimensão clínico-biológica investigada pelo Braço 1. Tomados em conjunto, os dois braços sustentam a tese central deste projeto: o enfrentamento do TEA exige, ao mesmo tempo, compreensão etiológica, manejo clínico especializado e formação de profissionais de saúde — três frentes que só produzem impacto real quando avançam juntas.

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Palavras-chave

Transtorno do Espectro Autista, Metilenotetra-Hidrofolato Redutase, Ácido Fólico, Homocisteína, Capacitação Profissional

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