Quando a vida começa no limite: uma cartografia dos cuidados paliativos neonatais no SUS
Data
2026-07-20
Autores
Marson, Ana Paula
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Resumo
Resumo: Esta pesquisa acompanhou como se produzem os cuidados paliativos no contexto neonatal em um Hospital Universitário no município do Sul do Brasil, investigando os processos que emergem em uma Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) nas situações de fim de vida. O objetivo central foi analisar, a partir de uma perspectiva cartográfica, os modos de existência que se constituíram nas relações entre pais guias, bebês e profissionais de saúde, tomando o cuidado como produção situada, relacional e atravessada por forças micropolíticas. O referencial teórico-metodológico ancorou-se na cartografia inspirada em Deleuze e Guattari, em interlocução com autores da Saúde Coletiva, da Psicologia Hospitalar e dos Cuidados Paliativos, incluindo contribuições de Merhy, Rolnik, Puchalski, Saunders, Despret, entre outros. Ao operar a cartografia como percurso e como perspectiva analítica, o estudo deslocou a compreensão do cuidado para além de sua dimensão técnico assistencial, afirmando-o como prática ética, afetiva, comunicacional e espiritual. A micropolítica do cuidado constituiu o eixo analítico central, evidenciando como decisões clínicas, práticas comunicacionais, gestos cotidianos e dimensões espirituais produziram efeitos éticos e subjetivos nos pais-guias, configurando territórios de sofrimento, resistência e criação. O acompanhamento cartográfico das cenas de cuidado revelou que os encontros entre pais, bebês e equipe de saúde sustentaram afetos potentes, capazes de orientar decisões compartilhadas e práticas mais sensíveis às singularidades de cada família. Quatro campos de forças atravessaram a análise do percurso: a conversação, compreendida como tecnologia leve produtora de vínculo e de sentidos; as ressonâncias afetivas, como força micropolítica que reorganizou práticas e relações; a ética, entendida como negociação viva no cotidiano do cuidado; e a espiritualidade, tomada como dimensão constitutiva do cuidar e do morrer, que emergiu nos rituais, nos gestos mínimos e nos modos singulares de cada família significar a vida breve do bebê. Esses campos de força não operaram de forma isolada, mas se interpenetraram e se coproduziram nos encontros. Apsicologia hospitalar foi evidenciada como campo de força transversal na produção do cuidado paliativo neonatal, atuando na mediação de sentidos, na sustentação da escuta qualificada, no manejo dos afetos da equipe e na construção compartilhada de decisões em contextos de alta complexidade. Os achados indicaram que, embora os protocolos tenham orientado as práticas, mostraram-se insuficientes frente à singularidade das situações, exigindo atualização contínua no plano das relações, da escuta e da negociação com as famílias. Compreendida como intervenção implicada, a pesquisa afirmou o cuidado paliativo neonatal como campo que integrou ciência, sensibilidade e responsabilidade compartilhada, no qual conversação, ressonâncias afetivas, espiritualidade e ação ética são dimensões inseparáveis do cuidado em saúde
Descrição
Palavras-chave
Cuidados paliativos neonatais, Cartografia, Micropolítica do cuidado, Psicologia hospitalar, Recém-nascidos, Cuidados paliativos, Psicologia médica