Atendimento às recomendações dos comportamentos de movimento de 24 horas e indicadores de saúde mental em escolares da rede pública estadual de Londrina, PR
Data
2026-02-24
Autores
Lonardoni, Giulia Signori
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Resumo
Introdução: Os transtornos mentais, especialmente a depressão e a ansiedade, representam um importante desafio de saúde pública global e, geralmente, têm início na adolescência, período marcado por intensas transformações biopsicossociais e elevada vulnerabilidade. Evidências apontam que comportamentos relacionados ao movimento ao longo das 24 horas, como a atividade física moderada a vigorosa (AFMV), comportamento sedentário, especialmente o tempo de tela (TT) e sono, e influenciam de forma interdependente a saúde mental de adolescentes. O paradigma dos Comportamentos de Movimento de 24 horas (CM24h) propõe uma abordagem integrada desses comportamentos, indicando que maior adesão às diretrizes está associado à melhores desfechos de saúde mental. Entretanto, ainda se observa baixa prevalência de atendimento simultâneo às recomendações, além de lacunas metodológicas dos estudos e escassez de evidências no contexto brasileiro. Assim, investigar a associação entre a adesão aos CM24h e a sintomatologia depressiva (SDEP) e ansiosa (SANS) em adolescentes torna-se fundamental para subsidiar estratégias de promoção da saúde mental e orientar políticas públicas preventivas. Objetivos: Revisar de forma sistemática as evidências na literatura sobre as prevalências e as associações dos atendimentos isolados, combinados e integrados dos comportamentos de movimento de 24 horas com indicadores de saúde mental em adolescentes e analisar as associações entre os atendimentos aos comportamentos integrados de movimento de 24 horas e a SDEP e SANS em escolares da rede estadual de Londrina-PR, total e por sexo. Métodos: O presente estudo foi dividido em dois artigos. O primeiro trata-se de uma revisão sistemática de estudos observacionais, conduzida conforme as diretrizes PRISMA e registrada no PROSPERO. As buscas foram realizadas em seis bases de dados. Foram incluídos estudos com crianças e/ou adolescentes que avaliaram o atendimento às diretrizes dos CM24h (de forma isolada, combinada e integrada) e pelo menos um indicador de saúde mental. A seleção foi realizada de forma independente por dois revisores. Extraíram-se dados descritivos, métodos de mensuração, análises estatísticas, covariáveis e medidas de efeito. A qualidade metodológica foi avaliada pelo checklist do Joanna Briggs Institute. O segundo, trata-se de um estudo transversal, de base escolar, realizado com adolescentes matriculados no ensino médio da rede pública estadual de Londrina-PR. A amostragem foi conduzida em dois estágios, com seleção aleatória de escolas por região geográfica do município e, posteriormente, de turmas dentro das escolas. Todos os preceitos éticos foram atendidos. A amostra final foi composta por 634 adolescentes de ambos os sexos, com idade média de 16,86±0,9 anos. A SDEP foi avaliada pela CES-DC e a SANS pela GAD-7. Os CM24h foram mensurados por instrumentos validados e dicotomizados em atendimento/não atendimento (AFMV pelo QAFA, =420 minutos/semana; TT por questionário, <2 h/dia; sono a partir dos horários habituais de dormir e acordar, 8 a 10 horas/noite). Os comportamentos foram agregados e classificados em atendimento a uma, duas ou três recomendações. Para a análise, foi utilizado a regressão linear, ajustada por idade, nível socioeconômico e comportamentos de risco, com análises estratificadas por sexo. Resultados: Na revisão foram incluídos 24 estudos, majoritariamente com delineamento transversal. Observou-se ampla heterogeneidade metodológica, com predomínio de instrumentos autorrelatados para CM24h e indicadores de saúde mental. As prevalências de atendimento isolado às diretrizes variaram amplamente, o atendimento simultâneo às três diretrizes foi baixo, variando de 1,7% a 25%. Estudos longitudinais reforçaram que manter ou aumentar a aderência aos CM24h ao longo do tempo se associou à redução dos indicadores de saúde mental, com efeitos frequentemente mais pronunciados entre moças. A qualidade metodológica foi moderada a alta, embora persistam limitações relacionadas à padronização das medidas e ao predomínio de delineamentos transversais. No segundo artigo, foi observado que as moças apresentaram escores médios mais elevados de SDEP (27,45±10,8 vs. 19,30±8,8; p<0,001) e SANS (10,29±5,3 vs. 6,21±4,2; p<0,001) quando comparadas aos rapazes. Apenas 9,9% dos adolescentes atenderam às três recomendações dos CM24h e 11,5% não atenderam a nenhuma. Na amostra total, o atendimento a uma recomendação esteve associado à redução média de 4,62 pontos na SDEP (B= -4,622; p=0,001), a duas recomendações à redução de 6,04 pontos (B=-6,039; p<0,001) e a três recomendações à redução de 5,14 pontos (B= -5,142; p=0,005). Para a SANS, observaram-se reduções de 1,76 (B= -1,763; p=0,012), 2,06 (B= -2,060; p=0,003) e 1,93 pontos (B= -1,933; p=0,032), respectivamente. Nas análises estratificadas, as associações significativas foram observadas predominantemente entre as moças. Conclusão: Os achados desta dissertação indicam, de forma consistente, que maior adesão às diretrizes dos CM24h associa-se a melhores indicadores de saúde mental em adolescentes, com efeitos mais pronunciados quando os comportamentos são considerados de forma integrada, entre as moças. Contudo, a baixa prevalência de atendimento integral às recomendações evidencia a necessidade de estratégias estruturadas no contexto escolar e comunitário. Esses resultados reforçam a relevância do paradigma dos CM24h como eixo central para a promoção da saúde mental na adolescência e para o direcionamento de intervenções e políticas públicas baseadas em evidências
Descrição
Palavras-chave
Estudantes, Comportamento sedentário, Sono, Tempo de tela, Atividade motora, Saúde mental, Adolescentes, Depressão, Ansiedade, Atividade física, Promoção da saúde, Políticas públicas