O conceito de comportamento precorrente em B. F. Skinner

Data

2025-08-25

Autores

Fonseca, Thaís Sousa Silva Belo da

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Resumo

O comportamentalismo radical é a filosofia da ciência do comportamento proposta por B. F. Skinner. A radicalidade dessa proposta na psicologia consiste na ideia de suficiência do comportamento para explicar a ele mesmo, isto é, sem recorrer a instâncias mediacionais que o produzam. Essa noção coloca o comportamento como central na explicação de fenômenos psicológicos complexos, que são tradicionalmente interpretados como sintomas ou subprodutos de instâncias existentes em outros sistemas dimensionais. Para viabilizar sua proposta de filosofia e de ciência, Skinner precisou explicar fenômenos como a criatividade, a resolução de problemas, o pensamento, a percepção, entre outros, por meio da sua proposição de comportamento e apenas dela. Para tanto, a noção de comportamento precorrente parece ter sido crucial. Esse conceito aparece em diversos momentos da produção intelectual de Skinner, atrelada a fenômenos interpretados como complexos pela literatura, o que sinaliza que ela pode ter tido um papel importante na filosofia de B. F. Skinner. Dessa forma, o objetivo desta pesquisa teórico-conceitual consistiu em apresentar uma síntese interpretativa da formulação e da função teórico-argumentativa do conceito de comportamento precorrente na proposta filosófica de B. F. Skinner. Para isso, foi realizada uma investigação em toda a produção intelectual de Skinner: livros, artigos científicos e não-científicos. Foi realizado um rastreio em todos os arquivos em formato de ficheiro digital portátil (PDF) do(s) termo(s) comportamento/resposta “precorrente” e “preliminar”. Todas as ocorrências foram catalogadas e todos os textos em que a noção apareceu foram lidos na íntegra. Foram conduzidas duas análises a partir dos achados. A primeira análise, operacional, foi realizada a partir da proposição do próprio Skinner em 1945 no texto “A análise operacional de termos psicológicos”, em que o autor sugere que o “significado” de termos psicológicos só pode ser sugerido a partir do contexto em que esses termos aparecem. Assim, o significado do termo precorrente foi identificado e proposto a partir da coletânea de ocorrências e identificação dos contextos em que o termo apareceu. O resultado dessa investigação revelou que o termo precorrente (e correlatos) apareceu 61 vezes nos escritos de Skinner, entre os anos de 1930 e 1970, nos seguintes contextos: (a) como comportamentos que afetam a medição de outros comportamentos de interesse, (b) como comportamentos de atenção e observação, (c) como atividades cognitivas e (d) como manejo de condições motivacionais. A partir disso, propôs-se uma definição que levasse em consideração todos os usos feitos pelo autor. Pode-se dizer que Skinner considerava comportamentos precorrentes como respostas que a) são necessárias para a ocorrência subsequente de uma resposta operante terminal que, em última instância, produz reforçamento (ou minimiza/remove/evita estimulação aversiva) e/ou b) tornam a ocorrência de uma resposta operante terminal mais provável. A segunda parte da investigação consistiu em uma análise conceitual dos textos em que essa noção se fez importante. Para tanto, foi realizado o Procedimento de Interpretação Conceitual de Texto (PICT) em todos os textos em que o termo “precorrente” foi utilizado pelo autor. Foi possível identificar que o termo precorrente apareceu nos escritos de Skinner de forma recorrente vinculado a diversos fenômenos psicológicos complexos, como a resolução de problemas, o pensamento, o autogerenciamento intelectual, a criatividade, a tomada de decisão, o pensamento, o raciocínio, a memória, a percepção, a atenção, o autocontrole, a tomada de decisão, a liberdade e a autonomia. A análise mostrou que tais fenômenos eram tradicionalmente explicados a partir de propostas mentalistas, que foram fortemente criticadas por Skinner. A tese alternativa para explicar esses fenômenos sem recorrer às instâncias e estruturas mediacionais (como a mente ou o cérebro) foi a de que o comportamento é suficiente para explicar a ele mesmo e que tais fenômenos podem ser explicados a partir da noção de comportamento precorrente. A noção de precorrente mantém seu núcleo conceitual em torno da noção de comportamento que afeta a ocorrência de outro comportamento, mas apresenta particularidades funcionais para cada um dos fenômenos discutidos pelo autor, adquirindo diferentes características predominantes. Em alguns contextos o precorrente funciona como modulador intelectual (como na discussão sobre resolução de problemas, raciocínio e pensamento), em outros como fator de ampliação da agência do indivíduo (como ao discutir tomada de decisão, autocontrole e liberdade) e em outros com uma função na geratividade da resposta (na discussão sobre criatividade e percepção). A partir disso, defendeu-se o papel central da noção de precorrente na proposta de radicalidade do comportamentalismo de Skinner, uma vez que a noção de precorrente assegurou que o autor pudesse discutir sobre fenômenos psicológicos complexos, tradicionalmente atribuídos à uma estrutura cognitiva, mantendo-se fiel ao princípio estabelecido de explicar o comportamento por meio dele mesmo. Foi apresentada, por fim, a proposta de que o precorrente possa ser interpretado como um princípio articulador central da cognição e do comportamento humano complexo na perspectiva comportamentalista radical

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Palavras-chave

Comportamento precorrente, Comportamentalismo Radical (Psicologia), Epistemologia, Análise do Comportamento, Cognição, Teoria da mente

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