Sobre futuros (in)imagináveis e (im)previsíveis: a produção contística da ficção científica feminista brasileira dos anos 2010
Data
2025-12-11
Autores
Ferreira, Priscila Aparecida Borges
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Resumo
Esta tese investiga a produção contística da ficção científica feminista brasileira publicada nos anos 2010, buscando compreender e responder à problemática: de que modo as autoras contemporâneas reconfiguram o gênero literário ficção científica ao problematizar questões de gênero, corpo, maternidade, tecnologia e poder? Ao constatar que a ficção científica nacional foi historicamente construída como espaço predominantemente masculino, a pesquisa propõe uma leitura crítica que coloca as escritoras brasileiras no panorama da ficção científica e da crítica feminista, reconhecendo nelas o gesto político de (re)escrever o futuro desde o corpo e o território. O estudo alicerça-se em referenciais da crítica feminista e dos estudos de ficção científica, articulando teóricas como Donna Haraway (1991), Sarah Lefanu (1988), Joanna Russ (1995), Judith Butler (2018), Michelle Perrot (2007), Silvia Federici (2019), DarkoSuvin (1977) e Adam Roberts (2018), entre outros, para discutir como o novum e outras categorias da ficção científica são mobilizados na construção de mundos que tensionam, questionam e reinventam a sociedade patriarcal contemporânea. Metodologicamente, adota-se uma análise qualitativa de caráter crítico-feminista e sociocultural, fundamentada na leitura comparativa e na análise discursiva das representações de gênero, corpo e tecnologia em contos das coletâneas Universo Desconstruído (Sybylla; Valek, 2013; 2014) e Aqui quem fala é da Terra (Caniato; Bianchi, 2018). As análises evidenciam que a ficção científica escrita por mulheres no Brasil transforma o espaço tradicionalmente masculino da ciência em arena de resistência, memória e reinscrição do ser mulher, promovendo o deslocamento da figura feminina de objeto narrativo para sujeito produtor de conhecimento e de futuros possíveis. Nos contos “Eu, incubadora”, “Cidadela” e “Amor fortemente elíptico”, a maternidade é representada como território biopolítico, em que a reprodução se torna campo de controle e também de insurgência. Em “Boneca”, a infância é problematizada como mercadoria afetiva, enquanto em “Codinome Electra” e “Memória sintética” o corpo feminino e a tecnologia se articulam na reconfiguração do sujeito ciborgue. Já em “Uma terra de reis” e “Réquiem para a humanidade”, desloca-se o centro da narrativa e reescreve-se o pós-apocalipse como espaço de crítica à colonização, à hierarquia e ao poder patriarca. Em “Projeto Áquila” e “BSS Mariana”, a memória funciona como forma de resistência e de reconstrução identitária frente à ruína e ao esquecimento. Há também contos que exploram o humor e a paródia, como “O morango de Itaipu”, “Dois ou um” e “O fantasma veio para a festa” que revelam o riso como estratégia de crítica social e de reconstrução de identidades. Conclui-se que a ficção científica feminista brasileira da década de 2010 reimagina a ficção científica como espaço de criação de mundos éticos, plurais, insurgentes e resistentes, em que o gesto de fabular é também o de resistir. Reconhecer essas vozes é reconhecer a potência política e estética da escrita de mulheres que, ao narrarem o futuro, intervêm criticamente no presente.
Descrição
Palavras-chave
Ficção científica escrita por mulheres, Crítica feminista, Autoria feminina, Literatura brasileira contemporânea, Ficção científica brasileira, Escritoras brasileiras, Gênero, Corpo, Maternidade, Tecnologia