Coreografias do fragmento: um estudo dos romances Pequena coreografia do adeus e O peso do pássaro morto, de Aline Bei
Data
2025-10-24
Autores
Palazzio, Letícia
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Resumo
Esta dissertação busca analisar os romances Pequena coreografia do adeus (2021) e O peso do pássaro morto (2017), da escritora brasileira Aline Bei, enquanto textos híbridos que combinam prosa, drama e poesia. A pesquisa parte da hipótese de que, por meio da exploração da visualidade da escrita nas formas de diagramação e nas escolhas tipográficas, a autora potencializa o jogo interpretativo das experiências das narradoras como mãe, filha e mulher, ao mesmo tempo em que expande os paradigmas do gênero romance. Para isto, utilizamos como referencial teórico os estudos sobre intermidialidade (Veneroso, 2002; Clüver, 2019; Martoni, 2020), bem como reflexões acerca da forma romanesca (Bakhtin, 1998) e da construção da personagem (Candido, 2007). No campo dos estudos de gênero, recorremos a autoras como Simone de Beauvoir (2009) e Rozsika Parker (1984), de modo a articular os procedimentos estéticos de Bei às discussões sobre feminilidade, maternidade e violência. A metodologia consiste na análise individual e comparativa dos romances, com atenção às escolhas temático-formais da escritora que auxiliam na construção de sentidos. Bakhtin (1998) escreve que, além de ser um gênero em formação e, por isto, ainda inacabado, o romance apropria-se de outros gêneros, deslocando alguns e incorporando outros à sua própria construção. Partindo dessa premissa, compreendemos que Bei, consciente da natureza híbrida e expansiva do romance, explora e desenvolve as suas potencialidades ao dialogar com outros gêneros, reafirmando a sua flexibilidade estrutural. A proposição da forma híbrida nos romances da autora parte do conceito central de visualidade, a partir do qual estabelecemos uma distinção entre a aproximação da prosa com a poesia e a aproximação da prosa com o drama. Importante destacar que, na apropriação desses gêneros, não há uma incorporação total de suas estruturas; Bei seleciona apenas alguns elementos específicos, o que reforça seu trabalho de hibridização ao recolher fragmentos e traços formais de diferentes gêneros. Em O peso do pássaro morto, a protagonista não nomeada vivencia traumas, perdas e violências que moldam sua identidade, representando um processo de apagamento feminino. Já em Pequena coreografia do adeus, a trajetória de Júlia, marcada por uma infância de desamparo, disputas afetivas e também violência, evidencia relações familiares disfuncionais e o impacto dos ideais de feminilidade. Em ambos os romances, o leitor é convidado a experimentar, na materialidade do texto, os sentimentos que constituem e fragmentam as narradoras. Com isso, os romances da autora oferecem personagens que revelam as multifaces do feminino diante de uma narrativa híbrida e performática, contribuindo para uma compreensão mais complexa das dinâmicas de violência, da perda, da culpa e da elaboração simbólica da dor. Conclui-se que a obra de Aline Bei, mesmo em fase inicial, já constitui um projeto literário consolidado, tanto pelos temas que envolvem situações de opressão e resistência vividas por mulheres quanto pela forma como a autora dá voz a essas vivências, ou seja, por meio de uma linguagem que não apenas expressa, mas constrói sentidos na medida em que ocorre a atividade leitora.
Descrição
Palavras-chave
Aline Bei, Hibridismo literário, Feminino, Bei, Aline - 1987, Literatura brasileira contemporânea, Escrita, Intermidialidade, Feminilidade, Violência contra a mulher, Maternidade