“Abaixo os ateus!”: a construção da identidade cristã na carta Martyrium Polycarpi e o culto imperial romano na Ásia menor (séc. II D.C.)

Data

2026-01-29

Autores

Silva, Diego Henrique Sanches da

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Resumo

A dissertação, intitulada “Abaixo os ateus!: a construção da identidade cristã na carta Martyrium Polycarpi e o Culto Imperial Romano na Ásia Menor (séc. II d.C.)”, investiga o fenômeno do martírio como um mecanismo fundamental na elaboração da identidade do movimento cristão primitivo em oposição à identidade sacra do Império Romano. O presente trabalho estabelece como objetivo geral a análise do martírio como uma construção de memória e uma experiência sociorreligiosa que nutriu o grupo cristão em seu processo de autodefinição. Especificamente, a pesquisa estuda na Martyrium Polycarpi (Mart. Pol.) a figura do mártir como elemento de construção de fronteiras identitárias, analisa a percepção romana do martírio como penalidade judicial em contraste com a experiência cristã da imitatio Christi, e reconstrói a elaboração do martírio como uma memória viva e coletiva que fortaleceu a identidade cristã frente à cultura greco-romana. Metodologicamente, a dissertação articula a análise histórica da fonte principal, a Mart. Pol. – carta anônima que narra o martírio de Policarpo de Esmirna por volta de 156 d.C. – com um referencial teórico pautado nos estudos sobre identidade e memória, aplicando a teoria de identidade de Siân Jones, que entende a identidade como relacional e construída ativamente na demarcação de fronteiras. Nessa perspectiva, o interrogatório romano buscou apagar a fronteira pela imposição do sacrifício, enquanto o martírio reforçou-a, tornando a distinção entre cristão e não-cristão absoluta. Nesse sentido, também utiliza fontes comparadas, como a carta de Plínio a Trajano, para contextualizar a relação conflitiva entre as autoridades romanas e o movimento cristão na Ásia Menor. A pesquisa conclui que a identidade cristã na Ásia Menor do século II se forjou ativamente na fronteira com a cultura romana, utilizando a rejeição ao culto imperial e a celebração dos mártires como os principais marcadores de sua alteridade. A recusa cristã em participar do culto ao imperador e aos deuses tradicionais representava uma profunda ruptura social e política, pois contestava a ideologia imperial que via o soberano como o garantidor da pax deorum e eixo de coesão social. A Mart. Pol. funcionou como um dispositivo de memória e normatividade para a comunidade, construindo modelos exemplares de conduta e o martírio conferiu um valor performativo ao sofrimento, consolidando a fé e marcando a fronteira simbólica entre os eleitos e os incrédulos, permitindo que a comunidade cristã devolvesse a acusação popular de ateísmo aos seus perseguidores, identificando-os como os verdadeiros atheos. Assim, o martírio tornou-se um elemento decisivo que afirmou a contraidentidade cristã frente ao sistema imperial

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Palavras-chave

Martírio, Culto imperial, Identidade, Martyrium Polycarpy, Cristianismo primitivo, Religião, Poder, Cristianismo, Memória coletiva, Cultos

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