Survey nacional sobre o preparo dos hospitais frente a desastres naturais
Data
2025-03-19
Autores
Guimarães, Percival Vitorino
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Resumo
Introdução: Os desastres, sejam naturais ou artificiais, causam impactos significativos nas sociedades. Enquanto desastres artificiais, como acidentes industriais, são frequentemente resultados de falhas humanas e urbanização desordenada, os desastres naturais resultam de fenômenos geológicos e climáticos. Pandemias, como a COVID-19, representam um tipo único de desastre devido à sua ampla disseminação e complexidade, com impacto profundo na saúde pública, a economia e a estrutura social. O colapso de sistemas de saúde durante a COVID-19 expôs a necessidade de reorganização hospitalar, aumento de leitos de UTI e de capacitação de profissionais para lidar com emergências em larga escala. Objetivo: Avaliar o preparo do sistema de saúde nacional frente a pandemia e comparar a capacidade de enfrentamento e recuperação entre instituições públicas e privadas. Metodologia: Estudo transversal com coleta de dados por meio de questionários estruturados, aplicados a profissionais de saúde que atuaram em serviços de urgência, emergência e terapia intensiva durante a pandemia. Amostragem de conveniência dos profissionais convidados a participar por uma rede de pesquisa nacional brasileira, AMIBnet (rede de pesquisa da Associação de Medicina Intensiva Brasileira) via plataforma da própria da rede. O questionário, estruturado segundo o método Delphi, incluiu 44 questões divididas em quatro seções, cobrindo desde a caracterização do participante e da instituição até as práticas durante e após a pandemia. Os dados foram coletados pela plataforma SurveyMonkey®. A análise dos dados coletados foi realizada em duas partes. Na primeira, o estudo buscou analisar a percepção dos profissionais quanto à experiência e capacitação, segurança do paciente, estrutura física, recursos humanos, logística de serviços, planejamento na pandemia, resposta institucional de recursos humanos e provisão de insumos. Para este objetivo, os participantes do estudo foram divididos em três grupos de acordo com a similaridade das características demográficas informadas (idade, gênero, nível de educação, experiência profissional, local de trabalho, tipo de instituição e hospital universitário). Este agrupamento (clustering) dos participantes foi realizado através do algoritmo K-means. Para a segunda etapa, a disponibilidade de equipamentos, insumos, recursos tecnológicos e o quantitativo de leitos de enfermaria e UTI antes, durante e após a pandemia foram explorados. Os dados foram analisados de acordo com o tipo de hospital (privado, filantrópico ou público) onde cada participante exercia seu trabalho na maior parte do tempo. Os dados foram apresentados como frequência relativa e foram analisados com o teste de chi-quadrado. O nível de significância utilizado foi de 5%. Resultados: A maioria dos profissionais atua em UTI. A maioria dos profissionais concordou quanto à existência de um planejamento estratégico prévio adequado para desastres. A maioria dos profissionais concordou que houve necessidade de substituir medicações sedativas e vasopressores, o que sugere uma percepção coletiva de escassez desses insumos. Dentre os isolamentos, a maioria dos profissionais relatou que os pacientes foram alojados em coortes abertas. Houve disparidades significativas na alocação de recursos com relação a disponibilidade de equipamentos essenciais entre instituições de saúde privadas, filantrópicas e públicas. A falta de Equipamentos de Proteção Individual(EPIs) foi o insumo com maior frequência de percepção entre os grupos. Quanto a expansão da oferta de leitos, os grupos perceberam positivamente a expansão dos leitos, contudo, apesar da expansão, alguns profissionais sentiram que a capacidade aumentada não foi completamente ideal para a demanda. Durante a pandemia houve expansão de leitos, sendo que as instituições privadas tinham maior frequência de unidades com oferta de leitos de Terapia Intensiva com numero igual ou menor a 10 leitos e entre 11 e 30 leitos e as instituições públicas apresentaram maior frequência de unidades com oferta de leitos de Terapia Intensiva superior 100 leitos. Após a pandemia, as instituições públicas preservaram a quantidade de unidades com quantidade superior a 100 leitos além de um incremento de 23,7% na quantidade de leitos, entre 31-50 na Terapia Intensiva. Quanto aos leitos de enfermaria as instituições públicas mantiveram um incremento de 21,7% nas unidades com mais de 200 leitos de enfermaria, ou seja, as instituições públicas mantiveram um número maior de leitos, tanto de enfermaria quanto de UTI em relação as instituições privadas e filantrópicas. Conclusão: Este estudo observou que houve uma resposta positiva do SUS frente a pandemia, onde apesar das instituições privadas e filantrópicas terem acesso mais rápido a recursos materiais e de insumo, o planejamento emergencial teve impacto robusto na ampliação do número de leitos de enfermaria e UTI nas instituições publicas e a manutenção de um percentual maior que 20% do total desses leitos no pós pandemia. Tal fato contribui para o entendimento das diferenças na capacidade de resposta entre instituições de saúde no Brasil e sugere recomendações para o fortalecimento da estrutura hospitalar, visando aumentar a resiliência frente a eventos de grande escala.
Descrição
Palavras-chave
Desastres, Pandemia, Terapia Intensiva, Urgência/ Emergência, Enfrentamento - Pessoal de saúde, Administração Hospitalar - Desastres naturais