Biofilme, imunopatogênese e abordagens terapêuticas na infecção por Arthrographis kalrae: caracterização em modelos in vitro e de infecção sistêmica
Data
2026-04-30
Autores
Souza, Bianca Dorana de Oliveira
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Resumo
Arthrographis kalrae é um patógeno oportunista emergente com reconhecido potencial neurotrópico e angioinvasivo. Apesar de sua relevância clínica, pouco se sabe sobre o papel da formação de biofilmes e dos antígenos solúveis derivados dessas estruturas nas interações patógeno-hospedeiro. Além disso, o diagnóstico e o tratamento da infecção por A. kalrae permanecem como desafios clínicos. Este estudo teve como objetivos caracterizar a formação de biofilme e o perfil de seus antígenos solúveis in vitro, descrever a patogênese da infecção sistêmica em modelo murino e avaliar a eficácia terapêutica dos antifúngicos itraconazol e terbinafina. A formação de biofilme por A. kalrae foi caracterizada por meio da quantificação de biomassa (cristal violeta) e microscopia eletrônica de varredura (MEV). Macrófagos RAW 264.7 foram expostos a células planctônicas ou associadas ao biofilme, bem como a antígenos livres de células (CFA). Ambas as formas de crescimento reduziram a viabilidade dos macrófagos e inibiram significativamente a produção de óxido nítrico (NO) e interleucina-6 (IL-6) induzida por lipopolissacarídeos (LPS) (p < 0.0001). Observou-se um efeito inibitório na produção de NO mais pronunciado nas células e CFA derivados de biofilme, os quais também exibiram maior citotoxicidade em macrófagos não ativados (p < 0.05). A análise de biofilmes demonstrou um aumento progressivo na biomassa, nas estruturas características de biofilme e por immunoblotting na reatividade antigênica e enriquecimento de componentes de alta massa molecular durante a maturação do biofilme (48 - 144 h). Paralelamente, na etapa in vivo, camundongos BALB/c foram infectados por via intravenosa, tratados ou não e monitorados quanto a sinais clínicos, carga fúngica tecidual (unidade formadora de colônia - UFC), alterações histopatológicas, antigenemia e resposta imune humoral. Os resultados demonstraram que 30% dos animais do grupo controle infectado/não tratado desenvolveram uma síndrome neurológica caracterizada por tremores, ataxia, inclinação cefálica, giros e andar em círculos. Colônias viáveis foram recuperadas da maioria dos órgãos avaliados (cérebro, rim, fígado, baço), com exceção dos pulmões, evidenciando o tropismo sistêmico do fungo. O tratamento com terbinafina (75 mg/kg) preveniu totalmente o surgimento de sinais neurológicos graves e evitou a perda de peso, enquanto o itraconazol (50 mg/kg) reduziu a incidência da síndrome de 30% para 11.1%. A terbinafina também promoveu uma redução significativa da carga fúngica no fígado e baço (p < 0,05) em comparação ao grupo controle, eficácia não atingida pelo itraconazol. A histopatologia cerebral do grupo controle infectado/não tratado revelou meningoencefalite multifocal com infiltrados inflamatórios nas regiões meníngea, cortical, talâmica e hipotalâmica. Nessas regiões, foram detectadas alterações como microabscessos, manguitos perivasculares e início de gliose. Camundongos tratados com terbinafina apresentaram proteção neural superior, com apenas infiltrados inflamatórios leves e localizados, enquanto o grupo itraconazol exibiu manguitos perivasculares moderados e gliose persistente. Ambos os fármacos reduziram os níveis de antígenos circulantes (antigenemia) (p < 0.05); no entanto, apenas o tratamento com terbinafina resultou na diminuição dos níveis de anticorpos IgG específicos (p < 0.05). Adicionalmente, a presença de antígenos foi detectada na urina dos camundongos infectados. Em conclusão, a formação de biofilme por A. kalrae induz alterações qualitativas e quantitativas na produção de antígenos, potencializando tanto os efeitos citotóxicos quanto os imunomoduladores. Os achados confirmam a agressividade neurotrópica do patógeno e demonstram que a antigenemia e a resposta humoral são biomarcadores sensíveis para o monitoramento da eficácia antifúngica. A terbinafina surge como uma estratégia terapêutica superior neste modelo de micose sistêmica neuroinvasiva.
Descrição
Palavras-chave
Imunomodulação, Infecções fúngicas invasivas, Meningoencefalite, Neurotropismo, Terbinafina