FRANCELINE PRISCILA GUSMÃO REDES PESSOAIS E A INSERÇÃO DE JOVENS NO “MUNDO DO CRIME”: UMA ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE JOVENS ENVOLVIDOS E NÃO ENVOLVIDOS COM ESSE CONTEXTO Londrina 2024 PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA DOUTORADO EM SOCIOLOGIA FRANCELINE PRISCILA GUSMÃO REDES PESSOAIS E A INSERÇÃO DE JOVENS NO “MUNDO DO CRIME”: UMA ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE JOVENS ENVOLVIDOS E NÃO ENVOLVIDOS COM ESSE CONTEXTO Londrina 2024 FRANCELINE PRISCILA GUSMÃO REDES PESSOAIS E A INSERÇÃO DE JOVENS NO “MUNDO DO CRIME”: UMA ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE JOVENS ENVOLVIDOS E NÃO ENVOLVIDOS COM ESSE CONTEXTO Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina, como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Sociologia. Orientador: Prof. Dr. Cléber da Silva Lopes. Londrina 2024 FRANCELINE PRISCILA GUSMÃO REDES PESSOAIS E A INSERÇÃO DE JOVENS NO “MUNDO DO CRIME”: UMA ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE JOVENS ENVOLVIDOS E NÃO ENVOLVIDOS COM ESSE CONTEXTO Tese apresentada ao Programa de Pós- graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Londrina, como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Sociologia. BANCA EXAMINADORA ____________________________________ Orientador: Prof. Dr. Cléber da Silva Lopes Universidade Estadual de Londrina – UEL ____________________________________ Dra. Camila Caldeira Nunes Dias Universidade Federal do ABC – UFABC ___________________________________ Dra. Renata Mirandola Bichir Universidade de São Paulo – USP ____________________________________ Dr. Luís Felipe Zilli do Nascimento Fundação João Pinheiro – FJP __________________________________ Dr. Marcos Flávio Rolim Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter Londrina, 16 de dezembro de 2024. AGRADECIMENTOS Chegar até aqui não foi um caminho fácil. Ao observar minha tese finalizada, pode-se ter a impressão de que o percurso foi tranquilo e desprovido de grandes obstáculos. Contudo, a realidade se desenrolou de forma bem diferente. Ao longo da elaboração deste trabalho, enfrentei momentos de imensa dificuldade, que me ensinaram a importância da resiliência e do suporte das pessoas ao meu redor. Além disso, nesse tempo, passei por perdas muito significativas. Meu pai, que estava doente, e recentemente meu avô. Esses momentos de dor e luto me testaram de maneiras que eu jamais imaginaria, colocando em perspectiva a importância da família e da saúde mental durante a trajetória acadêmica e em todos os aspectos da vida. Apesar dos obstáculos, houve também alegrias imensuráveis. O nascimento da minha filha Olívia, em meio a tantos desafios, trouxe luz e renovação para minha vida. Ela me ensinou, todos os dias, sobre o equilíbrio entre o profissional e o pessoal, e me motivou a seguir em frente, mesmo quando a exaustão parecia me vencer. Não teria conseguido concluir este trabalho sem a ajuda incondicional de minha família. Meu companheiro Douglas e minha mãe Dirce, especialmente, desempenharam papéis cruciais, proporcionando o apoio necessário para que eu conseguisse focar na escrita da tese. À minha mãe, que sempre foi um pilar de força, e ao meu companheiro, que está sempre ao meu lado, tanto nos momentos de alegria quanto nos de dificuldade, meu mais profundo agradecimento. Agradeço também ao meu orientador Cleber da Silva Lopes pelas considerações apontadas no processo de pesquisa, pela objetividade e didática no processo de orientação. Estendo meus agradecimentos à Renata Bichir e ao Marcos Rolim pelas importantes contribuições no exame de qualificação e no exame final, bem como à Camila Dias e ao Luiz Felipe Zilli pelas contribuições no exame final. Agradeço também aos colegas do LEGS pela leitura e contribuições para o processo de escrita e de pesquisa. Sou grata aos meus colegas de turma do doutorado do ano 2019, pela companhia no pouco tempo que convivemos juntos (em razão da pandemia da COVID-19), pelas trocas de ideias, informações e experiências. À equipe técnica da Guarda Mirim agradeço por confiar neste estudo e compreender a relevância do mesmo e, assim, autorizar a participação dos educandos. Agradeço à Secretaria de Assistência Social por permitir o desenvolvimento da pesquisa no CREAS e sou muito grata à equipe técnica do CREAS por não medir esforços no apoio ao processo de pesquisa. Agradeço à Secretaria de Justiça do Estado do Paraná e à Juíza da Vara da Infância e Juventude de Londrina por autorizarem o desenvolvimento da pesquisa no CENSE I. Em especial, agradeço à equipe técnica do CENSE I pela receptividade e organização para que o desenvolvimento da pesquisa com os internos acontecesse. Sou imensamente grata aos responsáveis e aos jovens que aceitaram participar desta pesquisa pela confiança e contribuição. RESUMO GUSMÃO, Franceline Priscila. Redes pessoais e a inserção de jovens no “mundo do crime”: uma análise comparativa entre jovens envolvidos e não envolvidos com esse contexto. 2024. 153 f. Tese de doutorado (Programa de Pós-Graduação em Sociologia) – Centro de Letras e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2024. Através da Análise de Redes Sociais (ARS) esta tese analisou comparativamente a dinâmica das redes pessoais de jovens que estão envolvidos ou não envolvidos com o “mundo do crime”. O estudo teve como objetivo explorar as características das redes pessoais de ambos os grupos para entender se contribuem para a dinâmica de participação ou não no “mundo do crime”. Os resultados sugerem que jovens não envolvidos com o “mundo do crime” possuem redes sociais mais diversificadas. Por outro lado, os jovens envolvidos com esse contexto possuem redes mais restritas à família e à vizinhança, com laços intensos e duradouros, o que favorece a adesão ao “mundo do crime”, caso o conteúdo circulante na rede esteja alinhado aos seus códigos e práticas sociais. A centralidade das figuras familiares também foi observada em ambos os grupos. Esse fato destaca a complexidade das relações familiares, que, mesmo sendo centrais no grupo dos jovens envolvidos, não são suficientes para afastar os jovens das influências do “mundo do crime”, uma vez que outros elementos nas redes sociais impactam os comportamentos desses jovens. Os resultados indicam que, quanto mais os contatos sociais se conhecem dentro da rede pessoal (densidade da rede) há mais facilidade na internalização de códigos e práticas sociais, sejam eles convencionais ou ligados ao “mundo do crime”. Isso provavelmente impacta a trajetória dos jovens envolvidos, pois o fato de muitos contatos se conhecerem promove a repetição de informações relacionadas ao universo do “mundo do crime”. A forte conexão entre os membros da rede torna mais difícil para o jovem envolvido com esse universo acessar novas perspectivas ou experiências que possam desafiá- los a adotar comportamentos diferentes. Já os jovens não envolvidos, mesmo inseridos em redes densas, mantém contato com diferentes esferas sociais promovendo acesso a informações e conhecimento que amplia suas expectativas e projetos pessoais. A homofilia por faixa etária (grupo de pares) foi mais forte entre os jovens envolvidos, enquanto os jovens não envolvidos apresentaram relações entre pares mais dispersas. Isso ocorre em razão das relações nos grupos de pares acontecerem dentro da vizinhança em que os jovens envolvidos residem, uma vez que circulam por poucos ambientes sociais, sendo mais comum o contato com a vizinhança e a família. Já os jovens não envolvidos possuem relações mais difusas com seus pares em razão de frequentarem diferentes ambientes sociais e em cada qual possuir um grupo de amigos. Além disso, a análise da força e da função das redes pessoais evidenciou que a força desses laços, definida pela frequência, duração e a indicação de pessoas associadas ao “mundo do crime” com as quais os jovens consideram um relacionamento forte, aumenta a exposição aos códigos e práticas sociais desse ambiente. A função da rede, que envolve apoio emocional e material, é crucial na internalização desses códigos, uma vez que tanto as redes convencionais quanto as redes dos jovens envolvidos com o “mundo do crime” oferecem suporte que fortalece os comportamentos associados a esses contextos. Palavras-chave: jovens; “mundo do crime”; redes pessoais; força; função. ABSTRACT GUSMÃO, Franceline Priscila. Personal networks and the insertion of young people in the “world of crime”: a comparative analysis between young people involved and not involved in this context. 2024. 153 f. Tese de doutorado (Programa de Pós-Graduação em Sociologia) – Centro de Letras e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2024. Using Social Network Analysis (SNA), this thesis comparatively analyzed the dynamics of the personal networks of young people who are or are not involved in the “world of crime”. The study aimed to explore the characteristics of the personal networks of both groups to understand whether these characteristics of the personal networks contribute to the dynamics of participation or not in the “world of crime”. The results suggest that young people not involved in the “world of crime” have more diversified social networks. On the other hand, young people involved in this context have networks that are more restricted to family and neighborhood, with intense and long- lasting ties, which favors adherence to the “world of crime”, if the content circulating in the network is aligned with their social codes and practices. The centrality of family figures was also observed in both groups. This fact highlights the complexity of family relationships, which, although central to the group of young people involved, are not enough to distance young people from the influences of the “world of crime”, since other elements in the social networks impact the behaviors of these young people. The research showed that the more social contacts know each other within the personal network (network density), the easier it is to internalize social codes and practices, whether conventional or linked to the “world of crime”. This probably impacts the trajectory of the young people involved, since the fact that many contacts know each other promotes the repetition of information related to the world of the “world of crime”. The strong connection between network members makes it more difficult for young people involved in this world to access new perspectives or experiences that may challenge them to adopt different behaviors. On the other hand, uninvolved young people, even when inserted in dense networks, maintain contact with different social spheres, promoting access to information and knowledge that expands their expectations and personal projects. Homophily by age group (peer group) was stronger among the involved young people, while the uninvolved young people had more dispersed peer relationships. This occurs because the relationships in peer groups occur within the neighborhood where the involved young people live, since they circulate in few social environments, being more common contact with the neighborhood and family. Uninvolved youth, on the other hand, have more diffuse relationships with their peers because they frequent different social environments and have a group of friends in each one. Furthermore, the analysis of the strength and function of social networks showed that the strength of these ties, defined by the frequency, duration and indication of people associated with the “world of crime” with whom the youth consider a strong relationship, increases exposure to the social codes and practices of this environment. The function of the network, which involves emotional and material support, is crucial in the internalization of these codes, since both conventional networks and the networks of youth involved in the “world of crime” offer support that strengthens the behaviors associated with these contexts. Key-words: young people; “world of crime”; personal networks; strength; function. LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Rede não direcionada ....................................................................... 30 Figura 2 - Rede direcionada .............................................................................. 30 Figura 3 - Matriz de adjacência ......................................................................... 31 Figura 4 - Sociograma da matriz de adjacência ................................................ 31 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Ato infracional – Apreensões CENSE I de jovens residentes em Londrina (2023) ................................................................................. 49 Gráfico 2 - Gênero – Apreensões CENSE I Londrina (2023) .............................. 50 Gráfico 3 - Idade – Apreensões CENSE I Londrina (2023) ................................. 50 Gráfico 4 - Mediana da densidade de todas as redes pessoais ......................... 63 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Média de número de pessoas declaradas e densidade geral da rede pessoal ...................................................................................... 67 Tabela 2 - Média de número de pessoas e densidade por faixa etária - 12- 29 anos ............................................................................................. 107 Tabela 3 - Média de número de pessoas declaradas e densidade de rede - Região de moradia, vizinhança do participante e envolvimento ........ 108 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Perfil dos jovens participantes da pesquisa ...................................... 51 Quadro 2 - Informações sobre a participação em roubo e tráfico de drogas - grupo jovens envolvidos – (n 12) ...................................................... 53 Quadro 3 - Tamanho da rede, densidade e centralidade da rede pessoal – por participante ................................................................................. 66 Quadro 4 - Centralidade de grau e de intermediação - Redes grandes de alta densidade ..................................................... 82 Quadro 5 - Densidade da rede pessoal por ambiente de sociabilidade - Sociogramas 09, 10 e 11 .................................................................. 86 Quadro 6 - Centralidade de grau e de intermediação - Redes grandes de baixa densidade .................................................. 88 Quadro 7 - Ambientes sociais e a força das redes pessoais dos jovens - Por frequência, duração e intensidade da relação ................................... 97 Quadro 8 - Contato com pessoas envolvidas com o "mundo do crime" - Por frequência, duração e intensidade da relação ................................... 99 Quadro 9 - Ambientes sociais e a função desempenhada nas redes pessoais dos jovens .......................................................................... 112 Quadro 10 - Ambientes sociais e a função desempenhada nas redes pessoais dos jovens por pessoas envolvidas com o “mundo do crime” ................................................................................................ 113 LISTA DE SOCIOGRAMAS Sociograma 1 - Jovem ABC – Rede pequena 10 pessoas – Densidade alta 0,66 – Não envolvido ................................................................ 71 Sociograma 2 - Jovem NR - Rede pequena 5 pessoas – Densidade alta 0,4 – Envolvido ............................................................................... 71 Sociograma 3 - Jovem LK – Rede média16 pessoas – Densidade 0,54 – Não envolvido ........................................................................... 73 Sociograma 4 - Jovem LC – Rede média 19 pessoas – Densidade 0,53 - Envolvido .................................................................................. 74 Sociograma 5 - Jovem THG – Rede grande 30 pessoas – Densidade alta 0,41 – Não envolvido ................................................................ 78 Sociograma 6 - Jovem RFS – Rede grande 30 pessoas – Densidade 0,41 – Não envolvido ........................................................................ 78 Sociograma 7 - Jovem DC – Rede grande 24 pessoas – Densidade alta de 0,80 - Envolvido ........................................................................ 80 Sociograma 8 - Jovem KL – Rede grande 24 pessoas – Densidade alta 0,43 - Envolvido ........................................................................ 80 Sociograma 9 - Jovem JWE – Rede grande 30 pessoas – Densidade baixa 0,24 – Não envolvido ................................................................ 85 Sociograma 10 - Jovem GBN – Rede grande 30 pessoas – Densidade 0,26 – Não envolvido ........................................................................ 85 Sociograma 11 - Jovem SR – Rede grande 25 pessoas – Densidade baixa 0,24 – Envolvido ....................................................................... 86 Sociograma 12 - Conteúdo da rede - Jovem ABC – Rede Pequena 10 pessoas – Densidade 0,66 - Jovem não envolvido ................... 100 Sociograma 14 - Conteúdo da rede - Jovem LK – Rede média 16 pessoas – Densidade 0,54 - Não envolvido ............................................... 101 Sociograma 15 - Conteúdo da rede - Jovem LC – Rede média 19 pessoas – Densidade 0,53 - Envolvido ................................................... 102 Sociograma 16 - Conteúdo da rede - Jovem THG – Rede grande 30 pessoas – Densidade 0,41 - Não envolvido ............................................ 102 Sociograma 17 - Conteúdo da rede - Jovem RFS – Rede grande - 30 pessoas – Densidade 0,41 – Não envolvido ............................. 103 Sociograma 18 - Conteúdo da rede - Jovem DC – Rede grande 24 pessoas – Densidade 0,80 - Envolvido ................................................... 103 Sociograma 19 - Conteúdo da rede - Jovem KL – Rede grande 24 pessoas – Densidade 0,43 – Envolvido .................................................. 104 Sociograma 20 - Conteúdo da rede - jovem jwe – rede grande 30 pessoas – densidade 0,24 – não envolvido ............................................ 104 Sociograma 21 - Conteúdo da rede - Jovem GBN – Rede grande 30 pessoas – Densidade 0,26 – Não envolvido ............................. 105 Sociograma 22 - Conteúdo da rede - Jovem SR – Rede grande 25 pessoas – Densidade 0,24 – Envolvido .................................................. 105 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ARS Análise de Redes Sociais CENSE Centro de Socioeducação CRAS Centro de Referência de Assistência Social CREAS Centro de Referência Especializado em Assistência Social SCFV Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos SINASE Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo SUAS Sistema Único de Assistência Social SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .................................................................................. 07 1.1 A teoria do controle social e desdobramentos............................. 16 1.2 Revisão da literatura nacional: evidências e a teoria do controle social ................................................................................. 17 1.3 A teoria da associação diferencial e desdobramentos ................ 20 1.4 Revisão da literatura nacional: evidências e a teoria da associação diferencial .................................................................... 23 1.5 Contribuições e implicações desta tese ....................................... 27 2 A PERSPECTIVA DAS REDES SOCIAIS: ASPECTOS TEÓRICO METODOLÓGICOS ......................................................... 29 2.1 Grafos, matrizes e sociogramas .................................................... 29 2.2 Atributos e relações: diferenças e combinações ......................... 33 2.3 Análise de redes sociais e delinquência ....................................... 35 2.4 Dimensões da conexão: multiplexidade de rede, densidade, homofilia e centralidade ................................................................. 37 2.4.1 Dimensões da multiplexidade de rede .............................................. 37 2.4.2 Dimensões da densidade de rede ..................................................... 40 2.4.3 Dimensões da homofilia .................................................................... 43 2.4.4 Dimensões do grau de centralidade e popularidade ......................... 45 3 METODOLOGIA ............................................................................... 48 3.1 Os sujeitos da pesquisa ................................................................. 51 3.2 Coleta de dados: atributos e categorias de análise ..................... 53 3.3 Os locais da pesquisa ..................................................................... 57 3.4 Entraves e a ética na pesquisa ...................................................... 60 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO ........................................................ 62 4.1 Tamanho e conectividade de rede dos jovens pesquisados ...... 62 4.2 O retrato das redes pessoais dos jovens participantes da pesquisa ........................................................................................... 68 4.2.1 Redes pessoais pequenas com alta densidade ................................ 70 4.2.2 Redes pessoais médias com alta densidade .................................... 72 4.2.3 Redes pessoais grandes com alta densidade ................................... 77 4.2.4 Redes pessoais grandes com baixa densidade ................................ 84 4.2.5 Síntese dos achados sobre a conectividade da rede dos jovens pesquisados ...................................................................................... 90 5 ANÁLISE DAS REDES PESSOAIS DOS JOVENS PARTICIPANTES DA PESQUISA: A FORÇA E A FUNÇÃO DA REDE ................................................................................................ 94 5.1 A força das redes ............................................................................ 95 5.2 A função das redes ......................................................................... 110 5.2.1 O acolhimento ................................................................................... 114 5.2.2 O monitoramento .............................................................................. 116 5.2.3 O apoio financeiro/material ............................................................... 117 5.2.4 As recompensas ............................................................................... 118 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................. 122 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................. 129 ANEXOS ........................................................................................... 135 PRIMEIRA PARTE: Coleta dos atributos individuais - Questionário de redes pessoais – Dados dos atributos do EGO - Subseção 1: Dados dos atributos do ego ...................................... 136 SUBSEÇÃO 2: Dados sobre participação em atividades em conflito a lei ....................................................................................... 137 SEGUNDA PARTE: Coleta de dados relacionais - Questionário redes pessoais – Subseção 3: dados relacionais com o Alter .......... 138 CONTINUAÇÃO: Questionário redes pessoais – Subseção 3: dados relacionais com o Alter ........................................................... 141 SUBSEÇÃO 4: Dados relacionais entre os Alters (entre os indivíduos que compõem a rede pessoal) ......................................... 142 7 1. INTRODUÇÃO A relevância do tema da juventude em contexto de delinquência é discutida tanto pela literatura nacional quanto internacional sob diversos ângulos, dentre os quais, o modo como diferentes esferas de socialização contribui para esse fenômeno. As relações entre juventude e família, mercado de trabalho, escola e grupo de pares, são permeadas por tensões, no momento em que os pais não conseguem acompanhar a educação dos filhos por uma série de motivos, como as longas jornadas de trabalho (Zaluar, 2013); a influência do grupo de pares na fase da vida na qual os jovens buscam por aceitação e construção de identidade (Haynie, 2001; Warr, 1993; Giordano, 1986; Zaluar, 2013, Lyra, 2013); quando a escola não consegue mais cumprir a promessa de integração no mercado de trabalho, de ascensão social e acesso ao conhecimento. Dentro dessa perspectiva, as tensões também são discutidas quando jovens se inserem no “mundo do crime”, contexto que é permeado por conflitos entre as esferas convencionais e as normativas do “mundo do crime” (Feltran, 2009). As práticas criminais são apreendidas a partir de ambientes de sociabilidade. Comercializar drogas, armas, cometer roubos, executar ou ser vítima de homicídios, indica a inserção de jovens em um tipo de sociabilidade violenta (Machado da Silva, 2004). Diante disso, torna-se comum o contato com a acepção nativa “mundo do crime” (Feltran, 2009; Zilli, 2015; Lyra, 2013) e a participação de alguns jovens nesse tipo de sociabilidade. Trata-se de um tema específico para discutir a delinquência, pois os jovens frequentemente aparecem como agentes, sendo autores ou vítimas de homicídios, como mão-de-obra para o tráfico de drogas, como atuante em atividades de roubos, sem perder de vista que são também alvos das instituições do sistema de justiça criminal e seus processos de criminalização (Misse, 2010; Adorno, 1998). Assim, mostram-se sociabilidades bastante complexas, pois os participantes do “mundo do crime” precisam internalizar regras e códigos de conduta que delimitam comportamentos e tomadas de decisões, tais como dividir o dinheiro obtido ilicitamente e lidar com a polícia, desconhecidos e com a vizinhança (Feltran, 2009; Lyra, 2013). Esse processo é permeado de elogios e punições entre os parceiros que contribui para que as atividades permaneçam coesas. Nessas situações, são construídos significados ambíguos, ora de confiança, proteção, reconhecimento, ora de relações de poder, gerando muita opressão (Lyra, 2013; Neri, 2009). 8 Em uma outra oportunidade, dissertamos sobre o termo “envolvimento”, que se trata de uma acepção nativa utilizada pelos sujeitos da pesquisa que retrata as experiências juvenis com o “mundo do crime”, suas conexões e sentimento de pertencimento a esse universo (GUSMÃO, 2018). Somando esses dados com a análise de suas conexões sociais, avançamos mais alguns passos para compreendermos a participação no “mundo do crime” como um comportamento de grupo; de que maneira isso acontece na vida dos sujeitos; e o que possibilita essa participação. Entretanto, embora rotulados de “criminosos em potencial”, a maior parte dos jovens moradores das periferias das cidades não se envolve em práticas criminais. A literatura brasileira tem se dedicado a pesquisar sobre jovens inseridos em sociabilidades violentas, mas tem desenvolvido poucos estudos comparativos entre aqueles que moram nas periferias das cidades, envolvidos e não envolvidos com o “mundo do crime”. Esses jovens estão inseridos em condições sociais parecidas, mas somente alguns se inserem nesse tipo de sociabilidade. Este trabalho procura contribuir com este debate, dialogando com pesquisas brasileiras que apreendem o “mundo do crime” como uma esfera de sociabilidade, e uma parte da literatura internacional, já bastante consolidada, que explica o envolvimento pessoal de jovens com a delinquência a partir da tese de comportamento de grupo (Papachristos, 2014; Giordano et al, 1986; Warr, 1993). Dentro da literatura internacional, duas teorias concorrentes, pouco mobilizadas no Brasil, têm amparado pesquisas sobre o tema: a teoria do controle social e a teoria da associação diferencial. A teoria do controle social sustenta que o sentimento de pertencimento a um grupo, de ocupação do tempo livre, de importância do apoio do grupo para projetar objetivos, são elementos que contribuem para desenvolver o comportamento convencional (Schreck; Hirschi, 2009; Hirschi, 2004). A fragilidade desses vínculos impulsiona os sentimentos antissociais, favorecendo a inserção de jovens na delinquência. Assim, para essa perspectiva, jovens delinquentes são pessoas que possuem dificuldades para se manter em grupos de amigos, possuem pouco apego aos pais, possuem dificuldade de estabelecer projetos de longo prazo e são impulsivos e explosivos, no que resultaria em baixo autocontrole (Hirschi, 2004). Já para a associação diferencial a prática delinquente remete à aceitação de determinadas normativas presentes nos grupos aos quais os jovens se inserem. A introjeção dessas normativas depende do peso do reforço envolvido e da 9 pressão do grupo (Sutherland, 1955; Warr, 1992). Assim, para essa perspectiva, pessoas da própria família, escola, trabalho, grupo de amigos são pontos de reforços que influenciam os jovens a ter comportamento delinquente ou não. As duas perspectivas teóricas descritas acima se diferenciam quanto ao argumento de que o comportamento delinquente é um comportamento de grupo. Enquanto que para a teoria do controle social, em razão da dificuldade de estabelecer vínculos com pessoas de comportamento convencional, indivíduos com comportamento delinquente escolhem estar próximos de delinquentes; para a teoria da associação diferencial os jovens são influenciados pelas pessoas que compõem o seu contexto social a adotar o comportamento delinquente. A Análise de Redes Sociais é um paradigma explicativo que permite reavaliar essas teorias, sendo uma ferramenta para elucidar detalhes das relações sociais que contribuem para a produção de controle social e associação diferencial. Portanto, permite analisar e compreender a estrutura da rede pessoal de cada interlocutor e a que ponto a posição deles e de seus contatos nessa rede contribui para influenciar comportamentos, opiniões e atitudes (Papachristos, 2014). Nessa esteira, a depender do modo como os vínculos sociais estão interligados nos grupos sociais, haverá a promoção e/ou restrição de informações no processo de comunicação que encaminham à prática delinquente. Com base no debate nacional e internacional indicado acima, esta pesquisa investiga as redes pessoais de jovens moradores das periferias de Londrina/PR com o objetivo de entender de que modo essas redes contribuem com a dinâmica de participação ou não participação dos jovens no “mundo do crime”. Busca-se responder à seguinte questão de pesquisa: de que modo as redes de contatos pessoais dos jovens que estão ou não envolvidos com o “mundo do crime” se diferenciam e podem auxiliar na compreensão do envolvimento ou não envolvimento com esse contexto? Para responder à questão acima serão analisadas uma série de medidas de redes sociais que vêm sendo usadas na literatura internacional para avaliar predições tanto da Teoria do Controle Social quanto da Teoria da Associação Diferencial, que neste trabalho são mobilizadas de maneira complementares. A Teoria do Controle social tem sido testada principalmente por meio de uma métrica conhecida como multiplexidade. Em ARS a multiplexidade diz respeito à existência de um mesmo contato social em uma rede pertencer a mais de um ambiente social, isto é, à presença dos mesmos indivíduos em diferentes esferas de sociabilidade. Essa medida é 10 relevante porque ela permite avaliar se a presença de pais, familiares ou outras figuras de autoridade não envolvidas com o crime, em diferentes esferas de sociabilidade dos jovens, cria condições favoráveis para o monitoramento e o controle social de seus comportamentos e, consequentemente, para que eles não se envolvam com o “mundo do crime” (Khron, 1986). Levando isso em consideração, chamamos a primeira hipótese a ser avaliada de hipótese da multiplexidade, que pode ser formulada da seguinte forma: • Hipótese da multiplexidade: jovens cujas redes pessoais apresentam maior multiplexidade com figuras de autoridade vinculadas a instituições convencionais (familiares, por exemplo) tendem a se envolver menos com o "mundo do crime" em comparação com aqueles cujas redes são dominadas por parceiros envolvidos nesse universo. Em Análise de Redes Sociais a densidade de rede é a medida que leva em consideração o número de laços sociais entre os membros, ou seja, considera o quanto os membros de uma rede se conhecem. Quanto mais as pessoas se conhecem, mais próxima a rede fica do valor 1 (rede de alta densidade); quanto menos laços são estabelecidos entre as pessoas, mais próximo o valor fica de 0 (rede de baixa densidade). Essa medida tem sido relevante na Análise de Redes Sociais para verificar grupos de pares adolescentes e o quanto a densidade da rede desses grupos pode influenciar ou não a prática delinquente, levando em conta os preceitos da Teoria da Associação Diferencial/Aprendizagem Social (Sutherland, 1955; Warr, 1996, 1993; Burgess; Akers; 1966 ). O que os estudos têm evidenciado é que redes densas em que estão presentes pares delinquentes são mais propícias de levar ao comportamento individual delinquente em razão dos laços muito próximos entre os jovens facilitar a pressão social do grupo e facilitar a circulação informações relacionadas às práticas delinquentes. Por outro lado, a pressão social em grupos não delinquentes pode favorecer a reprovação do comportamento delinquente (Haynie, 2001; 2022). Diante disso, denominamos a segunda hipótese a ser avaliada de hipótese da densidade: • Hipótese da densidade: é esperado que uma proporção significativa dos integrantes da rede pessoal dos jovens entrevistados se conheça. Isso sugere que o fato de se conhecerem mutuamente fortalece os vínculos e facilita a troca de informações. Entretanto, se um jovem está inserido em uma rede densa e com pessoas envolvidas com o “mundo do crime” existe a possibilidade maior 11 de estar exposto aos códigos e práticas sociais do “mundo do crime” e aderir a esse universo, uma vez que as informações se tornam redundantes impossibilitando o acesso à novidade. A centralidade da rede é outra medida relevante na Análise de Redes Sociais, pois tem como objetivo verificar quem é a pessoa mais central da rede, ou seja, quem é a pessoa que mais conhece os outros membros da rede social. A centralidade também tem sido discutida pela literatura que emprega Análise de Redes Sociais para compreender grupos de pares adolescentes e a relação com a delinquência. O que os estudos têm mostrado é que adolescentes centrais em redes delinquentes tendem ser influentes e guardam informações importantes da rede, e tendem a cometer mais delitos, ao comparar com os indivíduos menos centrais (Haynie, 2001; 2002). Essa perspectiva também está atrelada à Teoria da Associação Diferencial/Aprendizagem Social em razão de discutir que o processo de aprendizagem das técnicas para a inserção em associações diferenciais necessita de uma referência a ser seguida, que no caso dos grupos de pares é o amigo adolescente (Sutherland, 1955; Warr, 1996, 1993; Burgess; Akers, 1966 ). Com base nisso, nomeamos a terceira hipótese a ser avaliada de hipótese de centralidade: • Hipótese de centralidade: prevê-se que tanto na rede pessoal dos jovens envolvidos quanto na dos não envolvidos haja uma grande quantidade de amigos ocupando posições centrais por conhecer muitas pessoas que compõem a rede pessoal. A principal distinção reside no tipo de conteúdo que esses indivíduos centrais compartilham: se está relacionado aos códigos e práticas do "mundo do crime" ou se diz respeito a comportamentos sociais convencionais. A pessoa central seria considerada uma referência para o participante da pesquisa, sendo um modelo de comportamento a ser seguido, situação que intensifica os laços com essa pessoa. Acrescenta-se a essa hipótese de centralidade a centralidade de intermediação, pois presume-se que nas redes pessoais dos jovens pesquisados algumas pessoas cumprem o papel de intermediários entre pessoas/grupos sociais. Espera-se que nos dois grupos sejam encontrados amigos nessa posição de intermediação, os quais são responsáveis em circular informações convencionais ou relacionadas ao “mundo do crime”. Por fim, a noção de homofilia é empregada na Análise de Redes Sociais para abordar elementos que contribuem para a identificação, afeição e aproximação entre 12 as pessoas nas redes pessoais. Nesse sentido, é um conceito utilizado pelas teorias internacionais que abordam o problema da delinquência dentro do contexto dos grupos de pares, sendo a faixa etária um elemento importante para a identificação entre os jovens. Uma parte das interpretações relacionadas à homofilia por faixa etária são fundamentadas na Teoria do Controle Social (Schreck; Hirschi, 2009; Hirschi, 2004) ao seguirem a linha de que delinquentes se identificam com amigos delinquentes, propondo que os jovens escolhem estar com os pares parecidos com eles, sobretudo em razão da característica que possuem de baixo autocontrole (Mcgloin; Shermer, 2009). Por outro lado, uma outra linha de pesquisas, ligadas às teorias da associação diferencial/aprendizagem social tem discutido que outros elementos precisam ser levados em consideração na análise da aproximação dos pares, que além da influência e da pressão do grupo, efeitos estruturais também proporcionam a aproximação dos jovens, como o espaço da sala de aula, por exemplo (Weerman, 2011; Payne, 2007; Young, 2011; Haynie, 2002). Tendo em vista esse debate, propõe-se a quarta hipótese da pesquisa: • Hipótese da Homofilia: espera-se identificar o tipo de homofilia por faixa etária em todas as redes pessoais pesquisadas, evidenciando a proximidade e a preferência dos jovens por amizades de idades semelhantes. Essa dinâmica não apenas fortalece o vínculo entre eles, mas também intensifica a influência mútua, já que muitos desejam impressionar seus colegas, o que pode facilitar a entrada dos jovens no “mundo do crime” ou à continuidade de comportamentos convencionais. Por outro lado, levando em conta as inquietações dos pesquisadores acima, é possível que a vizinhança seja um contexto relevante para acontecer a aproximação entre os pares, sobretudo aqueles envolvidos com o “mundo do crime” em razão de estarem limitados ao espaço do bairro e não terem acesso aos outros ambientes sociais. Essas medidas estruturais da rede, como multiplexidade, densidade, centralidade e homofilia, fornecem uma base para entender a força das relações sociais de maneira objetiva, a partir das características da própria rede. Contudo, além das métricas da rede, a força da rede também será avaliada por meio de categorias relacionadas à frequência, durabilidade e intensidade dos relacionamentos (Sutherland, 1955), aspectos que refletem diretamente a experiência vivida pelos jovens em suas redes pessoais. Diante disso, propõe-se a quinta e última hipótese desta pesquisa: 13 • Hipótese da força da rede e da função da rede: Presume-se que a inserção no “mundo do crime” é facilitada quando os jovens mantêm relações mais frequentes, duradouras e intensas com indivíduos envolvidos nesse universo em comparação com jovens não envolvidos (Sutherland, 1955; Warr, 1996). O fortalecimento desses laços ocorre de acordo com a intensidade, considerada pelos jovens, da relação que estabelecem com pessoas inseridas nesse contexto. A força desses laços também está atrelada ao tempo em que os jovens conhecem essas pessoas e a frequência que as encontram. A intensidade, a duração e a frequência do relacionamento com pessoas inseridas no “mundo do crime” podem limitar a circulação de informações e as esferas de sociabilidade dos jovens, favorecendo a exposição pessoal e envolvimento com as práticas desse contexto. Por fim, para assegurar os vínculos fortalecidos, os contatos sociais devem oferecer apoio emocional, financeiro, recompensas e monitoramento em relação aos jovens. Contudo, pressupõe-se que os contatos sociais originados do “mundo do crime” também desempenham essas funções, contribuindo para a adesão e coesão das atividades desse universo. Para responder à questão de pesquisa e avaliar as hipóteses acima, foi desenvolvida uma pesquisa comparativa com dois grupos de jovens envolvidos e não envolvidos com o “mundo do crime”. Ressalta-se que, embora as amostras sejam pequenas e impedem generalizar conclusões no que diz respeito ao envolvimento ou não com o “mundo do crime”, os resultados e as discussões geradas por este estudo abrem caminho para futuras investigações, ampliando o campo de análise com novas questões e hipóteses de pesquisa. Os jovens foram acessados por meio de uma amostragem de conveniência, em três instituições na cidade de Londrina: a Guarda Mirim, que tem como princípio a “formação cidadã e preparação para o mercado de trabalho”; o Centro de Referência Especializado em Assistência Social (CREAS), que presta atendimento psicossocial a adolescentes “em conflito coma lei”, e acompanhamento de medidas de liberdade assistida desses jovens; e por fim, colaboraram com a pesquisa os jovens que estão cumprindo medida socioeducativa em regime fechado no Centro de Socioeducação de Londrina (CENSE I). Essas instituições foram escolhidas em razão de abrigarem jovens que possuem as características de interesse do estudo. 14 Apesar de não ser o centro de atenção desta pesquisa, a seletividade no sistema de justiça penal se manifesta de forma intensa no Brasil, resultando na marginalização e no encarceramento excessivo de jovens, especialmente jovens negros provenientes das periferias urbanas (Lourenço et al, 2022). Esse cenário é importante ser destacado, uma vez que, em sua maioria, os jovens que estão no sistema socioeducativo são de origem periférica, reflexo da criminalização da pobreza e do racismo: eles são alvo de vigilância constante, abordagens, revistas, prisões, processos e condenações. Em contraste, jovens de camadas sociais mais favorecidas que cometem os mesmos delitos frequentemente costumam estar mais protegidos da repressão, sendo raramente condenados. Essa seletividade penal, junto às desigualdades sociais, reforça a marginalização dos jovens das periferias urbanas, perpetuando os ciclos de violência e encarceramento. Os dados apresentados pelo SINASE (2023) e os dados fornecidos pelo CENSE I/Londrina de 2023 indicam que a maioria dos jovens que se inserem nas atividades de roubo e tráfico de drogas tem faixa etária de 15-17 anos e são do sexo masculino. Com base nesses dados, o perfil dos jovens selecionados para compor os dois grupos foram os seguintes: • Grupo 1 (envolvidos): Nas instituições CREAS, CENSE I e Guarda Mirim foram selecionados jovens de 15-17 anos de idade, do sexo masculino e apreendidos por práticas de roubo e/ou tráfico de drogas, sendo moradores de diferentes regiões na cidade de Londrina. Nesse grupo, 12 jovens participaram da pesquisa. • Grupo 2 (não envolvidos): Na Guarda Mirim, colaboraram com a pesquisa os jovens que frequentam os cursos profissionalizantes nessa instituição, com faixa etária de 15-17 anos de idade, do sexo masculino e moradores de diferentes regiões da cidade. Nesse grupo, 13 jovens participaram da pesquisa. Assim, considerando o relacionamento diário que os interlocutores mantêm com seus contatos sociais (família, amigos, professores, conhecidos, etc), a pesquisa explorou as características relacionais dos jovens com vistas a apreender a frequência, a durabilidade e a intensidade das relações que estabelecem com pessoas de diferentes esferas de sociabilidade. Buscou-se também descobrir a conectividade da rede pessoal, ou seja, saber se um contato social frequenta diferentes ambientes sociais em que o jovem frequenta; o quanto a rede pessoal é densa; quem são os indivíduos mais influentes nessa rede; e se a faixa etária é um 15 aspecto relevante para a aproximação dos jovens. Por fim, analisou-se as funções que os contatos sociais cumprem em relação aos jovens participantes da pesquisa, ou seja, se oferecem apoio emocional; recompensas diante de algum feito; auxílio material; auxílio para resolver problemas e advertir quando necessário. A tese está dividida em 5 capítulos. O capítulo 1 sumariza e interpreta os achados de estudos brasileiros à luz da Teoria do Controle Social e da Teoria da Associação Diferencial. O capítulo 2 discute como o paradigma explicativo da Análise de Redes Sociais tem sido usado para reavaliar a Teoria do Controle Social e a Teoria da Associação Diferencial, bem como para compreender as redes sociais de jovens e sua inserção no “mundo do crime”. Já o capítulo 3 apresenta o modo como (i) ocorreu a coleta de dados junto aos participantes da pesquisa; e (ii) foram criadas as categorias usadas na análise dos dados coletados. Os dois últimos capítulos apresentam os resultados do estudo. O capítulo 4 mostra e discute as medidas de conectividade das redes. Por fim, o capítulo 5 mostra e discute a força e as funções desempenhadas pelos contatos pessoais dos participantes da pesquisa. 16 1.1 A TEORIA DO CONTROLE SOCIAL E DESDOBRAMENTOS A teoria do controle social não procura saber por que os jovens se envolvem em atividades criminosas, mas sim por que grande parte se distancia delas. Para essa perspectiva, naturalmente todos os indivíduos são propensos a cometer crimes. São os laços sociais que moldam os sentimentos pró-sociais e que freiam as potencialidades instintivas antissociais (Schreck & Hirschi, 2009). Jovens vinculados fortemente com os pais, professores, membros da igreja, grupos de pares, tendem a não praticar atividades criminosas. Caso os vínculos sejam rompidos, há riscos de cometer atos contrários às regras do bem comum. Nesse sentido, vínculos fortes ou fragilizados podem ser reconhecidos por meio de quatro conceitos: a afeição, o compromisso, o envolvimento e a crença (Schreck & Hirschi, 2009). A afeição aproxima os indivíduos mediante o sentimento de confiança, carinho e proteção, fazendo-os se sentirem aceitos pelos pais, professores, amigos e conhecidos. A proximidade com esses contatos sociais viabiliza o apoio para projetos pessoais, investimento em carreiras, como nos estudos, mercado de trabalho, viagens, dentre outras coisas. São projetos que permitem ao indivíduo ter compromisso. A saber que existem várias pessoas envolvidas em seus projetos, desenvolve-se a preocupação em não decepcioná-las. Dessa forma, a dedicação proporciona confiança nos resultados futuros, e, também, o sentimento de segurança, frente às adversidades (Schreck & Hirschi, 2009). Assim, o cálculo se concentra em todo o investimento e esforço no projeto e nas pessoas envolvidas. O crime como ação imediata colocaria tudo a perder. Por sua vez, esse compromisso leva ao envolvimento, pois manter-se ocupado em atividades convencionais (estudar, fazer um curso, trabalhar, passear), não sobraria tempo para pensar em atividades antissociais (Schreck & Hirschi, 2009). Todas essas três etapas contribuem para a formação das crenças dos jovens. Por estarem imersos em vínculos sociais fortalecidos, produzirão crenças pró-sociais, dificilmente aceitando ou legitimando atos criminosos. As leis, religião, processo de educação, contribuem para a formação dessas crenças (Schreck & Hirschi, 2009). Os vínculos sociais são fundamentais para a formação do autocontrole, ou seja, a capacidade que um indivíduo tem de controlar seus próprios impulsos. Se a afeição não foi estabelecida logo na infância com os pais, o compromisso dos jovens será menor e a atenção para os benefícios imediatos será maior. Nesse sentido, os 17 pais são responsáveis em produzir o autocontrole, através da supervisão, disciplina e afeto. Para Hirschi (2004), portanto, se o autocontrole não foi trabalhado na infância, o indivíduo conviverá com o baixo autocontrole ao longo da vida e terá maiores chances de praticar delinquência: se envolverá em brigas facilmente; não conseguirá estabelecer laços duradouros com as pessoas por longo tempo; terá dificuldade de concentração na escola. Embora concordando que os vínculos sociais são necessários para seguir as regras convencionais de uma sociedade, a perspectiva teórica do Curso da Vida discorda do autocontrole, por acreditar que o curso da vida do indivíduo é permeado por “pontos de virada”, considerando, assim, aspectos estruturais que cercam a vida do indivíduo e que interferem em sua biografia (Laub & Sampson, 1993). Aquele que teve o afeto dos pais quando criança pode, na vida adulta, ficar desempregado, fragilizar os seus laços sociais e, consequentemente, cometer crimes. Do mesmo modo, um indivíduo que não teve afeto na infância pode desenvolver vínculos fortes no decorrer de sua vida e se distanciar da prática de crimes. Os pontos de virada podem ser uma situação de desemprego, divórcio, conflitos com os pais, bem como conseguir um emprego, se casar e ter filhos, criando responsabilidades de cuidado da família (Laub & Sampson, 1993). Nota-se que alguns aspectos levantados pela Teoria do Controle Social aparecem por meio de evidências na literatura brasileira, pois uma parcela de pesquisas explica o comportamento delinquente partindo dos vínculos juvenis com três esferas sociais principais: a família, a escola e o trabalho. Por isso, na próxima seção nos dedicaremos a expor de que modo a Teoria do Controle Social implicitamente aparece na literatura brasileira, já que essas categorias-chave são bastante incorporadas nas pesquisas acadêmicas nacionais. 1.2 REVISÃO DA LITERATURA NACIONAL: EVIDÊNCIAS E A TEORIA DO CONTROLE SOCIAL Há uma extensa produção acadêmica no Brasil que versa sobre a relação da juventude e o crime. A partir da revisão da literatura nacional, que aborda o comportamento delinquente de jovens, o objetivo dessa seção foi revisar aspectos discutidos pela Teoria do Controle Social que são evidenciados nesses estudos. A partir de questões colocadas por essa teoria, considerou-se o seguinte norte de 18 investigação: como os contatos sociais dos jovens são apreendidos pela literatura nacional e de que modo interferem em suas dinâmicas sociais no sentido de se inserir ou não no “mundo do crime”? Os trabalhos não discutem diretamente a Teoria do Controle Social, mas foi possível verificar que muitos elementos levantados no debate acadêmico brasileiro é derivado de explicações que envolvem as esferas sociais da família, escola e trabalho, enquanto mecanismos de controle social. Geralmente, as discussões pressupõem que a fragilidade dos vínculos nessas esferas sociais contribuem para a entrada no “mundo do crime”, bem como os vínculos fortalecidos afastam os jovens desse tipo de sociabilidade. As pesquisas nacionais mostram que é importante a qualidade do relacionamento que os jovens mantêm com seus contatos sociais, destacando elementos-chaves da teoria do controle social. Relações afetivas com os pais, amigos, professores, dentre outros conhecidos, apoiam o sentimento de integração, o que favorece os sentimentos de proteção e confiança. Desse modo, possuem menos depressão e ansiedade, melhor desempenho escolar, viabilizando maiores disposições de continuar os estudos e seguir no mercado de trabalho, por exemplo (Mourão; Silveira, 2014; Nardin; Dell’aglio, 2012; Alves, 2015; Bazon, et al, 2013). Em vista disso, as esferas sociais da família, escola e trabalho encaminham uma rotina aos mais jovens, sendo um dos elementos centrais para compreender que, mesmo em contextos adversos, a maioria dos jovens moradores das periferias não se inserem no “mundo do crime”. Uma referência destacada é a família, que além do papel afetivo, precisa monitorar e supervisionar os mais jovens, na tentativa de envolvê-los em atividades ao longo do dia, como o controle do tempo e da frequência a determinados espaços; acompanhamento da frequência escolar, dos cursos de contraturno escolar e participação das reuniões escolares; e a imposição de uma rotina de trabalho e organização doméstica (Neves, 2009). Em contraponto, atividades impulsionadas por uma rede de amigos, em que a maioria pratica atos desviantes, são considerados fatores de riscos, por promoverem atividades desestruturadas: não há objetivos estabelecidos em suas rotinas, sendo que o jovem é livre para definir o seu próprio tempo, longe da vigilância de adultos, aumentando a oportunidade para as práticas divergentes (Nardin & DELL’AGLIO, 2012; Alves, 2015; Rezende & Stevão, 2012). 19 Somando-se a isso o fato de que os frágeis vínculos com a família não permitem o acompanhamento escolar. Além de inviabilizar o estabelecimento de relações de confiança e o planejamento da rotina, os vínculos frágeis com a família levam os jovens a terem pouco compromisso com a educação escolar. Esse compromisso dificilmente pode ser gerado apenas pela equipe escolar, que muitas vezes não está preparada para lidar com as situações de exclusão, que muitas crianças e adolescentes sofrem, seja por bullying, indisciplina ou dificuldade de aprendizagem, contribuindo para se sentirem rejeitados, excluídos, frustrados e com falta de perspectivas (Oliveira et al, 2019; Almeida, 2017; Chagas, 2012; Bazon et al, 2013). Consequentemente, a qualidade das relações com os pares e equipe escolar passa a ser de conflitos, visto que os jovens reagem à dificuldade de aprendizagem através de comportamentos indisciplinados, ocasionando na desistência escolar. Observando a trajetória de adolescentes em conflito com a lei, a evasão escolar é o ponto de virada para a delinquência, pois distantes da escola a rotina diária passa a ser permeada por atividades desestruturadas e sem a supervisão de adultos. Assim, há oportunidade para práticas delinquentes, sendo que os laços sociais são fragilizados com a escola, mas passam a ser fortalecidos no novo grupo de pertencimento (Oliveira et al, 2019; Almeida, 2017; Chagas, 2012; Bazon et al, 2013; Rolim, 2014; Cardoso; Fonseca, 2019). Para este trabalho em específico, considera-se o “mundo do crime” como o novo grupo de pertencimento para parte dos jovens que participaram desta pesquisa. Se partir da perspectiva da Teoria Controle Social, aqueles que são pertencentes ao “mundo do crime” seriam jovens com vínculos fragilizados com a família, com a escola, não alocados no mercado de trabalho, ou seja, são jovens mergulhados em “cadeias de desvantagens” (Laub & Sampson, 1993). O que resta, portanto, é selecionar contatos sociais com pessoas que tenham personalidades parecidas com a deles, ou seja, com dificuldades em habilidades sociais, que vivenciam problemas familiares, escolares e com o mercado de trabalho (Nardin & Dell’aglio, 2012). Essa soma de personalidades parecidas é o que define o comportamento do grupo. Diante dessa circunstância, quanto mais envolvido um jovem se encontra na vida do crime, mais difícil será para estabelecer projetos futuros, pois a recorrência de passagens pelo sistema socioeducativo reforça a cadeia de desvantagens: sofrerá estigmas nas instituições escolares, não conseguirá se inserir no mercado de trabalho, 20 tanto pelo estigma quanto pela falta de escolaridade e ausência de qualificação profissional (Almeida, 2017). Entretanto, identifica-se algumas limitações nessa perspectiva. Por um lado, o próprio debate travado por teorias enraizadas no controle social, como a Teoria do Curso da Vida (Laub & Sampson, 1993), tem revelado que a perspectiva de que os iguais se atraem deixa de considerar a estrutura social que cerca esses relacionamentos. Por isso, a vida de qualquer indivíduo não segue uma linearidade, pois as atitudes também são condicionadas pela estrutura social. As evidências nas pesquisas nacionais revelam que a fragilidade de laços com a família, escola e mercado de trabalho servem como ponto de virada para a delinquência, mas, posteriormente, eventos podem viabilizar outro ponto de virada, que é a saída do “mundo do crime”: casamento, emprego, apoio da família, etc. (Oliveira et al, 2019; Rolim, 2018; Pavez, 2015). Tais achados demonstram a importância de os estudos levarem em consideração as mudanças estruturais em torno do indivíduo, e a leitura que o indivíduo faz diante dos acontecimentos na sua realidade, interferindo em suas expectativas. A próxima seção se dedica a discutir uma perspectiva teórica que concorre com a Teoria do Controle Social. Veremos que a Teoria da Associação Diferencial argumenta que os contatos sociais não são somente mecanismos de controle social. Podem também ser considerados fontes de aprendizagem social pró-criminais, cujas transferências de saberes necessitam também de relações afetivas, próximas e que demandam tempo e dedicação. 1.3 A TEORIA DA ASSOCIAÇÃO DIFERENCIAL E DESDOBRAMENTOS A Teoria da Associação Diferencial também discute a relação entre indivíduos e contatos sociais para explicar o comportamento delinquente. Em contrapartida à perspectiva do controle social, a perspectiva da associação diferencial argumenta que as definições pró-criminais de grupos sociais são intermediadas por um mesmo processo de aprendizado na qual ocorrem as definições não criminais. Do mesmo modo que os jovens aprendem normativas não criminais nos grupos sociais íntimos aos quais pertencem, como a escola, a família, grupo de amigos, também podem aprender normativas pró-criminais através do processo de comunicação (Sutherland, 1955). 21 Em razão disso, o que vale é o peso dessas definições, ou seja, quais dessas orientações e atitudes não criminais ou pró-criminais são mais rotineiras na convivência diária dos jovens (Warr, 1993). Isso vai depender se os códigos/definições que circulam entre os contatos sociais são pró-criminais ou convencionais, que marcam a identidade desses grupos de convívio (prioridade), qual é o tempo de permanência com as pessoas desses grupos (frequência), por quanto tempo estas relações persistem (duração) ou se essas relações aumentam em frequência e força (intensidade) (Sutherland, 1955; Warr, 1993). Portanto, a imersão de indivíduos em sociabilidades que têm como características atividades vistas como divergentes, não significa que os indivíduos se associam por questões de desorganização ou por deficiência em habilidades sociais, mas, sim, em razão de estarem associados a grupos sociais que mantêm códigos diferentes dos convencionais (Warr, 1993). De acordo com Sutherland (1955), para que um grupo se mantenha coeso em suas atividades divergentes é viável que existam regras, códigos de condutas, para que as atividades continuem em pleno desenvolvimento. Para isso, é necessário tempo, dedicação e afeição entre os parceiros. A teoria da associação diferencial sofreu muitos questionamentos por não fornecer evidências empíricas que pudessem comprovar seus argumentos (Burgess; Akers; 1966; Warr, 1993). Foi sob influência da psicologia comportamental que pesquisadores conseguiram estabelecer alguns caminhos de análise, tendo em vista uma agenda de pesquisa mais concreta para a associação diferencial, denominando- a de Teoria da Aprendizagem Social. Sumariamente, essa perspectiva argumenta que as relações sociais definem comportamentos pró-criminais e anticriminais mediante reforços positivos, punições e imitações (Akers; Jennings, 2009; Warr, 1993). Grande parte das pesquisas orientadas por essas perspectivas teóricas revelam que jovens inseridos em grupos delinquentes tendem a considerar os seus amigos como importantes, sobretudo para a construção de identidades, situação a qual é bem específica para tal fase da vida (Warr, 1993). Tal período é também marcado por uma busca de autonomia, de validação ou de embate com o processo educacional proporcionado pelos pais. Por exemplo, algumas atitudes tornam um adolescente mais aceito pelo grupo, como fumar cigarros, usar álcool e outras drogas, seguir determinados gostos musicais, usar determinadas vestimentas, realizar atividades que os membros do grupo também realizam, frequentar determinados 22 lugares voltados ao lazer, bem como participar de um grupo especializado em tráfico de drogas ou roubos específicos. Tanto as definições pró-criminais quanto as anticriminais, para serem aprendidas e aceitas pelos indivíduos, precisam de estímulos nesse processo. Por considerarem seus amigos como importantes, e para se sentirem aceitos nos grupos sociais, os adolescentes tendem a imitar as atitudes do grupo. Além disso, estímulos podem partir de elementos afetivos, como os elogios, bem como elementos materiais e simbólicos, como prêmios de reconhecimento ou um presente que o indivíduo queria tanto, por exemplo (Akers; Jennings, 2009, Haynie, 2002). Dentro dos próprios grupos delinquentes existem os estimuladores: “[...] uma pessoa que tende a ser mais velha, mais experiente e emocionalmente próxima de outros membros” (Warr, 1996, p. 11, tradução nossa). Por isso não há diferenças nos processos de aprendizagem das definições pró e anticriminais, pois ambos processos são pautados em estímulos. No caso deste trabalho, pode-se abordar os contatos sociais como aqueles que ensinam as normativas do “mundo do crime” e as normativas convencionais. Indivíduos podem circular por estas diferentes definições, mas a definição que será aceita por eles dependerá do peso do incentivo envolvido. Dito isso, a família e os amigos podem ser os principais impulsionadores das definições anticriminais e pró-criminais, dependendo do grau de reforços intermediados nestas interações. A escola, por exemplo, pode ser um ambiente de encontro entre os pares, que pode levá-los a terem atitudes delinquentes ou não, a depender das informações que circulam dentro do grupo. Dada essa discussão, entendemos que uma parte do debate acadêmico nacional tem revelado evidências que sustentam, mesmo que de modo indireto, a Teoria da Associação Diferencial, uma vez que é possível notar que o comportamento de jovens no “mundo do crime” é parte de um processo de aprendizado. Os contatos sociais mais próximos demonstram ser fontes de influências, tanto de códigos convencionais quanto de códigos do “mundo do crime”. Na próxima seção discutiremos de que modo é possível estabelecer esta articulação, os limites e a proposta de investigação deste trabalho. 23 1.4 REVISÃO DA LITERATURA NACIONAL: EVIDÊNCIAS E A TEORIA DA ASSOCIAÇÃO DIFERENCIAL A partir da revisão da literatura nacional, que aborda a participação de jovens no “mundo do crime”, o objetivo desta seção foi investigar aspectos discutidos pela Teoria da Associação Diferencial que estão presentes nesses estudos. A mesma pergunta que guiou a revisão bibliográfica nacional que se aproxima da Teoria do Controle Social foi também central para a leitura da bibliografia que se aproxima da Teoria da Associação Diferencial: como os contatos sociais dos jovens são apreendidos pela literatura nacional e de que modo interferem em suas dinâmicas sociais no sentido de se inserir ou não no “mundo do crime”? Assim como a Teoria do Controle Social, constata-se que muitos elementos levantados nesse segundo debate também são derivados de explicações que partem das esferas sociais da família, escola e trabalho, mas argumentando que tais esferas podem sustentar a associação diferencial. Os contatos sociais nessas esferas, além de serem fontes de definições convencionais, podem apoiar definições divergentes. Independente de um grupo seguir regras convencionais ou não, a proximidade entre os membros viabiliza a legitimação dessas regras, através da pressão social, da disciplina e controle, dos sentimentos de pertencimento, que são essenciais para manter o grupo coeso. Portanto, o “mundo do crime” neste trabalho será apreendido como um tipo de associação diferencial (Sutherland, 1955), pois é amparado por normativas específicas do grupo (Feltran, 2009; Lyra, 2013). Embora sejam diferentes das leis e regras convencionais, é um contexto nutrido de disciplina e controle, de regras e práticas sociais, norteadas por afeto, incentivos e punições. Ao contrário do que a teoria do controle social apresenta, o apego, a proximidade, a duração e a intensidade das relações, são variáveis relevantes a serem consideradas para a persistência do “mundo do crime”, facilitando o aprendizado através da relação entre tutores e aprendizes. É muito comum encontrar depoimentos de jovens inseridos no “mundo do crime” que narram a aproximação com esse contexto devido ao fato de conhecerem seus parceiros desde a infância (Malvasi, 2012; Rolim, 2014). A pesquisa de Rolim (2014) evidencia tal fato quando expõe um conjunto de variáveis que contribuiria para promover “disposicionalidade violenta” de seus entrevistados. O “treinamento violento”, cuja experiência mais frequente é através da 24 socialização comunitária, foi revelado como uma situação em que os jovens vivenciavam relações entre “experientes” e “novatos”, sendo os últimos “[...] estimulados a reagir com violência diante de qualquer provocação” (Rolim, 2014, p. 108). Além da contribuição de Rolim sobre o “treinamento violento”, outros autores evidenciam em suas pesquisas os estímulos positivos e punitivos que contribuem para a coesão no “mundo do crime”, como as expectativas de lealdade entre os parceiros; a proibição de roubos dentro do bairro; um sistema de hierarquia e divisão de tarefas; divisão do dinheiro conquistado nas atividades; elogios e sistemas de punições direcionados a traidores, bem como resolução de conflitos através de seus tribunais (Feltran, 2009; Malvasi, 2012). Alguns autores têm argumentado que as mudanças políticas, econômicas e culturais que o Brasil atravessou nos últimos 30 anos acarretaram em crises no universo familiar, escolar e no mercado de trabalho (Bittar, 2011; Feltran, 2009; Malvasi, 2012). Isso não significa que essas instituições tendem a desaparecer ou que não mais funcionam como modelos de comportamento, mas que sofrem constantes avaliações e produzem diferentes reações pelas juventudes. As juventudes periféricas experimentam dilemas, desde situações que as levam a abandonar os bancos escolares em razão da falta de incentivo ou da necessidade de trabalhar, ou em seguir conciliando as duas coisas. Como parte desse dilema considera-se também a entrada ou não no “mundo do crime”, situação a qual leva a um ambiente de disputas entre as normativas convencionais e as normativas do “mundo do crime”, com referência ao processo de socialização dos jovens. O “mundo do crime” é fortalecido diante das crises vivenciadas nesses processos de socialização, sobretudo por parte das camadas sociais que têm sofrido com a ausência de direitos e justiça (Costa; Santos, 2014; Zilli, 2015). A literatura mostra que os contatos sociais dos jovens moradores das periferias das cidades são heterogêneos, no sentido de circularem entre as fronteiras de grupos sociais norteados por práticas sociais convencionais, bem como por práticas sociais do “mundo do crime”, mantendo contato com amigos, conhecidos ou parentes que fazem parte desse contexto. Muitas vezes, lidam com os códigos do “mundo do crime” (linguagens, músicas, condutas, vestuários), mesmo mantendo-se distantes de suas atividades (Pavez, 2015; Feltran, 2009; Malvasi, 2012; Vieira, 2014; Moreno, 2016). 25 Dado esse contexto, é inviável nesta pesquisa discutir a juventude periférica através de uma divisão estanque (Malvasi, 2012), pensando que os jovens não envolvidos são aqueles que receberam apoio da família, por exemplo; e os jovens “problema”, que vivenciam conflitos familiares, agem por impulso e, assim, se juntam a pessoas com personalidades semelhantes no “mundo do crime”. Aqueles que se inserem no “mundo do crime” vivenciam as crises da juventude pobre contemporânea, convivem com o universo escolar em crise, com dificuldades de inserção no mercado de trabalho, tentando compreender a si próprio e qual é o seu papel diante do mundo. Se inserir no “mundo do crime” é resultado de um processo de avaliação que os sujeitos fazem de situações que acontecem em suas vidas (Bittar, 2011; Gusmão, 2018). Via de regra, é constante nas pesquisas acadêmicas reportar-se à categoria trabalho, sobretudo quando discutem a juventude pobre contemporânea e a relação com o “mundo do crime”. Mesmo que o mercado formal não absorva grande parte da mão-de-obra juvenil, somando-se à informalização e precarização, o trabalho ainda estrutura parte da rotina das juventudes. Isso acontece porque, além do trabalho complementar a renda doméstica, ele possibilita ao jovem acesso ao consumo e ao entretenimento. Daí a pressão social para a ocupação do tempo livre ou a ansiedade para conseguir um emprego e levar uma vida mais independente da família (Malvasi, 2012; Lyra, 2013; 2020; Zaluar, 2013). É nessa transição de busca pela independência financeira que o “mundo do crime” surge diante dos impasses que alguns jovens vivenciam. Nesse contexto, sobretudo as atividades voltadas ao tráfico de drogas ofertam uma rotina com cargos hierárquicos e horário de trabalho; embora seja uma atividade de alto risco, permite remuneração superior às outras ocupações precarizadas e/ou do mercado formal (Lyra, 2013; 2020). Desse modo, tensões surgem entre os jovens e seus familiares. Ainda existindo o aconselhamento familiar para não se envolverem com o “mundo do crime”, alguns jovens acabam se inserindo nessas práticas, até mesmo escondido dos familiares, devido a outras razões que não necessariamente a explicada pela negligência familiar. Razões essas que são evidenciadas através da busca por reconhecimento social, proteção, autonomia financeira, pertencimento social, construção de identidade, etc. (Mourão; Silveira, 2014; Guadalupe, 2012; Rolim, 2014; Lyra, 2013; Ferreira, 2016; Leal, 2010). Essas tensões também são vivenciadas no 26 espaço da mesma casa, onde podem residir filhos inseridos no mercado de trabalho formal ou informal lícito, enquanto outros filhos ou parentes seguiram a carreira do “mundo do crime”. Nesse espaço ambíguo, os jovens também aprendem os códigos do “mundo do crime” com parentes que já estão imersos nesse universo, suficientes para influenciar a entrada (Feltran, 2009), o que corresponde com a Teoria da Associação Diferencial, pois a família pode também ser um espaço de aprendizagem e meio para associação diferencial. Por fim, a escola também está presente nesse campo de disputas. Embora seja reconhecida como auxílio aos jovens para acessar conhecimento, projetar as suas vidas e compreender o seu papel diante do mundo, pode também ser percebida como um ambiente enfadonho e sem sentido, sendo a evasão escolar a libertação desse fardo (Guadalupe, 2012; Sento-Sé; Coelho, 2014). Nesse paradoxo, a escola ajuda a compor variadas trajetórias. Quando a família não incentiva em seus projetos, alguns jovens recorrem à escola, pois a equipe escolar, os colegas, preenchem a lacuna do incentivo desprezada pela família; outros não gostam da escola, mas passam a percebê-la como um universo de oportunidades quando entram no mercado de trabalho, acrescentando novos contatos sociais, que os incentivam a continuar estudando; já outros jovens se frustram com o mundo do trabalho, pois não conseguem se encaixar no mercado formal e precisam se inserir em trabalhos precarizados; ou ficam à deriva, ao circular por essas esferas não recebendo nenhum tipo de incentivo (Bittar, 2011). Além disso, o espaço escolar também viabiliza o contato com colegas inseridos no “mundo do crime” que podem servir como meio de influência para a entrada (Silva et al, 2019), corroborando mais uma vez com as defesas da Teoria da Associação Diferencial. Seguindo essa linha, os jovens não selecionam contatos por serem semelhantes a eles em razão das práticas divergentes, mas são influenciados dentro de seus grupos sociais mais íntimos, para se inserir e permanecer no “mundo do crime”. Diante disso, mesmo que o “mundo do crime” seja reconhecido pela literatura nacional como um campo de sociabilidade nesses momentos de crises, ainda é pouco discutido o fato de que maior parte dos jovens das periferias da cidade não seguem carreira no “mundo do crime”, no sentido de tornar as atividades desse universo como principal fonte de renda, meio de reconhecimento e proteção. Além disso, a 27 exploração das características relacionais dos jovens tem sido pouco aprofundada pela literatura brasileira como um passo para a compreensão dessas diferentes trajetórias, tendo este trabalho a tarefa de contribuir para o preenchimento desta lacuna. O intuito da próxima seção é apresentar as expectativas que norteiam esta pesquisa e de que modo pretende-se encaminhá-la. 1.5 CONTRIBUIÇÕES E IMPLICAÇÕES DESTA TESE O objetivo desta pesquisa é comparar as características das redes pessoais entre jovens envolvidos e não envolvidos com o “mundo do crime” de modo a avaliar, por meio das Análise de Redes Sociais (ARS), se as hipóteses levantadas pela teoria do controle social e pela teoria da aprendizagem social podem ser evidenciadas na realidade brasileira. A Análise de Redes Sociais é um paradigma explicativo que permite reavaliar as teorias mencionadas, sendo uma ferramenta para elucidar detalhes das relações sociais que contribuem para a produção de controle social e associação diferencial. Ainda que este trabalho esteja pautado em teorias concorrentes, cuja tentativa de seus principais autores é de torna-las teorias gerais do crime, não trabalhamos com o intuito de defender qual teoria está correta, pois concorda-se com a perspectiva de que podem ser trabalhadas de modo complementar1. A ARS se popularizou recentemente nas Ciências Sociais devido à massificação das mídias sociais, conhecidas popularmente como “redes sociais”. Embora os relacionamentos nas mídias sociais possam ser um objeto de estudo da ARS, não significa que essa perspectiva surgiu especificamente para tal intento (Fialho, 2014; Higgins; Ribeiro, 2018). Tanto no universo online quanto no universo offline, o que importa para a ARS é a tarefa de lidar com um problema relacional (Scott, 2017), isto é, saber em que medida ou de que maneira as estruturas de relacionamentos de pessoas e/ou grupos sociais influenciam comportamentos e fenômenos sociais. Visando contribuir com as pesquisas nacionais, esta tese trata da inserção de jovens no “mundo do crime” como um problema relacional. Importa acessar o relacionamento diário dos interlocutores com seus contatos sociais (família, amigos, 1 Alguns autores têm debatido a viabilidade de trabalhar com essas teorias de modo complementar. Ver KRHON, (1986); PAPACHRISTOS (2014). 28 professores, conhecidos) a fim de explorar características relacionais, tais como, a frequência, durabilidade e a intensidade das relações, bem como as funções desempenhadas por esses contatos, de modo a descobrir evidências favoráveis ou contrárias à ideia de que a conectividade da rede e essas funções facilitam ou restringem a inserção de jovens no “mundo do crime”. Para tornar essa análise mais clara ao leitor, o próximo capítulo se concentra em apresentar os principais conceitos da ARS e o modo como ela será utilizada neste trabalho. 29 2. A PERSPECTIVA DAS REDES SOCIAIS: ASPECTOS TEÓRICO METODOLÓGICOS A partir da década de 1930, um conjunto de pesquisadores se dedicaram a analisar estruturas de relações de pequenos grupos, como por exemplo, grupos familiares e comunitários e grupos de trabalhadores dentro de fábricas. Passou-se a compreender que os relacionamentos são apreendidos para além de simples ligações entre indivíduos. O que importa é acessar a quantidade, a qualidade, os tipos de intercâmbios e as rejeições existentes, para identificar padrões de interação social e a influência desses padrões no comportamento humano e estrutura social (Fialho, 2014; Scott, 2017). A partir desses trabalhos pioneiros, a ARS foi se estabelecendo ao longo do tempo, tanto como perspectiva teórica quanto como conjunto de técnicas metodológicas (Papachristos, 2014). Como perspectiva teórica, sustenta que a sociedade é uma estrutura de laços sociais que facilita ou restringe comportamentos, atitudes, informações ou bens dos participantes dessas estruturas (Scott, 2017; Papachristos, 2014; Nooy et al, 2018; Borgatti, 2013). Nesse sentido, essas relações sociais constroem e estabilizam políticas públicas; mudam opiniões ou decisões eleitorais; implementam melhorias em um bairro e sustentam apoio individual; viabilizam emprego para alguém que está desempregado ou aprofundam situações como a pobreza. No caso discutido neste trabalho, podem inserir ou distanciar jovens do “mundo do crime”, a depender da estrutura das redes sociais nas quais se inserem, bem como das características relacionais dos seus contatos sociais. Para descrever o conjunto de características individuais e relacionais dos participantes de uma rede, analistas têm se debruçado sobre os caminhos a serem seguidos para acessar dados dos indivíduos e de suas relações. Veremos na próxima seção que a matemática de matrizes, a teoria dos grafos e a representação das redes sociais em diagramas é central para a ARS enquanto perspectiva metodológica. 2.1 GRAFOS, MATRIZES E SOCIOGRAMAS A teoria dos grafos se tornou uma das bases para a ARS, tendo em vista facilitar o levantamento, descrição e análise de dados relacionais (Fialho, 2014; Scott, 2017; Ferreira, 2015). 30 Atualmente, com o avanço das técnicas e metodologias de ARS, são desenvolvidos desenhos de pesquisas considerando indivíduos e grupos sociais maiores, sobretudo dentro e entre organizações de diferentes finalidades. Com o aprimoramento das tecnologias, os softwares otimizam o trabalho de analistas, que desenvolvem pesquisas cada vez mais complexas. Os softwares são produzidos com base na teoria dos grafos e matrizes e são amparados pelos conceitos da ARS, viabilizando a quantificação de dados e representação gráfica dos mesmos. Um grafo é um conjunto de vértices, pontos ou nós que representam indivíduos, grupos sociais ou organizações que compõem uma rede. As arestas representam as relações existentes entre os nós, ao passo que a ausência dessas arestas representa a ausência de relações. As arestas são ilustradas de maneira direcionada, através de flechas que indicam a direção de determinada relação; ou não direcionada, quando simplesmente servem para marcar a presença de algum tipo de relação entre os nós em uma rede (Nooy et al, 2018; Borgatti, 2013). O conjunto de pontos (que representam os nós da rede) e linhas são ilustrados por diagramas denominados de sociogramas, cuja finalidade é demonstrar os aspectos arquitetônicos das redes (Perry et al, 2018), conforme as figuras 1 e 2 abaixo: Figura 1 - Rede não direcionada Elaborada pela própria autora. Figura 2 - Rede direcionada Elaborada pela própria autora. 31 Assim como o grafo, a matriz de adjacência é um recurso que representa as relações sociais de uma determinada rede social, sendo possível visualizar a vizinhança de cada ator (Pires, 2017). É construída através de linhas e colunas. As colunas representam as relações, e as linhas os atores (Pires, 2017). Quando há relação, atribui-se na matriz o número 1 (um); e quando não há relação, atribui-se o 0 (zero). Por exemplo: imagine que em uma determinada pesquisa perguntou-se aos participantes para quem costumam pedir algum tipo de ajuda financeira. Na matriz abaixo, nota-se que o “indivíduo 1” (coluna) costuma pedir ajuda para o “indivíduo 2” (linha), mas não pede ajuda ao “indivíduo 3”. No entanto, o “indivíduo 2” (coluna) costuma pedir ajuda somente ao “indivíduo 3” (linha), e assim sucessivamente. Os indivíduos 1, 3 e 4 são aqueles que mais pedem ajuda a mais de uma pessoa nessa rede social, revelando manterem maior rede de contatos. É a partir da perspectiva das matrizes que os sociogramas são gerados, conforme as figuras 3 e 4: Figura 3 - Matriz de adjacência Elaborado pela própria autora. Figura 4 - Sociograma da matriz de adjacência A ARS divide-se em dois tipos de abordagens. Embora as duas abordagens considerem a relação entre agente e estrutura na formação de redes sociais, o pesquisador precisa ter o entendimento sobre o campo de pesquisa e seu foco de análise: se a análise será voltada para todas as pessoas e relacionamentos que Elaborado pela própria autora. 32 compõem um campo fechado (que pode ser uma instituição, por exemplo); ou se a análise terá como foco um indivíduo e sua rede de relacionamento pessoal (os contatos sociais do ego podem estar na escola, trabalho, igreja, partido político, família, etc.). Com base nisso, há estudos que analisam redes totais, que geralmente empreendem análises específicas em uma organização/instituição/empresa, considerando todas as pessoas envolvidas nesse contexto. Presume-se a necessidade de saber sobre algum conflito ou outro tipo de fenômeno social que ocorre dentro do universo de análise, e que possam interferir na organização social e comportamento dos participantes. Nesse tipo de estudo, é apresentada uma lista de todas as pessoas que compõem esse contexto e pede-se para que indiquem com quem mantêm maior contato, o motivo pelo qual acionam tais pessoas, que tipos de relacionamentos são mantidos, etc. Nesse sentido, importa à abordagem de redes sociais totais compreender como uma rede de relacionamentos se configura em uma estrutura social, interferindo no comportamento de seus membros, na prestação de serviços à população ou à alguma clientela específica, por exemplo. Por esse recorte de análise, a pesquisa pode ser desenvolvida em escolas, hospitais, fábricas/empresas, vizinhanças, presídios, departamentos de polícia, sendo, portanto, ambientes de redes sociais totais produtoras de fenômenos sociais. Já a análise de egonets aborda especificamente o indivíduo (ego) e seus contatos sociais (alters), ou seja, procura compreender como a estrutura de relacionamentos de uma rede pessoal interfere no comportamento, nas atitudes e decisões do ego. Essa rede pessoal pode ser uma rede específica desenrolada dentro de uma instituição (escola, trabalho, por exemplo) ou pode ser uma rede pessoal que integra a rotina geral do sujeito pesquisado. Assim, com orientação em um determinado fenômeno social, na análise de egonets pede-se que o sujeito pesquisado liste um determinado número de pessoas com as quais mantem contato, tendo em vista saber a quantidade e a qualidade desses relacionamentos intermediados com essas pessoas. A partir dessas informações, a rede social pessoal do sujeito pode ser reconstruída por meio de matrizes e grafos. As próximas subseções esclarecem a respeito das diferenças e combinações entre dois tipos de dados importantes a serem coletados no trabalho de campo: as características individuais e as características relacionais dos participantes da pesquisa. 33 2.2 ATRIBUTOS E RELAÇÕES: DIFERENÇAS E COMBINAÇÕES Tanto na abordagem de redes sociais totais quanto na abordagem de egonets, considera-se alguns elementos básicos para a coleta de dados dos participantes (Nooy et al, 2018; Borgatti, 2013). Usualmente, a coleta é realizada por meio de um questionário dividido em duas partes, que se resume em apreender os atributos individuais dos participantes e as suas características relacionais. Na primeira parte, interessa acessar os atributos das pessoas que compõem a rede, tais como renda, raça/etnia, gênero, faixa etária, escolaridade, ocupação, bairro de moradia, etc. Esses dados podem ser obtidos diretamente com o entrevistado, ou de modo secundário, através de um banco de dados disponível. Na representação das redes por meio de sociogramas, os nós (pessoas ou organizações, normalmente) são identificados de acordo com o objetivo de análise do pesquisador. Já na segunda parte, interessa acessar os dados relacionais. Primeiramente, solicita-se ao entrevistado que indique as pessoas com as quais mantém contato em sua rotina. É certo que esse estágio engloba a análise de redes totais e a análise de egonets, mas com a seguinte diferença: na abordagem de redes totais é apresentada uma lista de pessoas que compõem uma organização ou qualquer contexto de estudo. Todos os integrantes da lista também participarão da pesquisa, indicando quem são os integrantes com os quais mantêm contato diante de uma finalidade específica. No que tange à análise de egonets, solicita-se ao ego (indivíduo) para citar pessoas com as quais mantém contato em sua rotina diária, dentro ou fora de uma organização, tendo em vista uma finalidade específica. Tais informações são prestadas para descrever a quantidade e a qualidade de relacionamentos estabelecidos, as preferências ou rejeições sociais, a partir do modo pelo qual essas relações se conectam, se distribuem e se segmentam (Ferreira, 2015). De modo quantitativo, em geral mensura-se a estrutura das redes sociais e as características relacionais dos participantes, com base em parâmetros que indicam o tamanho geral da rede (se na rede há um número considerável de pessoas), o quão unido um grupo social é (efeitos de densidade), o status de determinados membros dentro da rede (efeitos de centralidade), bem como a formação de subgrupos (cliques/”panelinhas”) (Ferreira, 2015). Em outros termos, o modo pelo qual se desdobram as relações sociais nessas redes pode se converter em uma rede social 34 unida ou mais desconectada; um indivíduo se sobressair com maior status frente aos demais; e subgrupos se formarem conforme afinidades ou estratégias dos membros. De modo qualitativo, apreende-se que entre os agentes são nutridos contatos correspondentes ou pouco frequentes no cotidiano, mas que cumprem algum tipo de função e troca de conteúdos na rede social. Assim, é fundamental ao pesquisador perguntar sobre o tipo de relacionamento estabelecido (se é amigo, conhecido, familiar, colega de trabalho, vizinho, etc). Do ponto de vista quantitativo pode-se identificar a força desses laços sociais, como forte ou fraca, a depender de parâmetros como frequência, durabilidade e intensidade do relacionamento, o que garante proximidade e confiança entre os membros. Entretanto, independente do laço ser forte ou fraco, importa saber qual o tipo de função que viabiliza (trocas, serviços, suporte emocional, ajuda material, definição de regras e sanções, etc.), bem como quais os conteúdos trocados entre eles (conselhos, informações, interesses em comum, etc.) (Perry et al, 2018). Ainda que o foco da ARS seja as características relacionais entre os participantes, os atributos individuais permitem uma análise mais aprofundada sobre a estrutura social. Os atributos individuais oportunizam recortes de subgrupos nas redes sociais: frente aos inúmeros atributos individuais, os softwares facilitam a seleção de subgrupos que filtram somente a relação entre familiares; as relações entre grupo de pares; as relações entre pessoas levando em conta o tempo de serviço prestado ou entre mulheres em um dado contexto, por exemplo. Por outro lado, os recortes de subgrupos facilitam a visualização de preferências entre os membros com orientação às características individuais parecidas, como o gênero, raça/etnia, renda, gostos, preferências políticas, profissão, práticas delinquentes, etc., denominando-se esse tipo de conexão na ARS de homofilia. Veremos adiante que todos esses estágios na coleta e análises de dados objetivam compreender algum comportamento ou fenômeno social (Nooy et al, 2018; Perry, 2018; Borgatti, 2013). Como o foco deste trabalho está no envolvimento de jovens com o “mundo do crime", as próximas seções tratarão das aplicações que a literatura internacional vem fazendo da ARS para compreender o fenômeno da delinquência, especialmente a juvenil, a partir da Teoria do Controle Social e da Teoria da Associação Diferencial. 35 2.3 ANÁLISE DE REDES SOCIAIS E DELINQUÊNCIA A ARS é compatível com diversas perspectivas teóricas, dentre as quais a Teoria do Controle Social e a Teoria da Associação Diferencial. Isso porque, para explicar a participação de jovens ou o distanciamento deles de práticas delinquentes, essas duas teorias atribuem importância aos relacionamentos mantidos pelos sujeitos em suas rotinas diárias, enquanto definidores de comportamentos (Papachristos, 2014). Pesquisas orientadas à ARS têm procurado compreender o comportamento delinquente, testando hipóteses e interpretações dessas duas teorias. Demonstram de que modo uma rede de relacionamentos viabiliza controle social ou abre espaço para a participação de jovens em atividades delinquentes, partindo de características estruturais da rede, de características relacionais de seus membros e da localização do jovem dentro dessa estrutura (Haynie, 2001; Krohn, 1986). Embora tais bases teóricas se diferenciem, ambas perspectivas argumentam que o comportamento individual está atrelado ao comportamento de grupo, a depender do modo pelo qual os relacionamentos se desdobram no cotidiano. A relação entre comportamento individual e comportamento de grupo não é uma questão recente nos estudos sobre delinquência, sendo essa uma evidência robusta que tem persistido ao longo do tempo (Schreck et al, 2004). Desde os estudos mais clássicos, as análises com maior destaque são dedicadas aos grupos de amizades adolescentes, vistos como potencializadores de comportamento delinquente (Shaw; Mckay, 2002). Isso porque adolescentes passam a maior parte do tempo com os amigos, em razão de atribuir importância à essas afiliações, sendo o grupo de pares um forte influenciador de comportamentos e atitudes, comparando com qualquer estágio no curso da vida (Schreck et al, 2004; Haynie & Osgood, 2005). Nessa linha, a perspectiva de rede tem inovado as técnicas de análises desses grupos, cujo avanço é evitar uma relação automática entre o fato de adolescentes se envolverem em delinquência porque os seus amigos estão participando. O avanço proporcionado pelas ARS sugere que os jovens se envolvem em delinquência porque isso depende da localização estrutural deles dentro da rede de amizade, do tipo de relação que estabelecem com seus amigos, se existe algum tipo de vigilância dos pais quanto à rotina de seus filhos, condições as quais permitem 36 ao grupo constranger ou não o comportamento individual (Haynie, 2001; Krohn, 1988; Haynie & Osgood, 2005). O uso da ARS permite avançar a literatura nacional sobre esse tema, a exemplo do que vem ocorrendo na literatura internacional, que tem se dedicado mais a estudos quantitativos vinculados à ARS e delinquência, principalmente em escolas públicas dos EUA. Essa literatura internacional também tem se beneficiado de um rico conjunto de dados levantado pelo The National Longitudinal Study of Adolescent Health (AddHealth), que fornecem detalhes de atributos individuais e de dados relacionais das redes de amizades de jovens do ensino básico oportunizadas dentro de escolas públicas selecionadas para a pesquisa (Papachristos, 2014). Dentre esses dados, englobam-se os perfis dos jovens entrevistados acerca de atos infracionais cometidos por eles, como roubo, vandalismo, brigas, uso de álcool e outras drogas, e situações de riscos que envolvem a saúde. Foi apresentada aos estudantes uma listagem de todos os alunos frequentadores da escola para que indicassem quem eram seus amigos, possibilitando a construção de uma rede pessoal para análise, sendo esses amigos também entrevistados. Por outro lado, o conjunto de todos esses dados coletados possibilitou a construção de uma rede total de cada escola para a análise, sendo possível uma visão global sobre a localização de indivíduos e grupos em uma rede social maior. O cruzamento dos dados individuais e a estrutura da rede pessoal dos participantes dentro da escola trouxe resultados interessantes quanto à vinculação do comportamento individual ao comportamento do grupo. Por exemplo, dentro da rede total escolar foram identificados grupos de pares delinquentes densamente conectados, ou seja, todos os membros possuíam laços diretos entre si, cuja interpretação sugere que, este tipo de estrutura de rede favorece o comportamento delinquente por facilitar a circulação de informações entre os membros da rede sobre tais atividades (Haynie, 2001; Payne; Cornwell, 2007). Dado esse contexto, a presente pesquisa também visa contribuir com a literatura internacional. Considera-se que estudos voltados somente às redes sociais de jovens dentro de escolas de ensino básico tendem a evidenciar formas menores de delinquência (consumo de álcool e outras drogas, brigas) (Papachristos, 2014), o que impede apreender formas mais graves de crime e violência atreladas a valores, atitudes e técnicas vivenciadas em contextos de grupo. 37 Vimos que no Brasil jovens inseridos nesse contexto mais grave sofrem as consequências de uma “cadeia de desvantagens” como a evasão escolar. Por isso, em escolas seria difícil captar dados de jovens que estão inseridos em carreiras do “mundo do crime”. Há a tendência de abandonarem os bancos escolares nos primeiros anos do ensino fundamental das séries finais (6º a 9º ano) (Paraná, 2012), demandando a necessidade de se expandir o campo de estudos. O desafio desta pesquisa está em caracterizar e diferenciar as estruturas relacionais dos jovens envolvidos com o “mundo do crime” e não envolvidos, com base na Teoria do Controle Social e na Teoria da Associação Diferencial, avançando assim o conhecimento acumulado pela literatura nacional, que tem aprimorado as discussões que associam infrações ou crimes juvenis com a noção de sociabilidade. Nas próximas seções deste capítulo apresentaremos de que modo pesquisadores articulam a Teoria do Controle Social e a Teoria da Associação Diferencial para analisar redes sociais delinquentes e convencionais. Para tanto, apresentaremos quais são as principais medidas de rede utilizadas por esses autores e de que modo podem contribuir com a proposta deste estudo. 2.4 DIMENSÕES DA CONEXÃO: MULTIPLEXIDADE DE REDE, DENSIDADE, HOMOFILIA E CENTRALIDADE 2.4.1 Dimensões da Multiplexidade de Rede A Teoria do Controle Social possui um entendimento relacional do fenômeno criminal, pois considera que o forte apego de adolescentes com os pais, professores, colegas, conhecidos diminui o comportamento delinquente (Schreck & Hirschi, 2009). O relacionamento com os pais é um ponto central para definir a rotina e compromissos dos jovens, assim como a cooperação da família com o contexto escolar ajuda a monitorar o comportamento e rendimento dos filhos (Krohn, 1986). Um elemento importante para trabalhar com a noção de apego é saber se os jovens realizam atividades conjuntas com seus pais, e se longe deles, fornecem informações de sua rotina, sugerindo uma relação de confiança. Além disso, os pais precisam conhecer os amigos e outros membros que integram a rede pessoal dos adolescentes, possibilitando dessa maneira maior monitoramento da rotina (Schreck & Hirschi, 2009; Hirschi, 2004; Krohn, 1986; Haynie; Osgood, 2005). 38 Estruturas de redes sociais são geradas a partir de conexões desenvolvidas entre os membros, indicando se o comportamento delinquente, bem como o comportamento convencional, está dentro do alcance do indivíduo (Krohn, 1986). Uma dessas estruturas é denominada de multiplexidade de rede, que define se na rede analisada os vértices possuem múltiplas relações com os mesmos vértices em diferentes contextos (Nooy et al, 2018). As redes pessoais dos jovens são formadas em variados contextos, em que são desenvolvidas diversas atividades, podendo existir interação com as mesmas pessoas ainda que em contextos diferentes. Em contextos da escola, os pais podem participar de reuniões com professores para saber o rendimento dos filhos; em contextos de lazer, os jovens podem interagir com os pais e com os amigos conjuntamente (Krohn et al, 1988); os mesmos amigos da escola podem ser amigos na vizinhança ou trabalharem em uma mesma organização que o interlocutor. A noção de multiplexidade de rede é utilizada em estudos sobre delinquência porque essas múltiplas relações estabelecidas com as mesmas pessoas produzem controle social, sobretudo se os contatos derivados de instituições convencionais estão envolvidos nessas relações (Krohn, 1986; Krohn et al, 1988). Uma estrutura multiplex é visualizada após o levantamento de contatos sociais que um jovem mantém em sua rede. O pesquisador indaga sobre quais pessoas cooperam em determinadas atividades, projetos ou contextos (lazer, estudos, trabalho, delinquência, etc), para assim gerar a sobreposição dessas relações e identificar se os mesmos vértices participam delas conjuntamente. Ainda que sejam poucos os estudos dedicados à análise de redes multiplex para compreender o comportamento delinquente, pesquisas concluíram que se um adolescente participa de atividades com pais e colegas simultaneamente, há menor probabilidade desse adolescente fumar cigarros, mesmo controlando o comportamento de fumar do melhor amigo (Krohn et al, 1988). Portanto, um efeito produzido pela rede multiplex é facilitar a detecção de um comportamento ameaçador (quando os pais, por exemplo, não concordam com determinadas amizades ou conseguem informações com a escola sobre o comportamento divergente dos filhos), e restringir tal comportamento diminuindo as chances de delinquência (quando adultos advertem aos mais jovens a respeito de determinadas atitudes ou passam a ser mais participativos da rotina dos filhos, por exemplo) (Krohn et al, 1988). 39 Haynie (2001) descobriu que as dimensões de controle social, como o apego à família e escola, estavam relacionadas à redução do envolvimento com a delinquência. Entretanto, o aumento da delinquência individual esteve associado à quantidade de tempo gasto com os amigos. Isso significa que, quando as atividades dos adolescentes estão ausentes de figuras de autoridade, não há monitoramento quanto ao uso do tempo. Provoca-se pouco envolvimento com esferas sociais convencionais e compromisso com entes mais próximos, não havendo preocupação em desapontá-los. Situações de rotinas desestruturadas que englobam o uso do tempo e delinquência, era forte tanto para entrevistados com amigos convencionais quanto para aqueles com amigos delinquentes (Haynie & Osgood, 2005), bastando os jovens estarem juntos frequentemente para a oportunidade de praticar delinquência acontecer. Para este trabalho em específico, apreendeu-se as redes multiplex dos participantes. A partir das transposições de relações estabelecidas com os membros da rede representadas nos sociogramas, observou-se se pessoas ligadas à família, escola, dentre outras instituições convencionais, cumprem algum tipo de função no cuidado dos interlocutores: estabelecimento de rotina, conselhos, troca de favores e ajuda financeira. Por outro lado, verificou-se se essa função é também desempenhada pelos parceiros do “mundo do crime”, caso na rede dos interlocutores apareçam relações estabelecidas com esse tipo de sociabilidade, o que sugere processos de associação diferencial. Outras medidas estruturais de rede são necessárias para apreender de que modo o comportamento delinquente, assim como o comportamento convencional, está no alcance do indivíduo. Desde estudos brasileiros mais clássicos (Zaluar, 2013) é evidenciado a dificuldade de familiares acompanharem a educação dos filhos, em razão de passar longas jornadas de trabalho longe de casa, reduzindo dessa forma o monitoramento da rotina. Somando-se a isso, vimos que o “mundo do crime” tem articulado disputas normativas que concorrem com as esferas convencionais, integrando alguns jovens nesse contexto (Feltran, 2009; Lyra, 2013). Em razão disso, os efeitos da multiplexidade de rede diminuem, visto que o monitoramento dos mais jovens passa a ser negligenciado. Frente a isso, o “mundo do crime” torna-se um espaço de acolhimento, proteção e de relações de poder. Para compreender esse processo, a próxima seção discute a Teoria da Associação Diferencial e de que modo 40 esse processo de associação diferencial no “mundo do crime” pode ser evidenciado através da medida de densidade de rede. 2.4.2 Dimensões da Densidade de Rede A Teoria da Associação Diferencial segue um entendimento relacional pois considera que a relação de adolescentes com contatos sociais mais íntimos é fonte de aprendizado de normativas convencionais, assim como de associação diferencial, a depender do reforço em jogo nessas relações (Sutherland, 1955). Para entender de que modo esse processo de aprendizagem ocorre, pesquisadores apreendem as estruturas das redes sociais nas quais os jovens estão envolvidos. A localização estrutural do jovem em sua rede pessoal, as características individuais de seus contatos, determinam que tipo de informações e normativas prevalecem na rede, inclinando o comportamento individual a estar mais de acordo com o comportamento que prevalece no grupo (Haynie, 2001). Conforme visto nas linhas anteriores, desde os estudos mais clássicos existem evidências robustas entre comportamento delinquente e o comportamento do grupo de amigos, investigações as quais se estendem até os dias atuais. A adolescência é uma fase da vida na qual os jovens gostam de estar junto de seus pares (Haynie, 2001; 2002; Warr, 1992; 1996). Entretanto, é difícil estabelecer uma divisão estanque entre grupos de adolescentes convencionais e grupos de adolescentes voltados à delinquência. As redes de amizades são muito heterogêneas, sendo possível jovens pertencerem a redes contendo amigos delinquentes e não delinquentes (Haynie, 2002). Ciente disso, a perspectiva de rede, além de observar a rede em uma dimensão geral, também auxilia a decompor as relações existentes dentro dela, enriquecendo a análise relacional. Isso porque as medidas podem resumir a posição estrutural de uma sub rede ou de um único vértice (Nooy et al, 2018). Frente a essa tarefa, a ARS é atenta aos detalhes estruturais das redes, sendo possível comparações entre as redes pessoais de interlocutores tendo em vista explicar o porquê diferentes trajetórias juvenis se inserem ou não no “mundo do crime”. Um exemplo são os estudos desenvolvidos através dos dados coletados pelo Add Health. Ao observar a estrutura de uma rede escolar em seu tamanho geral, a 41 diversidade de amizades que compõem os grupos de adolescentes pode ser observada. No entanto, ao decompor a rede, observa-se vários tipos de conexões, distribuições e segmentações dentro dessa rede mais geral, sobretudo um tipo de estrutura mais coesa, que mostra seções na rede com muitos laços (Nooy et al, 2018; Haynie, 2001; 2002). A medida da densidade na ARS captura esse tipo de estrutura mais coesa (Nooy et al, 2018). Quanto mais o índice de densidade se aproxima de 1, mais densa é a rede, e quanto mais se aproxima de 0, menos densa ela é (Perry et al, 2018). O alto grau de densidade em grupos de amizades revela que nesses grupos existem muitos laços, sugerindo que todos ou quase todos os jovens se conhecem. Estar localizado em uma rede densa é estar mais sujeito às pressões e restrições do grupo, pois o fato de maior parte das pessoas se conhecerem facilita a difusão de informações, sanções, obrigações e expectativas entre elas. Vale ressaltar que a densidade de rede traduz relações muito próximas, dotadas de afeição, que fornecem suportes emocionais, materiais, informacionais e de formação de identidades, que colaboram para a influência do grupo no comportamento do indivíduo (Giordano et al, 1986). Isso é válido tanto para grupos caracterizados como convencionais, bem como de associação diferencial (Haynie, 2001). Evidências mostram que adolescentes que relataram amigos delinquentes e respondem individualmente por níveis altos de delinquência, estão inseridos em redes densas de amizade delinquente (Haynie, 2001; 2002; Payne; Cornwell, 2007; Mcgloin; Shermer, 2009). Na rede delinquente densa é favorecido um contexto no qual o comportamento delinquente é aprendido, facilitado e reforçado por todos os membros, devido a conexões íntimas que já possuíam entre si e por maior parte dos membros se conhecerem (Haynie, 2002; Mccarthy & Hagan, 1995). O contrário também é verdadeiro. Quando não se tem amigos delinquentes, a densidade do grupo está atrelada à redução do envolvimento na delinquência (Haynie, 2001). Entretanto, esses estudos não demonstram o modo pelo qual as informações circulam nas redes sociais e de que modo acontece o processo de pressão do grupo quanto ao comportamento individual. Já as evidências brasileiras tem mostrado o “mundo do crime” como um contexto de sociabilidade, que, para um jovem fazer parte, precisa passar por um processo de aprendizado de técnicas, códigos de condutas e práticas sociais muito específicas desse tipo de sociabilidade (Feltran, 2009; Lyra, 2013; Malvasi, 2012). 42 Ao incorporar esses achados a uma perspectiva de rede, investigou-se o grau de densidade da rede pessoal dos participantes deste estudo, ou seja, o quão firmemente o ego e seus contatos sociais estão conectados na rede pessoal. Para obter a densidade da rede, foi preciso perguntar ao jovem que participou da pesquisa quem cada contato social conhecia ou não conhecia frente a lista de nomes declarada pelo próprio jovem participante. O intuito seria descobrir se a inserção dos jovens em uma rede densa, tem viabilizado a circulação de conteúdos convencionais ou pertencentes ao “mundo do crime” (atitudes, opiniões, crenças, habilidades, informações, conhecimento), e qual a função dos membros dentro da rede que servem de estímulos para que o comportamento individual esteja de acordo com o comportamento de grupo (reforços, suporte emocional, monitoramento, sanções, obrigações, regras). A rede densa também impulsiona a intensidade da força atribuída pelos sujeitos em relação aos seus contatos sociais, em razão da proximidade entre as pessoas que esse efeito provoca. Em especial para esta pesquisa, entende-se que, o tempo que as pessoas se conhecem (se há anos), a frequência dos encontros (se diários ou semanais) bem como se o interlocutor considera o contato social como uma relação forte ou fraca, é um fator importante para que a introjeção de códigos convencionais ou de associação diferencial sejam eficazes. Finalmente, evidências que se relacionam à Teoria do Controle Social e à Teoria da Associação Diferencial são descritas nas análises de redes sociais delinquentes de modo complementar. No entanto, o debate ainda persiste bastante controverso. O pomo da discórdia é a vinculação do comportamento do jovem com o comportamento de grupo, que coloca o seguinte paradoxo: o jovem seleciona estar com amigos parecidos com ele, em razão de sua personalidade dotada de baixo autocontrole enfraquecer seus vínculos sociais, ou o jovem é influenciado pelo grupo a agir de acordo com o comportamento do grupo? A perspectiva de rede também tem auxiliado a responder as questões propostas por esse debate, sobretudo partindo da noção de homofilia. A próxima seção se dedica a expor as principais discussões em torno desse paradoxo e qual a contribuição deste trabalho para tal debate. 43 2.4.3 Dimensões da Homofilia A homofilia é uma noção utilizada pela ARS para indicar que a similaridade entre pessoas gera conexão (Mcpherson et al, 2001). É mais provável que as pessoas prefiram se relacionar com outras de características comportamentais, sociodemográficas ou pessoais semelhantes, do que com aquelas diferentes. Na ARS a homofilia é uma métrica de conexão, sendo utilizada para identificar semelhanças e diferenças entre os nós da rede. Já que a similaridade gera conexão, é muito comum visualizar em sociogramas laços sociais estruturados a partir de características étnico- raciais, de gênero, de faixa etária, de escolaridade, de ocupação, de crenças, de gostos, de atitudes e comportamentos, dentre outros elementos, que auxiliam a identificar as preferências individuais dos membros da rede para estabelecer relacionamentos (Mcpherson et al, 2001; Nooy et al, 2018). Em relação aos grupos juvenis, e as características de seus membros, não é diferente. Acontece que extensa parte dos estudos que envolvem juventude e delinquência tem retratado que o comportamento individual está atrelado ao comportamento de grupo. Vimos que parte dessas pesquisas tem dado destaque à análise de grupos de pares, por entender que são importantes influenciadores de definições pró-criminais, em razão de conviverem boa parte do tempo juntos (Warr, 1996). Entretanto, existe um contraponto a essa perspectiva: os adolescentes são influenciados ou selecionam estar com pessoas semelhantes a eles, no que diz respeito ao comportamento delinquente? O que se supõe, portanto, é que os grupos delinquentes são formados em razão de os jovens selecionarem colegas com comportamentos parecidos, dentre os quais aqueles munidos de baixo autocontrole. Alguns pesquisadores têm sustentado que o fato de existir redes densas delinquentes é resultado do processo de rejeição sofrido por alguns jovens em relação aos grupos de pares (Mcgloin; Shermer, 2009). Jovens dotados de baixo autocontrole possuem características de impulsividade, poucas habilidades sociais, dificuldades de estabelecer planos de longo prazo e de concentração, sobretudo nas tarefas escolares (Hirschi, 2004; Mcgloin; Shermer, 2009). Em razão disso, indivíduos com baixo autocontrole têm a tendência de serem rejeitados em suas socializações diárias 44 e, consequentemente, selecionam indivíduos parecidos com eles para serem seus amigos (Mcgloin; Shermer, 2009; Hirschi, 2004). Evidências mostram que jovens com baixo autocontrole são mais propensos a ter amigos envolvidos em delinquência. Por outro lado, esses mesmos jovens costumam estar mais entre amigos em suas relações informais, sugerindo distância de figuras de autoridade e imersão em rotinas desestruturadas, tornando-se mais sujeitos a oportunidades delinquentes (Mcgloin; Shermer, 2009; Haynie & Osgood, 2005). A aprendizagem social opera de maneira complementar porque geralmente estes grupos de pares de baixo autocontrole são mais excluídos, sendo a prática do reforço um importante meio para permanecerem juntos (Mcgloin; Shermer, 2009). Contudo, através da noção de homofilia tal debate tem gerado outras problematizações, sugerindo que a tendência de delinquentes fazerem amizades com seus pares é resultado de outras preferências e condições, não sendo o autocontrole um mecanismo tão forte (Weerman, 2011). Associar o comportamento delinquente a somente traços de personalidade pode fazer com que o pesquisador cometa equívocos, pois tal foco desconsidera as forças estruturais nas quais os jovens se inserem, que os restringem de se movimentar, predeterminando em suas redes pessoais quem será o seu amigo, com quem vai se relacionar e a quais informações estará mais sujeito (Haynie, 2002). Quando efeitos estruturais são levados em conta, o comportamento delinquente passa a não ser um critério importante nas seleções de amizades (Weerman, 2011). Os laços indiretos entre os pares desempenham um efeito fundamental na escolha de amigos, fechando laços entre “amigos de amigos”. As amizades também podem ser geradas devido à proximidade em que as pessoas estão dispostas em um determinado espaço, como por exemplo, estudarem em uma mesma sala de aula (Weerman, 2011; Payne; Cornwell, 2007; Young, 2011). Esta pesquisa também contribuiu com essa discussão ao realizar uma análise que expande as redes pessoais dos jovens para além da instituição escolar, tendo em vista considerar as relações estabelecidas com contatos sociais em outros ambientes, de modo a explorarmos outros processos que predeterminam a inserção de jovens no “mundo do crime”. A junção de muitos jovens inseridos no “mundo do crime” pode não necessariamente ser em razão do baixo autocontrole; pode ser em razão da alta densidade da rede somada à intensidade dos laços ali existentes. A densidade da rede é resultado de relações sociais mais próximas cuja força dos relacionamentos 45 também depende da durabilidade (conhecer uma pessoa há muito tempo) e da frequência (encontrar essa pessoa frequentemente). Como a revisão da literatura apresenta uma relação robusta entre grupos de pares e delinquência, procurou-se, por meio de medidas de densidade, encontrar subgrupos de relações pautados por faixa etária (15-29 anos) combinados com a investigação sobre em qual esfera social essas relações entre pares acontecem, comparando os dois grupos pesquisados. Dentro dessas análises estruturais de redes sociais, é possível identificar pessoas com status que sobressaem frente às demais por manterem contato social com muitos membros da rede. Na próxima seção, será discutido de que modo as medidas de centralidade na ARS tem auxiliado na discussão sobre sociabilidades delinquentes. 2.4.4 Dimensões do Grau de Centralidade e Popularidade As medidas de centralidade em redes sociais indicam membros que possuem destaque frente aos demais, sendo possível localizá-los na rede como interligados com diversos vértices. Quanto mais laços uma pessoa mantém com outros membros na rede, mais centralidade ele tem na rede. Geralmente, para se descobrir pessoas centrais em redes sociais, o analista procura identificar quem geralmente as pessoas recorrem para obter conselhos ou outros tipos de informação. Em sociogramas essas pessoas são identificadas facilmente, em razão de um alto número de laços que as interligam com outras pessoas (Nooy et al, 2018). Assim, pessoas centrais são aquelas que mantém contatos com muitas pessoas, cuja vantagem é a de alcançarem informações facilmente, e, até mesmo, de controlá-las (Nooy et al, 2018). Um outro ponto importante a destacar é que mesmo uma pessoa não ocupando uma posição central, pode obter vantagens na recepção de algum tipo de informação importante, em razão de estar próxima de um indivíduo central (Nooy et al, 2018). Duas medidas de centralidade têm se destacado em ARS delinquentes: a medida de grau de centralidade e a medida de popularidade. A primeira medida procura identificar a centralidade de um jovem a partir do número de relacionamentos que mantém com os outros membros de sua rede de amizade. Quanto mais laços são estabelecidos com um mesmo jovem, maior a sua centralidade. Por outro lado, a medida de popularidade indica que, quando um número acentuado de jovens indica 46 sempre um mesmo jovem como amigo, significa que este tem um alto grau de popularidade dentro da rede (Haynie, 2001; Nooy et al, 2018). Vimos que os estudos desenvolvidos por Haynie (2001) na análise dos dados coletados pelo Add Health observou a estrutura de uma rede escolar em seu tamanho geral. Nesse contexto, alguns grupos foram identificados com muitos adolescentes delinquentes. Ao decompor a rede, a autora conseguiu identificar a localização de status entre os escolares, ou seja, quem eram os adolescentes em destaque que mantinham o maior número de laços com seus colegas, inclusive nas redes de amizade em que apareceram muitos delinquentes; e quem eram os mais indicados como amigos na rede geral escolar. A partir da noção de centralidade compreendeu-se de que modo informações são distribuídas dentro de uma rede social de amizade. É mais provável que um indivíduo central seja alguém confiável para o grupo, sendo propagador e receptor de informações, tanto convencionais como de associação diferencial. Seguindo essa linha, o grau de centralidade de um jovem dentro de uma rede delinquente conta bastante para aumentar o seu nível individual de delinquência (comete mais delitos), em comparação com aqueles menos centrais (Haynie, 2001). Tais jovens possuem maior status frente ao grupo, e, tendo maior frequência de contatos com os outros membros da rede, alcançam informações importantes mais facilmente, sobretudo sobre delinquência (Haynie, 2001). Já em redes de amizade não delinquentes, a centralidade dos jovens está relacionada a uma redução do envolvimento com a delinquência (Haynie, 2001). Ao observar a rede social geral da escola, alguns jovens foram identificados como populares, uma vez que são indicados frequentemente como amigos pelos demais participantes da pesquisa. Entretanto, a popularidade desempenhou um papel menor no fato de praticar delinquência. Jovens de alta popularidade estão conectados a amigos delinquentes e não delinquentes, sendo que a rede de jovens populares é grande e heterogênea. O fato de estar exposto a diferentes comportamentos, normas e valores, enfraquece a influência quanto ao comportamento delinquente (Haynie, 2001). Em outros termos, a popularidade contribui para que o indivíduo seja o tempo todo avaliado, notado, servindo como um espelho. Nesse sentido, o fato de praticar delinquência pode não ser um reforço interessante para quem é popular, a depender do peso do reforço envolvido nos grupos pelos quais os jovens circulam. 47 Para esta pesquisa em específico, foram identificados quem são os indivíduos centrais nas redes pessoais dos sujeitos, ampliando-se a análise para além da realidade escolar, sendo possível pessoas da família dos jovens também ocuparem essas posições centrais. No próximo capítulo será exposto de que modo foi realizada a coleta dos dados analisados nesta tese. 48 3. METODOLOGIA Esta pesquisa recorreu à abordagem de métodos mistos, coletando dados quantitativos e qualitativos para realizar Análise de Redes Socias (Patriarca, 2022). Os dados foram coletados através de questionários aplicados a uma amostra não aleatória de jovens, focando em atributos individuais e relacionais. O foco da coleta se deu nos seguintes grupos de variáveis: a) atributos individuais: faixa etária, região de moradia, esfera de sociabilidade e se já se envolveu em algum tipo de ato infracional; b) atributos relacionais: com quem o indivíduo se relaciona; quais aspectos possibilitam a força da rede pessoal: a frequência (pergunta-se ao ego sobre a frequência que encontra o contato social), a durabilidade (questiona-se ao ego sobre há quanto tempo conhece o contato social), e a intensidade da relação (indaga-se ao ego se ele considera a relação com o contato social forte ou fraca); a quem o indivíduo recorre quando está com problemas afetivos; quem geralmente recompensa os sujeitos diante de algum feito e quem geralmente os monitora e adverte diante de atitudes reprováveis; e c) inserção no “mundo do crime”, isto é, variável que visa descobrir a inserção ou não de egos e alters no “mundo do crime”. A análise quantitativa dos dados na Análise de Redes Sociais visa explorar as métricas das relações que ocorrem nas redes pessoais dos jovens que colaboraram com a pesquisa. Mais especificamente, buscou-se explorar e analisar as dimensões de conectividade de rede, que dependem da medida de multiplexidade de rede (um mesmo contato social frequenta mais que um dos grupos sociais declarados pelo ego); da densidade da rede (o quanto os membros se conhecem entre si); do grau de centralidade (quem é o membro que mais mantém contato com pessoas da rede); da centralidade de intermediação (quem é o membro ponte na rede responsável por intermediar informações entre os grupos sociais); e da homofilia (se existe identificação entre os jovens da rede pessoal tendo em vista a faixa etária). Já a abordagem qualitativa dos dados foi empreendida com o objetivo de acessar o modo pelo qual os participantes qualificam suas relações, partindo dos sentidos que constroem em torno de seus relacionamentos. Buscou-se explorar e analisar a percepção da força da relação que os sujeitos da pesquisa mantinham em relação aos seus contatos sociais, a partir do que consideravam como relacionamento forte; se costumam com frequência encontrar determinados contatos; e se mantém o relacionamento com as pessoas há muito tempo (mais que dois anos). Outros 49 aspectos foram também abordados, como a percepção que os sujeitos tinham em relação a quem cumpre o papel de acolhê-los em situações difíceis, ou quem cumpre o papel de recompensá-los ou adverti-los diante de alguma realização ou atitude reprovável, respectivamente. O Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE) indica que, em 2023, os jovens que passaram pelo sistema socioeducativo eram majoritariamente apreendidos por roubo e tráfico de drogas, do sexo masculino, e com faixa etária entre 15 e 17 anos de idade. Esses dados publicados pelo SINASE (2023) correspondem aos dados fornecidos pelo Centro de Socioeducação de Londrina (CENSE I) quanto às apreensões em razão de tráfico de drogas em 2023. Já em relação ao roubo, os dados locais não correspondem com os dados nacionais, visto que em Londrina houve diminuição no número de apreensões por roubo2. Na cidade de Londrina, os dados fornecidos pelo CENSE I a respeito dos jovens em cumprimento de medidas socioeducativas indicam que, em 2023, 93 jovens passaram pela instituição, sendo majoritariamente apreendidos por tráfico de drogas, do sexo masculino, moradores das periferias da cidade e com faixa etária entre 15 e 17 anos de idade. Observe o gráfico 1, 2 e 3 a seguir. Gráfico 1 – Ato infracional – Apreensões CENSE I de jovens residentes em Londrina (2023) Gráfico gerado no Excel pela autora. Dados disponibilizados pelo CENSE I Londrina. *Mandado de Busca e apreensão sem especificação do ato infracional. 2 No ano de 2023 foi registrado pelo CENSE I a apreensão de somente cinco jovens pelo ato infracional de roubo. Em comparação com uma outra pesquisa realizada pela pesquisadora na mesma instituição em 2018, houve uma diminuição considerável na apreensão de jovens em razão desse ato infracional. 46 18 7 5 4 4 2 2 2 1 1 1 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 50 Gráfico 2 – Gênero – Apreensões CENSE I Londrina (2023) Gráfico gerado no Excel pela autora. Dados disponibilizados pelo CENSE I Londrina. Gráfico 3 – Idade – Apreensões CENSE I Londrina (2023) Gráfico gerado no Excel pela autora. Dados disponibilizados pelo CENSE I Londrina. Tendo como base esse perfil, buscou-se comparar dois grupos de jovens - os inseridos e os não inseridos no “mundo do crime” - com o objetivo de explorar e analisar as redes pessoais desses dois grupos nos termos da hipótese de pesquisa. Na próxima seção serão apresentadas as características dos sujeitos da pesquisa. 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 mulheres homens 0 5 10 15 20 25 30 35 40 12 anos 13 anos 14 anos 15 anos 16 anos 17 anos 18 anos 51 3.1 OS SUJEITOS DA PESQUISA Participaram da pesquisa 25 jovens, com duração média de 1h e 30 min a 2hs para cada jovem responder ao questionário. A pesquisadora realizava as perguntas e respondia o questionário. O período dessas atividades ocorreu entre janeiro de 2023 a julho de 2024. No CENSE, contribuíram com a pesquisa 7 jovens. Na Guarda Mirim, 15 jovens. Já no CREAS, foi um total de somente 3 jovens. O quadro 1 abaixo mostra o perfil dos sujeitos da pesquisa, como a idade, a escolaridade, a região de moradia, o tempo de residência no mesmo bairro e a renda familiar. Todos são do sexo masculino. Quadro 1 - Perfil dos jovens participantes da pesquisa O intuito foi, na medida do possível, aplicar os questionários a jovens que vivem em diversas áreas da cidade. Foi possível essa diversificação, embora uma parte Características Jovens não envolvidos (n 13) Jovens envolvidos (n 12) Idade 15 anos - 2 jovens 16 anos - 1 jovem 17 anos - 10 jovens 15 anos - 3 jovens 16 anos - 4 jovens 17 anos - 5 jovens Escolaridade Todos os jovens entrevistados estavam cursando o ensino médio Ens. Fund. incompleto – 7 jovens Ens. Médio incompleto – 3 jovens Cursando Ens. Médio – 1 jovem Cursando Ens. Fund. - 1 jovem Região de Moradia Norte - 6 jovens Sul - 3 jovens Oeste - 2 jovens Leste - 2 jovens Norte - 4 jovens Sul - 2 jovens Oeste - 3 jovens Leste - 2 jovens Rural/Distrito - 1 jovem Tempo de residência no mesmo bairro 17 anos – 4 jovens 16 anos – 2 jovens 15 anos – 1 jovem 13 anos – 1 jovem 10 anos – 2 jovens 6 anos – 1 jovem 1 ano – 1 jovem 3 meses – 1 jovem 17 anos – 6 jovens 15 anos – 2 jovens 4 anos – 4 jovens Renda Familiar (média) 1 a 2 salários - 4 jovens 2 a 4 salários - 5 jovens Mais de 4 salários - 4 jovens Menos que 1 salário - 2 jovens 1 a 2 salários - 6 jovens 2 a 4 salários - 1 jovem Mais que 4 salários - 3 jovens Quadro elaborado pela própria autora 52 considerável residiam na região norte da cidade. Nota-se que ambos os grupos residem há um tempo significativo no mesmo bairro, embora os jovens envolvidos somem mais tempo de residência no mesmo bairro. Além disso, nota-se a diferença de escolaridade entre os jovens não envolvidos e envolvidos, pois os primeiros estavam cursando o ensino médio, enquanto os últimos, de modo significativo, não chegaram a concluir o ensino fundamental e médio. Somente dois jovens estavam frequentando a escola antes da apreensão. Foi observado uma diferença na renda familiar entre os dois grupos. No grupo dos jovens não envolvidos quatro jovens declararam renda familiar de 1 a 2 salários mínimos; enquanto a família de seis jovens do grupo dos envolvidos sobrevivia com essa renda; no grupo dos não envolvidos a renda declarada por cinco jovens foi de 2 a 4 salários mínimos, enquanto essa renda foi declarada por somente dois jovens envolvidos. A renda de mais de 4 salários mínimos foi declarada por 4 jovens do grupo dos não envolvidos, ao passo que no segundo grupo três jovens também declararam essa renda familiar. Por fim, a renda de menos de 1 salário mínimo apareceu somente no grupo dos jovens envolvidos, sendo declarada por dois participantes. As informações mostram que ambos os grupos enfrentam uma situação de baixa renda familiar, considerando os gastos mensais essenciais para garantir a sobrevivência básica (como alimentação, habitação, roupas, medicamentos, eletricidade, entre outros). No entanto, o grupo dos envolvidos se sobressai em relação à renda reduzida, o que resulta em desvantagens significativas para a manutenção mínima da vida. Foram geradas 25 redes pessoais, sendo as mesmas distribuídas em dois grupos: redes pessoais de jovens envolvidos e redes pessoais de jovens não envolvidos. O critério de divisão foi direcionado pelas respostas dadas no questionário sobre o fato de o participante já ter se envolvido em atividades como o roubo e/ou tráfico de drogas. Caso respondessem que sim, informaram, também, há quanto tempo que essa situação havia ocorrido, se essas atividades eram desenvolvidas em grupo e se a decisão de participação foi tomada tendo como referência um grupo. As respostas do grupo dos participantes que declararam envolvimento estão sistematizadas no quadro 2 abaixo. 53 Quadro 2 - Informações sobre a participação em roubo e tráfico de drogas - Grupo jovens envolvidos – (n 12) Quais destas atividades você já participou? Há quanto tempo isso ocorreu? Geralmente, você desempenhava estas atividades de que maneira? A decisão tomada em cometê-las foi baseada em quem? Tráfico de drogas: 10 jovens Roubo: 1 jovem Roubo e Tráfico: 1 jovem Recentemente: 9 jovens Ainda pratico: 2 jovens Há 6 meses: 1 jovem Em grupo: 8 jovens Sozinho: 4 jovens Grupo de amigos: 8 jovens Um amigo: 3 jovens Um familiar: 1 jovem Quadro elaborado pela própria autora. Nota-se que dos 12 respondentes, 11 responderam que a decisão tomada para práticas de roubo e/ou tráfico de drogas foi baseada em um amigo ou grupo de amigos. Somente um jovem respondeu que se baseou em um familiar. Conforme mencionado, dissertamos sobre o termo “envolvimento” em uma outra oportunidade de pesquisa (GUSMÃO, 2018). A partir disso, entendemos que a prática de roubo e/ou tráfico de drogas pelos jovens não pode ser observada distante da inserção e sentimento de pertencimento a um grupo, bem como da pressão social do grupo em relação ao indivíduo, por isso a pergunta sobre o desempenho das atividades e a decisão tomada em cometê-las. Na próxima seção, será apresentada de que modo foi organizada a coleta de dados por meio do questionário. 3.2 COLETA DE DADOS: ATRIBUTOS E CATEGORIAS DE ANÁLISE O questionário foi elaborado tendo como norte a pergunta de pesquisa que investiga o modo pelo qual as redes de contatos pessoais dos jovens que estão ou não envolvidos com o “mundo do crime” se diferenciam e podem auxiliar na compreensão do envolvimento ou não envolvimento com esse contexto. Parte-se da hipótese de que a participação dos jovens no “mundo do crime” requer um processo de aprendizado que está atrelado à exposição frequente dos jovens aos códigos e práticas sociais do “mundo do crime”. Nesse sentido, a força das relações em uma rede pessoal influencia tanto a integração quanto o afastamento desse contexto. A 54 força pode ser resultado de relações afetivas, proximidade etária, tempo de convivência, frequência de encontros e intensidade do relacionamento, por exemplo. Assim, o foco do questionário foi nos aspectos relacionais dos jovens participantes da pesquisa. Com referência à Teoria do Controle Social e à Teoria da Associação Diferencial, compreende-se que os laços sociais nessas redes pessoais importam para compreender a inserção ou distanciamento do “mundo do crime”. Para a Teoria do Controle Social a afeição que ocorre entre os jovens e os adultos responsáveis por eles é de fundamental importância para mantê-los distantes de atividades criminais. Por outro lado, a Teoria da Associação Diferencial discute que a intensidade dos laços, o tempo de convivência e a frequência de contatos produz intimidade entre as pessoas, que podem potencializar o envolvimento delas em associações diferenciais, de acordo com o conteúdo que circula no processo de comunicação. Se o conteúdo é mais voltado a atividades criminais, isso favorece o aprendizado dos códigos e técnicas não convencionais. Em suma, para a Teoria do Controle Social os laços fortes importam para manter os jovens distantes de atividades não convencionais: através do acolhimento, do afeto e da proteção, por exemplo; e, para a Teoria da Associação Diferencial os laços fortes entre as pessoas podem facilitar, também, a adesão à associação diferencial. Isso implica que o questionário aplicado aos jovens participantes da pesquisa continha questões voltadas para a análise posterior, abrangendo tanto os aspectos estruturais da rede quanto as experiências vivenciadas pelos jovens. Em vista disso, o questionário3 foi formulado em três partes. A primeira objetivou coletar os dados de atributos individuais do respondente (informações do ego). Essa parte focou em informações sobre a região de moradia, a idade, renda familiar, e se participa de práticas como roubo e/ou tráfico de drogas. Para compreender se essas práticas estão atreladas a atividades de grupo, indagou-se aos jovens de que maneira desempenhavam essas atividades (se sozinho ou em grupo) e se a decisão tomada em desempenhá-las foi baseada em uma pessoa, grupo ou sozinho (vide quadro 2 na seção anterior). Já na segunda parte buscou-se coletar os atributos individuais dos contatos sociais (informações dos alters) e as características relacionais da rede pessoal do 3 Parte do questionário foi inspirado no trabalho de Pires (2017), desenvolvido a partir do Grupo de Análise de Redes Sociais do Laboratório de Ecologia do Desenvolvimento (2016). 55 respondente. Em relação aos contatos sociais buscamos saber o tipo de relacionamento estabelecido com os mesmos (parente, amigo ou conhecido, amorosamente ligado e professor/educador/psicólogo de alguma instituição). Quando o jovem era indagado sobre o tipo de relacionamento, era sinalizado no questionário o ambiente social ou ambientes sociais que a pessoa mencionada pertencia/frequentava (família, escola, trabalho, vizinhança, religião, Guarda Mirim, CREAS, CENSE e outros). Essa pergunta foi importante para analisar aspectos relacionados à multiplexidade de rede e sobre a variedade de ambientes sociais presentes na rede pessoal do jovem. O objetivo foi identificar se a participação de um contato em mais de um ambiente social proporciona vantagens no que diz respeito ao monitoramento e à redução da exposição dos jovens ao “mundo do crime”. Ademais, procurou-se identificar a faixa etária dos contatos sociais, com o objetivo de, em seguida, realizar uma análise etária da rede pessoal e examinar a presença de homofilia em relação a idade para discutir a questão das relações entre pares, e o impacto dessas relações na adesão ou distanciamento do “mundo do crime”. Nesta seção do questionário, também foi questionado sobre a região de moradia do contato social, a fim de verificar se o respondente interage com indivíduos de diferentes regiões da cidade, assim como as suas interações com os vizinhos. Por último, nesta parte do questionário, indagou-se ao jovem se o contato social citado havia participado de alguma atividade relacionada ao roubo e tráfico de drogas. Essa questão foi crucial para a análise posterior da qualidade dos vínculos sociais dos respondentes com essas pessoas, caso elas fossem mencionadas na rede. Após as perguntas sobre as características individuais dos participantes, foram abordadas questões relacionadas aos aspectos mais qualitativos das interações entre os jovens e suas redes pessoais. Foi necessário a criação de categorias “a priori” para compor o questionário (Franco, 2012), inspiradas nas teorias base desta tese, uma vez que estão sendo examinados elementos discutidos pela Teoria do Controle Social e pela Teoria da Associação Diferencial. Os itens foram organizados em duas seções no questionário: a primeira seção abrange fatores relacionados à “força da rede” (aspectos relacionais que influenciam o respondente a perceber um vínculo próximo com indivíduos em quem confia); a segunda seção refere-se à “função da rede” (aspectos relacionais que contribuem para a coesão da rede, especialmente para preservar a confiança do respondente em seus vínculos sociais) (Perry, 2018). 56 Para entender a profundidade e a proximidade das conexões sociais dos jovens, por intermédio da seção denominada “força” no questionário foram incluídas três perguntas baseadas nas categorias discutidas pela Teoria da Associação Diferencial, que são a durabilidade, a frequência e a intensidade das relações. Esses elementos são essenciais para compreender como os jovens aprendem os códigos e práticas sociais convencionais ou ligados ao “mundo do crime”. Assim, para explorar essas experiências, foram feitas as seguintes indagações: há quanto tempo o jovem conhece essa pessoa (durabilidade); com que frequência ele se encontra com esse contato (frequência); e como ele classifica a força desse relacionamento (intensidade). Esses aspectos são relevantes para compreender a qualidade das conexões que os jovens desenvolvem em suas redes pessoais, bem como a influência disso na inserção ou afastamento do “mundo do crime”. O objetivo é saber, portanto, se essas relações frequentes, duradouras e intensas ocorrem com pessoas envolvidas com o “mundo do crime”. A intensidade das relações também se revela crucial para explorar as reflexões fundamentadas na Teoria do Controle Social, especialmente no que se refere à afeição/apego dos jovens com seus familiares, que se mostra significativo para o distanciamento do “mundo do crime”. Compreende-se que a função social dos relacionamentos dos participantes é fundamental para manter a proximidade, a confiança e fortalecer os vínculos. Na seção do questionário dedicada à “função”, foram propostas três categorias baseadas na Teoria do Controle Social e na Teoria da Associação Diferencial: apoio emocional, ajuda instrumental/material e monitoramento. O intuito de incluir essas categorias é para, numa análise posterior, identificar quem são as pessoas que exercem essa função na vida dos jovens e se algumas delas têm alguma conexão com o “mundo do crime”. Desse modo, a pesquisa questionou os jovens sobre quem os acolhe em momentos difíceis e de tristeza (acolhimento) e quem oferece retorno positivo e recompensas em reconhecimento a suas conquistas (recompensas), sendo tais aspectos classificados sob a categoria “apoio emocional”. Na categoria “ajuda instrumental” presente no questionário o objetivo seria verificar se o contato oferece algum apoio financeiro ou algum tipo de auxílio material, como vestuário, material escolar, produtos/mercadorias de um modo geral. A categoria “avaliação e monitoramento” buscou saber se o contato auxilia o jovem a resolver problemas ou o adverte quando tomou decisões equivocadas. 57 A terceira e última seção do questionário é composta por perguntas que exploram as conexões entre os contatos sociais do jovem dentro de sua rede pessoal. Em outros termos, coleta-se dados dos contatos sociais por meio de perguntas que permitem descobrir, por exemplo, se a pessoa A, citada como amigo pelo entrevistado, conhece a pessoa B, citada também como amigo pelo entrevistado. As relações entre os contatos foram classificadas de forma binária: “não se conhecem”, o que indica que os contatos nunca interagiram; ou “se conhecem”, que significa que eles possuem algum tipo de relação. O objetivo dessa seção é desenhar as redes pessoais dos participantes utilizando o software Pajek, o que possibilita a construção de um sociograma para cada rede pessoal. Além de facilitar a visualização das redes pessoais dos participantes da pesquisa, essas conexões entre os indivíduos permitem analisar a densidade dessas redes, ou seja, o grau de conhecimento entre os indivíduos dentro da rede, o que facilita a disseminação de informações e o monitoramento dos jovens. Também é possível identificar a formação de homofilia por faixa etária, isto é, como os jovens se relacionam com pessoas da mesma idade. Essas conexões ajudam a identificar indivíduos que ocupam posições centrais na rede pessoal, os quais estão mais conectados a outros membros ou que funcionam com intermediários entre membros/grupos sociais da rede. O intuito é descobrir quem são as pessoas centrais, se pertencem à família, à vizinhança, ao ambiente de trabalho, entre outros. Para melhor visualização do questionário, uma versão completa está disponível no anexo 1 deste trabalho. Na próxima seção serão apresentados os locais em que ocorreram a pesquisa. 3.3 OS LOCAIS DA PESQUISA Os dados foram coletados por meio de entrevistas realizadas em três instituições na cidade de Londrina: a Guarda Mirim, o Centro de Referência Especializado em Assistência Social (CREAS) e o Centro de Socioeducação de Londrina (CENSE 1). Essas instituições foram escolhidas por conveniência, pois atendem jovens que estão de acordo com o perfil de interesse deste estudo. A Guarda Mirim é uma instituição filantrópica que está ativa na cidade desde 1965. Ela tem como missão preparar jovens para a “educação profissional e formação cidadã”. Ao longo do tempo, a Guarda Mirim tem passado por uma série de mudanças 58 no atendimento de seu público alvo, sobretudo com a implementação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). A instituição oferece dois tipos de serviços para crianças e jovens de 08 a 18 anos de idade: o serviço de Aprendizagem Profissional e o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV). No primeiro tipo de serviço, são ofertados cursos de capacitação profissional, como os cursos de comércio e varejo e auxiliar administrativo. Já o segundo serviço prestado pela instituição é parte da Política de Assistência Social da cidade de Londrina. O SCFV é ofertado, sobretudo, para famílias atendidas pelos Centros de Referência em Assistência Social (CRAS), classificados como de atenção social básica; e Centros de Referência Especializado em Assistência Social (CREAS), classificados como de atenção de média e alta complexidade. Os CRAS são direcionados às famílias que ainda mantém vínculos fortalecidos com familiares e/ou comunidade. Porém, tais vínculos correm o risco de se fragilizarem devido a situações de desemprego, problemas de saúde, violência doméstica, dentre outros. Por outro lado, os CREAS são direcionados a pessoas que já estão com os vínculos sociais fragilizados e com seus direitos ameaçados. O SCFV entende que as crianças e adolescentes que convivem nesses contextos necessitam de referências para manter os seus laços fortalecidos com as famílias e comunidades. Várias instituições na cidade prestam esse serviço de fortalecimento de vínculos, em parceria com a Secretaria de Assistência Social do Município de Londrina. Dentro desse contexto, a Guarda Mirim cumpre esse papel, desenvolvendo, no contraturno escolar, oficinas para crianças e adolescentes atendidos pela Política de Assistência Social da cidade com o intuito de promover o convívio social e formação cidadã. Também entrevistamos jovens que frequentavam a educação profissionalizante e já alocados no mercado de trabalho. A Guarda Mirim possui várias parcerias com empresas na cidade, tendo em vista encaminhar às empresas os jovens na condição de aprendizes. Na instituição, há uma parcela de jovens que frequenta os grupos de “aprendizagem” cuja educação é voltada para o mercado de trabalho, ou seja, as temáticas estão voltadas às maneiras de se comportar em uma entrevista de emprego, ao auxílio para reconhecer habilidades e competências individuais e, durante este percurso, ocorrem os encaminhamentos para realização de entrevistas de emprego em algumas empresas. Caso consiga uma vaga, o jovem passa a frequentar os cursos de apoio ao mercado de trabalho. Se conseguir um 59 emprego no setor de serviços, o jovem é encaminhado ao curso ligado à área comercial; e se o emprego for na área administrativa, o jovem passa a frequentar o curso na área administrativa. Em suma, mesmo conseguindo o emprego, o jovem precisa frequentar a Guarda Mirim pelo menos duas vezes por semana, em média, em horário de trabalho, para participar desses cursos ligados ao seu setor de trabalho. Entrevistamos 15 jovens nessa instituição no período da pesquisa. Quanto ao CREAS, trata-se de uma instituição pública administrada pela Prefeitura Municipal de Londrina, como parte do Sistema Único de Assistência Social. Atende pessoas em situação de média e alta complexidade, que estão com seus vínculos sociais e familiares fragilizados. Um dos papeis executados pelo CREAS é o desenvolvimento da medida socioeducativa aplicada pelo juiz aos adolescentes em situação de conflito com a lei. Desenvolve essas medidas em meio aberto por intermédio de acompanhamentos psicossociais e prestação de serviços comunitários. Entrevistamos três jovens que estavam frequentando esta instituição no período da pesquisa. Por fim, o Centro de Socioeducação de Londrina (CENSE I) é uma instituição em meio fechado administrada pelo Estado do Paraná, sendo a porta de entrada para os jovens que cometeram atos infracionais. Em outros termos, após ser apreendido, o jovem é encaminhado ao CENSE I para aguardar a decisão da justiça quanto ao tipo e tempo de cumprimento da medida socioeducativa. Nesta instituição, seis jovens foram entrevistados para esta pesquisa. A princípio, a pesquisa se concentraria somente na Guarda Mirim, mas foi necessário estendê-la para o CREAS e o CENSE I, com o objetivo de obtermos uma amostra mais ampla e variada de jovens em medida socioeducativa, já que a Guarda Mirim atendia um número pequeno de jovens sob essa condição. Na verdade, no período da pesquisa não haviam jovens na condição de cumprimento de medida socioeducativa frequentando a Guarda Mirim. Dentre os 15 participantes desse local que colaboraram com a pesquisa, dois jovens relataram experiências com a prática de roubo e tráfico de drogas, mas nunca haviam sido apreendidos. Em síntese, os grupos foram divididos da seguinte maneira: 60 • Grupo 01 (envolvidos com o “mundo do crime”, n = 12): com o apoio da equipe técnica4 do CREAS e CENSE I, foram selecionados 10 jovens que cumpriam medidas socioeducativas em razão das práticas de roubo e/ou tráfico de drogas, com faixa etária de 15-17 anos de idade, do sexo masculino e moradores de diferentes locais da cidade Londrina. Além destes, integraram esse grupo outros dois jovens entrevistados na Guarda Mirim que relataram experiências com roubo e tráfico de drogas. Todos os 12 jovens aceitaram participar do estudo e os responsáveis assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. • Grupo 02 (não envolvidos com o “mundo do crime”, n = 13): jovens que nunca cumpriram medidas socioeducativas, mas que frequentam os cursos profissionalizantes na Guarda Mirim, com faixa etária de 15-17 anos de idade, do sexo masculino e moradores de diferentes regiões da cidade. Colaboraram para este grupo 13 jovens que concordaram participar da pesquisa e cujos responsáveis assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Como indicado anteriormente, 02 jovens entrevistados na Guarda Mirim relataram experiências com roubo e tráfico e foram realocados para o grupo 1. 3.4 ENTRAVES E A ÉTICA NA PESQUISA O projeto de pesquisa passou por avaliação no Comitê de Ética da Universidade Estadual de Londrina por três vezes. Foi necessário realizar emendas no projeto de pesquisa, pois a pesquisadora precisou estender o estudo para mais duas instituições para além daquela prevista no projeto de pesquisa inicial. Além do Comitê de Ética, para desenvolver a pesquisa com os internos do CENSE I, o projeto passou duas vezes pela análise técnica da Secretaria de Justiça do Paraná, sendo moroso o processo de análise da documentação, situação que atrasou o cronograma da pesquisa. Além disso, a juíza da Vara da Infância e Juventude de Londrina precisou também autorizar a realização da pesquisa no CENSE I, mas nesse caso houve retorno rápido da documentação. Quanto ao CREAS, pedimos a autorização para a Secretária de Assistência Social de Londrina. Obtivemos um retorno rápido da 4 A equipe técnica ficou encarregada de selecionar os jovens que estavam de acordo com o perfil da pesquisa. Tive um pouco de dificuldade de acessar um número maior de jovens em razão de o CENSE I estar com mais jovens que residem fora de Londrina do que com jovens que residem na própria cidade. 61 documentação. Para realizar a pesquisa na Guarda Mirim, foi necessária a autorização do diretor da unidade. Em todas as instituições, a equipe técnica foi bastante prestativa, auxiliando na seleção dos jovens para responder ao questionário. No CENSE I e CREAS, conforme eram apreendidos jovens que contemplavam o perfil da pesquisa, a equipe técnica entrava em contato com a pesquisadora para ir à unidade. Era a equipe técnica quem repassava os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido para que os responsáveis assinassem. A aplicação do questionário de coleta de dados só ocorreu depois que os termos foram assinados. Na Guarda Mirim, a equipe técnica disponibilizou uma listagem com o nome e idade de todos os jovens que frequentavam a instituição. Todos os dias a pesquisadora ia até o local, entrava nas salas de aula e chamava os alunos com o perfil da pesquisa para conversar. Caso aceitassem participar, enviava o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido aos responsáveis para assinar e somente depois disso a aplicação do questionário era realizada. Os jovens da Guarda Mirim foram os mais receosos em participar da pesquisa. Muitos não aceitavam participar. Na medida em que um aceitou participar da pesquisa, outros foram confiando e aceitando também contribuir. Os jovens do CENSE I e CREAS foram mais receptivos com a pesquisa, demonstrando menos desconfiança. Para que os sujeitos se sentissem à vontade, todas as instituições disponibilizaram salas para que as entrevistas ocorressem sem interferências. Não foi possível o preenchimento anônimo do questionário, uma vez que, para a Análise de Redes Sociais ter êxito, é necessária a identificação das pessoas que compõem as redes e suas características. Para o entrevistado se sentir mais à vontade, criou-se um codinome na ficha de respostas. Quanto às pessoas que compõem a sua rede social, para manter em sigilo a identidade delas, o entrevistado indicou somente a inicial dos nomes destas pessoas. Com esse procedimento, evitou-se o risco de o entrevistado esquecer quem é quem no momento de identificar os atributos individuais e relacionais das pessoas indicadas. Os dados coletados por meio dos procedimentos descritos neste capítulo serão apresentados e analisados no próximo capítulo. 62 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os capítulos 4 e 5 apresentam e discutem os resultados da pesquisa. Como norte, temos como objetivo geral investigar o modo pelo qual os contatos pessoais dos jovens influenciam os mesmos a se aproximarem ou se distanciarem do “mundo do crime”. Este capítulo explora os elementos quantitativos da análise de redes sociais, como o tamanho das redes pessoais, o número de ambientes sociais citados, as medidas de densidade e as medidas de centralidade da rede. Também interpretamos alguns aspectos dessas propriedades das redes pessoais. Já o capítulo 5 analisa qualitativamente dados sobre a força e a função das redes pessoais. Entende-se que somente a análise quantitativa das conexões das redes pessoais subestimaria a qualidade dessas relações. Assim, a análise quantitativa da rede pessoal será complementada com uma análise qualitativa que toma como parâmetro o que tem sido feito pela literatura internacional voltada a análise de redes sociais e delinquência. Assim, na próxima seção apresenta-se o tamanho e conectividade de rede dos jovens pesquisados. 4.1 TAMANHO E CONECTIVIDADE DE REDE DOS JOVENS PESQUISADOS Quanto aos grupos analisados observou-se uma diferença no tamanho das redes pessoais dentro dos dois grupos, bem como a conectividade de seus membros. Os sujeitos poderiam citar até 30 pessoas com as quais mantiveram contato nos últimos 6 meses. Foram declaradas redes com 30 pessoas, mas, além dessas, foram declaradas redes pequenas de 5 pessoas. Essa discrepância aconteceu nos dois grupos. Ao considerar a variabilidade das redes pessoais, selecionamos algumas com o intuito de serem as mais representativas possíveis das características relatadas pelos participantes. As redes foram organizadas em 3 tamanhos: redes pequenas (de 5 a 10 contatos); redes médias (de 11 a 20 contatos); e redes grandes (21 a 30 contatos). O software Pajek, que é específico para a Análise de Redes Sociais, foi utilizado para calcular as medidas de conectividade de rede, como a densidade e a centralidade, que explicaremos ao longo desta seção. A medida de densidade de rede leva em consideração o número de laços existente entre todos os membros em uma 63 rede social, comparando com a probabilidade máxima possível de laços (Perry et al, 2018). Quanto mais próximo o valor de densidade for de 1, mais densa é a rede, mais conexões existem entre os membros; quanto mais próxima de 0, menos densa a rede é. As redes menos densas encontradas foram as de valor 0,24, presentes tanto no grupo dos envolvidos como no grupo dos não envolvidos. A rede de maior densidade encontrada foi de 0,8, pertencente ao grupo dos envolvidos. Para organizar a análise das redes pessoais, foram estabelecidos critérios para classificar as redes como de baixa ou alta densidade, com base na média dos valores de densidade das 25 redes pessoais. O boxplot (gráfico 4) a seguir ilustra a dispersão e os valores centrais da distribuição de dados relacionados à densidade das redes. A caixa evidencia que a maioria das redes estão concentradas em torno dos valores de 0,3 a 0,5 de densidade. O gráfico revela que a mediana está em torno de 0,4, indicando que a metade das redes analisadas apresenta densidade acima ou abaixo desse valor. O ponto localizado em cerca de 0,8 indica que esta rede difere do padrão em comparação com as demais, apresentando uma densidade consideravelmente superior. O gráfico 4 a seguir conta com essas informações. Com base no gráfico, o valor 0,4 representado pela mediana foi utilizado como ponto de corte para categorizar a densidade das redes, sendo uma medida robusta por não ser afetada por valores atípicos (a rede de densidade 0,8). Esse valor reflete o ponto central para dividir as redes analisadas em dois grupos: aquelas de menor densidade (abaixo de 0,4) e aquelas de maior densidade (acima de 0,4). Gráfico 4 – Mediana da densidade de todas as redes pessoais Gráfico gerado no Excel pela autora. 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 64 Além da densidade, outros cálculos de conectividade de rede foram necessários, como a centralidade de grau e a centralidade de intermediação. A centralidade de grau calcula com quantas pessoas um membro da rede pessoal tem contato direto, ou seja, quanto mais pessoas o contato pessoal conhece, mais central ele é, e mais informações ele obtém e transmite. O objetivo é saber quem ocupa essa centralidade nas redes pessoais, observando o tipo de relacionamento e o espaço de sociabilidade que essa pessoa central ocupa, verificando se essa mesma pessoa teve ou mantém experiências com o “mundo do crime”. Se seguirmos os resultados já discutidos pela literatura sobre análise de redes sociais e delinquência (Haynie, 2001), um indivíduo central e envolvido pode servir de influência ao jovem entrevistado, caso o mesmo tenha se envolvido nesse universo. O que se espera nesta pesquisa é que as redes dos jovens envolvidos com o “mundo do crime” sigam essa linha enfatizada pelas pesquisas até então, sendo os amigos envolvidos figuras centrais em suas redes pessoais. Já os jovens não envolvidos, espera-se encontrar também amigos como centralidade, mas que seguem atividades convencionais. Acrescenta-se ao cálculo da centralidade o cálculo de intermediação, cujo objetivo é encontrar quem é o contato pessoal que tem a função de ponte, que facilita a comunicação entre os membros da rede. O contato intermediário central é aquele que representa um caminho mais curto para enviar ou receber informações entre os membros da rede. Quanto mais o membro da rede seja central para encurtar caminhos, mais próximo do valor 1 é a intermediação; quanto mais distante o contato social está dessa condição de centralidade, o valor aproxima-se de 0, não existindo intermediação. Isso significa que a posição de intermediário é importante, em razão de o mesmo ter acesso a muitas informações que circulam na rede na medida que essas informações circulam por ele mais facilmente. Espera-se que a centralidade de intermediação seja ocupada por alguma pessoa da família, ou grupo de amigos, por exemplo, observando se essa pessoa é envolvida, ou não, com o “mundo do crime”. Para os jovens envolvidos com o “mundo do crime” espera-se que a intermediação seja ocupada por algum amigo também envolvido; já para os jovens não envolvidos, espera-se que essa posição seja ocupada por uma diversidade de membros da rede, mas ligados às atividades convencionais. As medidas de centralidade e de densidade são relevantes para verificar as chances que um jovem tem de manter contato com informações convencionais ou não. Quanto mais densa uma rede é, mais redundantes se tornam as informações. 65 Uma rede em que o jovem permanece em contato frequente com pessoas inseridas no “mundo do crime”, o mantém em contato com os conteúdos específicos desse universo. As medidas de centralidade podem auxiliar a refletir sobre o poder da influência de grupos sociais dentro da rede e qual o papel da família e do grupo de amigos nesse contexto. Nesse sentido, é válido analisar sobre o que pesa mais nas dinâmicas sociais diárias dos jovens participantes da pesquisa para que os conteúdos sejam internalizados. Com base nas informações descritas no quadro 3 sobre o tamanho, densidade da rede e centralidade, aquelas que estão com a tarja em branco são as redes pessoais selecionadas que usaremos como exemplo ao longo do trabalho. A seleção foi direcionada de seguinte forma: das redes consideradas pequenas, qual é a de maior e a de menor densidade? Das redes consideradas médias, qual é a de menor e a de maior densidade? Das redes consideradas grandes, qual é a de menor e maior densidade? Essa verificação ocorreu em todas as 25 redes pessoais geradas. Foram desconsideradas as redes que suas estruturas se parecerem com as redes utilizadas como exemplo. No quadro 3 a seguir, há um resumo das características dessas 25 redes pessoais. De acordo com o quadro, as redes selecionadas possuem as seguintes características: • Não envolvidos: a menor rede do grupo com alta densidade (0.66); uma rede média com alta densidade (0.54); duas redes grandes com baixa densidade (0.24 e 0.26, respectivamente); duas redes grandes com alta densidade (as duas com valores de 0.41). Optou-se pela seleção de duas redes grandes com densidades e tamanhos parecidos dentro de um mesmo grupo de modo a esgotar o máximo possível quanto a variabilidade ou semelhanças entre as mesmas. • Envolvidos: uma rede pequena com alta densidade (0.4); uma rede média com alta densidade (0.53); duas redes grandes com alta densidade (0.80 e 0,43); e uma rede grande com baixa densidade (0.24). Ao selecionar essas redes foi possível compará-las com as redes pessoais dos jovens não envolvidos, uma vez que possuem características parecidas quanto ao tamanho e densidade da rede. Por exemplo, a rede pequena de densidade alta deste grupo foi comparada com uma rede pequena de densidade alta do outro grupo e assim sucessivamente. 66 Quadro 3 - Tamanho da rede, densidade e centralidade da rede pessoal – por participante SUJEITOS TAMANHO DA REDE DENSIDADE DA REDE QUEM SÃO AS PESSOAS CENTRAIS NA REDE? GRUPO 0 NÃO ENVOLVIDO / GRUPO 1 ENVOLVIDO 1 GBN 30 (grande) 0,26 NAMORADA / AMIGO / IRMÃ 0 2 ABC 10 (pequena) 0,66 AMIGO / MÃE 0 3 THG 30 (grande) 0,41 TIO / TIA / MÃE 0 4 JBV 30 (grande) 0,3 MÃE / PAI 0 5 DG 24 (grande) 0,31 AMIGO / IRMÃO 0 6 DSA 30 (grande) 0,36 AMIGA / CONHECIDA 0 7 GGR 20 (grande) 0,36 MÃE / NAMORADA 0 8 LK 16 (média) 0,54 NAMORADA / TIA / AVÔ 0 9 JWE 30 (grande) 0,24 IRMÃ / MÃE / AMIGO 0 10 LBI 30 (grande) 0,31 MÃE / AMIGO 0 11 PUJ 19 (média) 0,43 MÃE / IRMÃ / PRIMA 0 12 RFS 19 (média) 0,41 PAI / MÃE / IRMÃO 0 13 DES 29 (grande) 0,28 NAMORADA / AMIGO / MÃE 0 14 MC 9 (pequena) 0,41 AMIGO / MÃE 1 15 DC 24 (grande) 0,80 MÃE / IRMÃO 1 16 KL 24 (grande) 0,43 IRMÃO / MÃE / AMIGO 1 17 CF 23 (grande) 0,47 AMIGO / AMIGO / AMIGO 1 18 PP 11 (média) 0,48 MÃE / PAI 1 19 PR 13 (média) 0,3 AMIGO / AMIGO 1 20 NR 5 (pequena) 0,4 NÃO HÁ NÚMERO RELEVANTE 1 21 LC 19 (média) 0,53 MÃE / ESPOSA / PRIMO 1 22 FR 11 (média) 0,47 NÃO HÁ NÚMERO RELEVANTE 1 23 TH 13 (média) 0,48 NÃO HÁ NÚMERO RELEVANTE 1 24 NB 6 (pequena) 0,4 NÃO HÁ NÚMERO RELEVANTE 1 25 SR 25 (grande) 0,24 AMIGO / AMIGO 1 Quadro elaborado pela própria autora. 67 No grupo dos não envolvidos foram declaradas mais vezes redes grandes do que no grupo dos envolvidos. As medidas de densidade de rede variaram internamente nos dois grupos, mas no grupo dos envolvidos contabilizou-se mais redes densas em comparação com o grupo dos não envolvidos. Para facilitar a observação da comparação entre os grupos, com referência às 25 redes pessoais, calculou-se a média do número de pessoas declaradas pelos participantes (NTOTALredepessoal). Além disso, calculou-se a média da densidade geral dessas redes pessoais declaradas (DENSIDADErede); e a média do número de pessoas declaradas pelos participantes, como contatos pessoais que tiveram experiências com roubo e tráfico de drogas (NpessoasENVrede). Veja a tabela 1 abaixo com a sistematização desses dados. A tabela 1 mostra que, no grupo dos não envolvidos, a média do tamanho da rede é de 25 pessoas declaradas, ao passo que no grupo dos envolvidos a média é de 15 pessoas. O desvio padrão do último grupo é acentuado em razão de redes pequenas terem sido declaradas com 5 pessoas, bem como redes grandes com 25 pessoas no total. Nas redes dos jovens não envolvidos ocorreu a mesma situação, mas em menor proporção no que diz respeito a essas diferenças. Tabela 1 - Média de número de pessoas declaradas e densidade geral da rede pessoal Envolvimento Média Desvio padrão Não envolvidos NTOTALredepessoal 25,2308 6,82097 DENSIDADErede 0,3746 0,11865 NpessoasENVrede 0,0769 0,27735 Envolvidos NTOTALredepessoal 15,2500 7,37471 DENSIDADErede 0,4566 0,13423 NpessoasENVrede 5,58 3,82476 Tabela elaborada pela própria autora Nota-se uma diferença sobre a média de densidade de rede entre os dois grupos. Embora a rede dos jovens envolvidos apresente a média de densidade de valor 0,45, a rede dos não envolvidos possui um valor de 0,37, mostrando ser menos densa que a do primeiro grupo. Em suma, uma densidade de 0,45 significa que 45% de pessoas presentes em uma rede se conhecem, e 0,37, significa que 37% das pessoas estão conectadas entre si frente aos 100% de membros declarados. Optou- se em medir a densidade das redes pessoais dos respondentes para verificar se as 68 relações muito próximas entre os membros da rede facilitam o suporte emocional, material e informacional aos jovens, bem como, se o fato de estar mais atrelado às pressões e restrições do grupo facilita, ou não, a inserção dos jovens no “mundo do crime”, de modo a contribuir com o que vem sendo discutido pela literatura internacional (Haynie, 2001). A presença de pessoas envolvidas com o “mundo do crime” em redes pessoais densas é um indicativo de maior exposição dos jovens ao conteúdo do “mundo do crime”, impossibilitando a esses jovens o contato com a novidade. Um outro ponto a destacar é que a densidade alta nas redes dos jovens envolvidos demonstra pouco acesso a diferentes ambientes sociais, conforme demonstraremos nas próximas seções. É praticamente nulo o número de pessoas envolvidas entre os contatos pessoais dos jovens não envolvidos. Já no grupo dos jovens envolvidos há, em média, seis pessoas envolvidas entre os seus contatos pessoais. Considerando a média de 15 pessoas declaradas nas redes desse grupo, trata-se de um dado expressivo, pois sinaliza que seis delas estão inseridas em atividades não convencionais, aumentando a possibilidade de exposição dos jovens aos códigos e práticas sociais do “mundo do crime”. Quanto maior a rede nesse grupo, mais pessoas envolvidas estão inseridas. Quanto ao grupo dos não envolvidos, somente dois participantes declararam em suas redes pessoais membros que já foram envolvidos na prática de tráfico de drogas. No caso, são familiares dos jovens. Das redes selecionadas a partir do quadro 3 exposto acima, apresentaremos na próxima seção (4.3) de que modo ocorre a variabilidade interna dos grupos; e as diferenças entre as redes pessoais dos jovens pertencentes aos dois grupos em discussão. Dessa maneira, considera-se as características da rede, como número de pessoas declaradas e o modo pelo qual os membros estão alocados nas esferas sociais. Somando-se a isso, são verificadas também as características de conectividade da rede pessoal, como a multiplexidade de rede, a densidade, o grau de centralidade e centralidade de intermediação das redes pessoais mencionadas. 4.2 O RETRATO DAS REDES PESSOAIS DOS JOVENS PARTICIPANTES DA PESQUISA Buscando cumprir com o objetivo específico de explorar as características relacionais das redes pessoais dos jovens que contribuíram com a pesquisa, com o 69 auxílio do software Pajek (versão 3.1), foram elaborados sociogramas para retratar essas redes, apresentando o tipo de relacionamento com seus contatos e o ambiente de sociabilidade em que pertencem (família, escola, trabalho, vizinhança, instituição religiosa, etc.). Além disso, demarcamos com a cor cinza as pessoas presentes na rede que tiveram ou mantêm experiências com o “mundo do crime”. Cada vértice na rede pessoal está representado como um contato social do sujeito, acompanhado da identificação e o tipo de relacionamento que mantém com essa pessoa: tipo de parentesco (se pai, mãe, irmão, etc.), se amigo ou conhecido, se namorada, se algum profissional de alguma instituição que o jovem frequenta, como a escola, Guarda Mirim, CREAS, trabalho, igreja, etc. Para acessar situações de multiplexidade de rede, ou seja, verificar quando um indivíduo participa de mais de uma sociabilidade na rede, sinalizamos os vértices com os números representativos das sociabilidades em que o indivíduo participa. Para facilitar a compreensão destas representações, uma legenda foi anexada ao sociograma. As hipóteses de pesquisa que serão testadas nesta seção serão: a hipótese da multiplexidade, a hipótese da densidade e a hipótese da centralidade de rede. 1) No que tange à multiplexidade, espera-se observar uma maior multiplexidade nas redes dos jovens não envolvidos, especialmente em relação às figuras de autoridade associadas às instituições convencionais (familiares, por exemplo). Essa peculiaridade pode influenciar a ausência de envolvimento com o “mundo do crime”, em contraste com os jovens que estão envolvidos e não possuem esse tipo de supervisão nas suas redes. 2) Sobre a densidade das redes, antecipa-se que haja uma quantidade considerável de membros que se conhecem nas redes pessoais. O fato de as pessoas se conhecerem entre si fortalece as conexões e facilita a troca de informações. Contudo, as redes densas que incluem indivíduos ligados ao “mundo do crime” tendem a expor mais os jovens ao conteúdo desse universo contribuindo para o envolvimento. 3) No que se refere à centralidade, espera-se que os amigos desempenhem um papel central em ambas as categorias de grupos estudados. No entanto, nas conexões pessoais dos jovens associados ao "mundo do crime", é possível que os amigos mais influentes também estejam vinculados a esse ambiente, o que pode facilitar a influência nas redes pessoais e o envolvimento pessoal. Além disso, possivelmente os amigos centrais que atuam como intermediários nessas redes — ou seja, aqueles que conectam os membros e desempenham um papel crucial na 70 disseminação de informações —, nas redes sociais dos jovens envolvidos, essa intermediação é feita por um amigo que está associado ao "mundo do crime". Nas próximas seções, será apresentado e analisado as características das redes pessoais dos jovens envolvidos e não envolvidos com o “mundo do crime”. 4.2.1 Redes Pessoais Pequenas com Alta Densidade Os sociogramas elaborados no software Pajek permitem observar e analisar situações que aproximam ou que diferenciam a dinâmica das relações sociais entre os jovens. A seguir, os sociogramas 1 e 2 mostram situações de redes pequenas vivenciadas nos grupos. A menor rede representada pelo grupo dos não envolvidos foi a rede de 10 pessoas; e a menor dos envolvidos foi a rede de cinco pessoas. As duas possuem densidade alta, sendo que a do grupo dos não envolvidos a rede é mais densa, pois mostra maior conectividade entre grupos sociais. Constata-se que a semelhança entre as redes pessoais dos jovens está atrelada aos ambientes sociais como a família e vizinhança. A diferença está na conectividade da rede. Na rede pessoal do jovem envolvido (sociograma 2) as pessoas pertencentes à família não conhecem os amigos com os quais ele se relaciona na vizinhança, e que o acompanha nos momentos de lazer. O relacionamento estabelecido entre os amigos sugere um “clique”, conceito utilizado na Análise de Redes Sociais para estudar subgrupos dentro das redes sociais, que geralmente são movidos por relacionamentos sociais intensos, densamente conectados, equivalendo a um relacionamento de 100% entre todos os membros neste subgrupo. Por isso o clique possui um formato fechado (de triângulo), que facilita a redundância de informações, mantendo-as restritas somente naquele grupo, sendo inacessível à família, nesse caso. Um outro ponto a destacar é que os três amigos declarados pelo jovem estão inseridos no “mundo do crime”, impossibilitando ao entrevistado e aos próprios jovens acesso à novidade, mantendo as informações relacionadas às atividades do “mundo do crime” repetitivas, como parte de suas rotinas. Tanto é que o entrevistado não apresentou mais nenhum tipo de espaço de socialização para além de sua vizinhança. Observe essas características representadas nos sociogramas 1 e 2 abaixo. 71 Sociograma 1 - Jovem ABC – Rede pequena 10 pessoas – Densidade alta 0,66 – Não envolvido Sociograma 2 - Jovem NR - Rede pequena 5 pessoas – Densidade alta 0,4 – Envolvido Legenda ambiente de sociabilidade: Nº1: Família (4/10) Nº2: Vizinhança (3/10) Nº10: Moradora de outra região da cidade (1/10) Nº27: Vizinhança e Guarda Mirim (2/10) Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda ambiente de sociabilidade: Nº1: Família (2/5) Nº25: Vizinhança e lazer (3/5) Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas 72 Já na rede pessoal do jovem não envolvido é diferente (sociograma 1). Das dez pessoas declaradas, a mãe do participante conhece 08 pessoas, e seu amigo (J) conhece 09 dessas pessoas, consistindo em pessoas centrais na rede, o que indica referências positivas para o sujeito. Os outros membros da família também se relacionam com os amigos do bairro, e alguns amigos do bairro também frequentam a mesma instituição de contraturno escolar que o sujeito, sugerindo um tipo de multiplexidade de rede, condição que facilita o monitoramento da família quanto aos relacionamentos estabelecidos pelo filho em sua rotina diária. As características destas duas primeiras redes pessoais mostram-se coerentes com as predições da Teoria do Controle Social (Hirschi, 2004; Krohn et al, 1988): o sociograma 1 mostra a participação conjunta de colegas do bairro na instituição de contraturno escolar, sendo que o contraturno escolar pode envolver os jovens em atividades distantes de experiências no “mundo do crime”; a proximidade da família com os amigos permite maior monitoramento da mesma e indica laços fortalecidos entre o jovem e sua família, gerando relação de confiança. Esse conjunto de elementos que destaca a Teoria do Controle Social facilita o distanciamento do jovem do “mundo do crime”. Ao contrário do que ocorre no sociograma 2, pois o desconhecimento da família sobre a rotina do jovem é dado em razão da inexistência de vínculos entre a própria família e o grupo de amigos. Dessa maneira, a família não consegue monitorar por onde o mesmo desfruta de lazer e entretenimento e a respeito de suas atitudes na companhia dos pares. Por fim, mesmo em idade escolar, o jovem não declarou qualquer relação com a instituição escolar, o que supõe problemas de evasão escolar, pouco planejamento quanto à sua rotina diária consoante com baixas expectativas em relação à escola. Entretanto, verificou-se que essa dinâmica de participação da família entre os relacionamentos dos filhos como um fator de distanciamento do “mundo do crime” não é um padrão para diferenciar os grupos, conforme os casos que serão apresentados na próxima seção. 4.2.2 Redes Pessoais Médias com Alta Densidade Dois sociogramas de redes pessoais médias e com alta densidade serão apresentados. As redes médias com baixa densidade não serão apresentadas neste estudo, pois não foram localizadas redes pessoais com essas características. 73 O sociograma 3 reconstrói uma rede pessoal declarada por um jovem não envolvido cuja densidade é de 0,54. Já o sociograma 4 indica uma rede pessoal declarada por um jovem envolvido, com densidade de 0,53, ou seja, tratam-se de tamanhos de redes e de densidades próximos. Isso significa que, em média, 50% das pessoas presentes nessas redes estão conectadas entre si. O que diferencia essas duas redes pessoais é a dinâmica das relações, que impacta no envolvimento pessoal do jovem com o “mundo do crime” (sociograma 4) ou não (sociograma 3). A família aparece como um ambiente social bastante denso e presente nas duas redes pessoais. O que diferencia as duas redes é que no sociograma 3 (jovem não envolvido) a rede representada é mais diversa quanto aos ambientes sociais, sobretudo os contatos sociais da escola que estão bastante presentes na rotina do jovem, enquanto no sociograma 4 (jovem envolvido), a escola não aparece como um ambiente social, sendo mais presentes os contatos sociais da vizinhança e os estabelecidos na instituição CENSE. Os sociogramas 3 e 4 abaixo mostram a distribuição dos contatos sociais, de acordo com o ambiente social; e mostra também os contatos sociais que possuem envolvimento com atividade de roubo e tráfico de drogas demarcados na cor cinza (sociograma 4). Sociograma 3 - Jovem LK – Rede média16 pessoas – Densidade 0,54 – Não envolvido Legenda ambiente de sociabilidade: Nº1: Família (7/16) Nº6: Escola (6/16) Nº7: Guarda Mirim (1/16) Nº14: Família e religião (1/16) Nº 256: Vizinhança, escola e lazer (1/16) Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas 74 Sociograma 4 – Jovem LC – Rede média 19 pessoas – Densidade 0,53 - Envolvido No sociograma 3 (jovem não envolvido), uma das pessoas centrais da rede é a namorada do participante, que conhece 15 das 16 pessoas declaradas, seguida da tia, que conhece 13 pessoas, e da avó, que conhece 12 pessoas, o que indica terem bastante conhecimento sobre os relacionamentos do sujeito em questão. Observa-se que a namorada do jovem está atrelada a três espaços de sociabilidade que o mesmo frequenta, como a vizinhança, a escola e sendo companheira para atividades de lazer. Tendo como referência essa caraterística, descobriu-se que a namorada é a única pessoa da rede que é uma centralidade de intermediação, ou seja, ela é fundamental para a conectividade da rede pessoal. A conciliação entre os três espaços de socialização contribui para que a mesma sirva de ponte de comunicação entre os outros contatos da rede. Nesse caso em específico, o valor de intermediação ocupado pela namorada é de 0.27, representando o caminho mais curto da rede entre todos os contatos sociais da rede, o que sugere que ela tem influência significativa na dinâmica social do jovem: ela sabe os lugares frequentados por ele no dia-a-dia, com quem ele conversa e sobre o que conversa, sabe de que modo é possível acessá-lo, etc. Nesse caso, é a namorada que ocupa uma posição multiplex na rede e não a família, embora a família também demonstre ter conhecimento sobre a rotina diária do jovem. Ou seja, Legenda ambiente de sociabilidade: Nº1: Família (11/19) Nº2: Vizinhança (4/19) Nº25: Vizinhança e lazer (1/19) Nº9: CENSE (3/19) Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas 75 contrariando a hipótese da multiplexidade, não é somente a família que cumpre esse papel. Até aqui consegue-se captar o monitoramento do jovem não envolvido pela família e pela namorada. Redes altamente densas proporcionam esse tipo de comportamento entre as pessoas, levando à pressão e controle social, o que está de acordo com a Teoria do Controle Social. Contudo, essa pressão e controle social ocorre, também, em razão dos conteúdos circulantes nessa rede estarem mais relacionados aos códigos e práticas convencionais, o que se aproxima dos achados de Haynie (2001) quando testa a Teoria da Associação Diferencial/Aprendizagem social na dinâmica de escolares. Por isso, mesmo a rede pessoal do jovem não envolvido sendo de densidade alta e isso ser uma característica para que informações não sejam renovadas - se o jovem procura emprego, para conseguir informação precisa estar em uma rede em que sempre chega novidade, por exemplo - na verdade, o contato com diferentes ambientes sociais, sobretudo a escola e a Guarda Mirim, possibilitam a quebra desse padrão. Entretanto, conforme mencionado, a participação da família nessa dinâmica social nem sempre significa o distanciamento do “mundo do crime”. No sociograma 4, referente ao jovem envolvido, três pessoas da família aparecem como centrais. De 19 pessoas declaradas na rede pelo participante, a esposa, a mãe e o primo conhecem 17 delas, ou seja, essas pessoas da família mantêm relacionamento com os amigos da vizinhança e do CENSE, que estão inseridos em atividades não convencionais. Duas pessoas pertencentes à família do jovem estão em situação de envolvimento com o “mundo do crime”, que seriam o pai e o primo. Durante a entrevista, o jovem contou sobre a referência paterna, pois desde a infância lembra do pai na “vida do crime”. Entretanto, mencionou boas recordações de seu pai, explicando que o mesmo servia de apoio financeiro no ambiente familiar, nunca deixando faltar vestuários, alimentos, etc. O aconselhamento paterno sempre foi para que o jovem não siga o mesmo caminho, mas nada sendo feito para mostrar e estimular caminhos alternativos longe desse contexto. O interlocutor contou que foi o primo que intermediou a sua entrada no “mundo do crime”, já que o mesmo mantinha uma parte dos negócios em torno do tráfico. No sociograma 4 (jovem envolvido) pode ser observada visualmente a representação desta ponte estabelecida entre o primo e os amigos da vizinhança. Já a mãe e a esposa do jovem ocupam também essa posição de intermediação, sobretudo neste momento em que o mesmo está apreendido. Em razão de não conseguir pagar o 76 aluguel da residência em que estava morando com a esposa, os parceiros da vizinhança estavam ajudando financeiramente a esposa, enquanto o mesmo resolve seus problemas com a justiça. Somando-se a isso, a mãe e a esposa servem como intermediação de informações a respeito do rapaz para o grupo de parceiros do jovem e também acessam a dinâmica social desse grupo. Nesse sentido, o primo, a mãe e a esposa são as pontes nesta rede pessoal. Segundo os dados levantados, a esposa possui o valor de 0.18 dos caminhos mais curtos entre pares de nós, sendo a mais significativa enquanto centralidade de intermediação, seguida pela mãe (0.13) e pelo primo (0.13). Esse é um dado indicativo de que o relacionamento com a família parece não ser secundário, sendo um espaço de confiança para o jovem em questão, o que mantém a família a par de todas as ações executadas pelo mesmo, ou seja, quem são os amigos e conhecidos do sujeito, locais em que o mesmo opera as atividades do tráfico e onde é possível encontrá-lo. A dinâmica interna dessa rede pessoal é diferente da primeira, sendo possível observar os poucos espaços que o jovem circula em sua rotina, tendo mais acesso a família e a vizinhança. Somente quando é apreendido e encaminhado ao CENSE que esse cenário muda, pois o CENSE passa a ser o novo ambiente social. Nesse caso, a alta densidade da rede e os poucos espaços disponíveis de comunicação impactam no envolvimento do jovem com o “mundo do crime”. A família e a vizinhança possibilitam o contato pelo jovem com o conteúdo do “mundo do crime” no processo de comunicação impossibilitando o acesso à novidade. Verificou-se que outros membros da rede não ocupam essa posição de intermediação, como o pai do jovem (que não é participativo atualmente na vida do filho), os amigos da vizinhança, como o “N” e o “P1”, e os amigos “J3” e “F1” do CENSE, seguidos pela psicóloga do CENSE. Ressalta-se que o fato de alguns amigos não ocuparem a posição de intermediação é um dado importante para esta pesquisa. Isso não significa que não influenciam a vida do sujeito, mas trata-se de um indicativo de que as informações guardadas por eles ficam restritas dentro do próprio grupo, sendo somente a esposa, mãe e primo como pessoas privilegiadas que têm acesso a essas informações restritas, inclusive aquelas derivadas das dinâmicas do “mundo do crime”, situação que é possibilitada em redes densamente conectadas. Na perspectiva da Associação Diferencial, esse comportamento da família de intermediação com o “mundo do crime” reforça o comportamento do jovem a persistir nesse universo. 77 Na próxima seção, veremos situações parecidas como essas apresentadas, mas com redes grandes, de densidade alta e com mais ambientes de sociabilidades declarados. 4.2.3 Redes Pessoais Grandes com Alta Densidade Nesta seção veremos quatro redes grandes de contatos sociais, densas, tendo familiares como centrais, originadas tanto dos jovens não envolvidos quanto dos jovens envolvidos. Os sociogramas 5 e 6 representam as redes grandes do grupo dos não envolvidos, com 30 pessoas em cada uma delas, com densidade alta de 0.41. Já os sociogramas 7 e 8 representam as redes grandes do grupo dos envolvidos, com densidade de 0,80 e 0,43, respectivamente, que servem como comparativo com as redes pessoais grandes de alta densidade dos jovens não envolvidos. Os sociogramas 5, 6, 7 e 8 retratam os padrões de relacionamentos estabelecidos pelos jovens. Busca-se observar as aproximações e distanciamentos quanto às características das redes pessoais, como as conexões e os ambientes de sociabilidade, as medidas de densidade da rede e centralidade dos membros. A partir disso, verificar se há presença de padrões, ao comparar com as redes pessoais apresentadas anteriormente. Iniciaremos com a apresentação dos sociogramas 5 e 6 abaixo que representam os contatos sociais dos jovens não envolvidos. Essas duas redes mostram sociabilidades variadas, aparecendo a família, a escola, a Guarda Mirim, a religião, a atividade física, o lazer e o trabalho como espaços importantes de sociabilidade, sendo diferentes das redes pessoais dos jovens envolvidos e não envolvidos apresentadas nas seções anteriores. Embora a vizinhança apareça nos sociogramas 5 e 6, o número de pessoas declaradas como vizinhas é secundário, frente aos outros ambientes de sociabilidade declarados pelos participantes. Quanto à densidade da rede, 41% das pessoas mencionadas na rede possuem conexões entre si, sendo que a alta densidade viabiliza o contato dos pais com os outros contatos sociais dos filhos. Em outras palavras, a alta densidade de rede sugere que os jovens estão inseridos em ambientes sociais que facilitam o desenvolvimento pessoal e social, sendo que a rede está mais limitada a comportamentos positivos. 78 Sociograma 5 – Jovem THG – Rede grande 30 pessoas – Densidade alta 0,41 – Não envolvido Sociograma 6 - Jovem RFS – Rede grande 30 pessoas – Densidade 0,41 – Não envolvido Legenda ambiente de sociabilidade: Nº1: Família (8/30) Nº2: Vizinhança (2/30) Nº3: Trabalho (6/30) Nº6: Escola (3/30) Nº7: Guarda mirim (5/30) Nº12: Atividade física (2/30) Nº35: Trabalho e lazer (1/30) Nº45: Religião e lazer (1/30) Nº 612: Escola e atividade física (2/30) Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda ambiente de sociabilidade: Nº1: Família (10/30) Nº3: Trabalho (5/30) Nº6: Escola (5/30) Nº7: Guarda mirim (3/30) Nº15: Família e lazer (3/30) Nº25: Vizinhança e lazer (2/30) Nº256: Vizinhança, escola e lazer (1/30) Nº 567: Escola, Guarda Mirim e lazer (1/30) Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas 79 Uma rede pessoal densa explica a presença da multiplexidade de rede, visto que nos dois casos nota-se a família como participativa na dinâmica social dos jovens. Por exemplo, além de conhecerem as pessoas com as quais os jovens mantêm relacionamento, no sociograma 6 observa-se a participação dos pais na vida do jovem em atividades de lazer de maneira conjunta. Soma-se a isso a convivência entre amigos em mais de um ambiente social, sendo que o mesmo colega da escola ou vizinhança pode frequentar também a Guarda Mirim e ser uma companhia nas atividades físicas e de lazer (vide sociogramas 5 e 6), sugerindo, mais uma vez, multiplexidade de rede não somente entre familiares, mas entre o grupo de amigos. De um modo geral, os jovens não envolvidos costumam praticar atividades físicas como musculação, vôlei, futebol, basquete e ciclismo. As atividades de lazer se concentram em frequentar o shopping e cinema, bem como lanchonetes e restaurantes. Alguns jovens também declararam gostar de assistir filmes e séries nas plataformas de streaming, ler histórias em quadrinhos estilo mangás, navegar nas redes sociais como o Instagram e Facebook, assistir vídeos no Youtube e Tik Tok e ouvir músicas na plataforma Spotify, sendo que alguns jovens se autodeclararam “caseiros”. Para observarmos as proximidades e distanciamentos entre as características das redes pessoais dos jovens não envolvidos e envolvidos, a seguir são apresentados os sociogramas 7 e 8, representativos dos jovens envolvidos. As maiores redes encontradas no grupo dos jovens envolvidos são de 24 pessoas, com densidade alta de 0,80 e 0,43, respectivamente. Comparando com as duas redes anteriores, a densidade da rede representada no sociograma 7 é maior, pois 80% das pessoas presentes na rede se conhecem. Já a densidade da rede representada no sociograma 8 é próxima às duas redes observadas nos sociogramas 5 e 6 do grupo dos não envolvidos, pois 43% das pessoas presentes na rede possuem conexões entre si. Os campos de sociabilidade mais presentes nessas duas redes foram a família, a vizinhança, o trabalho, a religião e o lazer. Embora em idade escolar, os respondentes não mencionaram a escola, pois maior parte desistiu de estudar ainda no ensino fundamental. O trabalho também aparece de modo tímido no sociograma 8 – existe apenas uma pessoa que o jovem conhece na vizinhança e com quem, de vez em quando, executa trabalhos informais. O trabalho formal não está presente na vida dos dois participantes da pesquisa. Os membros da rede envolvidos com o “mundo do crime” estão marcados com a cor cinza nos sociogramas abaixo. 80 Sociograma 7 - Jovem DC – Rede grande 24 pessoas – Densidade alta de 0,80 - Envolvido Sociograma 8 – Jovem KL – Rede grande 24 pessoas – Densidade alta 0,43 - Envolvido Legenda ambiente de sociabilidade: Nº1: Família (6/24) Nº2: Vizinhança (1/24) Nº4: Religião (1/24) Nº12: Família e vizinhança (8/24) Nº25: Vizinhança e lazer (6/24) Nº245: Vizinhança, religião e lazer (2/24) Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda ambiente de sociabilidade: Nº1: Família (8/24) Nº2: Vizinhança (2/24) Nº25: Vizinhança e lazer (11/24) Nº235: Vizinhança, trabalho e lazer (1/24) Nº9: CENSE (2/24) Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas 81 No sociograma 7 (jovem envolvido), nota-se o dilema em que o jovem se encontrava no momento da entrevista: a proximidade com a igreja e a influência da namorada para seguir esse caminho. As igrejas, quando mencionadas como um espaço de socialização pelos participantes envolvidos, geralmente aparecem em suas falas como um caminho da “salvação” e “libertação de todo mal”, sempre tendo à disposição alguém proveniente desse contexto encarregado de aconselhá-los. As Igrejas, portanto, aparecem como um espaço de socialização entre os jovens, uma vez que estão alocadas em seus bairros de moradia, não restando outra alternativa de distração, de encontro ou renovação de contatos sociais e de ter algum apoio emocional ou espiritual. Nessa linha, percebe-se que o par romântico assume uma forma de tentativa de controle social na vida do jovem envolvido. A multiplexidade de rede presente nessa rede pessoal (sociograma 7) facilita o monitoramento da namorada em relação ao jovem, na medida que a mesma é moradora da vizinhança, é frequentadora da mesma igreja e participa de atividades de lazer com o jovem. Contudo, diferentemente do jovem não envolvido mencionado anteriormente, as tentativas de monitoramento da namorada nesse caso são falhas. Isso acontece porque o jovem ainda mantém as amizades com amigos de longa data, envolvidos com o “mundo do crime” e moradores do mesmo bairro, contribuindo para o mesmo reincidir às experiências desse contexto, ou seja, ao observar o sociograma 7 nota-se a intensa exposição em que o jovem está sujeito em relação ao “mundo do crime”, mesmo com a religião entremeada nessa disputa. Nessas duas redes dos envolvidos o que se destaca é o fato dos membros declarados como vizinhos serem bastante numerosos. Alguns familiares presentes no sociograma 7 são também vizinhos do participante e alguns inseridos na dinâmica do “mundo do crime”. Um outro ponto de destaque nos dois sociogramas é a conciliação dos amigos da vizinhança com as atividades de lazer, que geralmente estão concentradas em conversar nas ruas do próprio bairro, frequentar alguma loja de conveniência que comercializa bebidas alcoólicas localizada na região de moradia, frequentar lanchonetes do bairro, soltar pipa nos campos do bairro, frequentar festas e bailes próximos à região de moradia. Ainda, alguns jovens envolvidos declararam ser mais “caseiros”, pois gostam de cuidar de cachorros e passarinhos de estimação, de assistir séries e filmes nas plataformas de streaming e gostam de leituras de 82 histórias em quadrinhos estilo mangás. Em segundo plano, declaram frequentar os shoppings centers da cidade e a região central da cidade. Identificou-se nas duas redes dos sociogramas 7 e 8 que a família dos jovens conhece grande parte de seus amigos, o que indicaria maior monitoramento do comportamento do jovem e de seus pares. Entretanto, mesmo existindo esse tipo de relação na rede pessoal, os jovens acabaram se inserindo em atividades não convencionais, repetindo a mesma situação observada na seção anterior. Para verificar a persistência de alguns padrões nas redes analisadas até aqui, buscou-se acessar quem são as pessoas centrais nestas redes apresentadas nos sociogramas 5, 6, 7 e 8. Desse modo, foram selecionadas as três primeiras pessoas que mais conhecem as outras pessoas na rede dos sujeitos (grau de centralidade) e quem são as pessoas que, de acordo com a sua posição, representam um caminho mais curto entre as demais pessoas da rede (centralidade de intermediação) no que concerne à circulação de informações ou recursos materiais e afetivos. No quadro 8 abaixo, destaca-se alguns dados sobre a centralidade destas quatro redes de modo comparativo. Quadro 4 - Centralidade de grau e de intermediação - Redes grandes de alta densidade REDE PESSOAL Nº DE MEMBROS NA REDE CENTRALIDADE DE GRAU - CONHECE QUANTAS PESSOAS NA REDE CENTRALIDADE DE INTERMEDIAÇÃO - % DE CAMINHOS MAIS CURTOS ENTRE TODOS OS CONTATOS Sociograma 05 (JOVEM NÃO ENVOLVIDO) 30 W.TIO (29 PESSOAS); KL.TIA (22 PESSOAS); D.MÃE (20 PESSOAS) 0.26 (W.TIO) Sociograma 06 (JOVEM NÃO ENVOLVIDO) 30 V.PAI (25 PESSOAS); JJ.NAMORADA (24 PESSOAS); M.MÃE E V1.IRMÃO (21 PESSOAS) 0.24 (V.PAI); 0.21 (JJ.NAMORADA) Sociograma 07 (JOVEM ENVOLVIDO) 24 L1.MÃE (23 PESSOAS); V1.IRMÃO (23 PESSOAS); C.PADRASTO, E1.IRMÃ E I.PRIMO (23 PESSOAS) NÃO HÁ VALOR RELEVANTE Sociograma 08 (JOVEM ENVOLVIDO) 24 L.IRMÃO (19 PESSOAS); C.MÃE (16 PESSOAS); A.AMIGO (15 PESSOAS) 0.24 (L.IRMÃO); 0.14 (C.MÃE); 0.10 (A.AMIGO) Tabela elaborada pela própria autora. Dados calculados no software Pajek. Nota-se que membros da família aparecem como centrais tanto para os jovens envolvidos quanto para os jovens não envolvidos, conforme os resultados destacados na tabela acima. Isso significa que os familiares conhecem maior parte dos contatos sociais dos jovens e servem também como posições de intermediação. Como no caso 83 apresentado na seção anterior, percebe-se que o fato de membros da família estarem em uma posição de intermediação entre os grupos sociais nos quais os jovens fazem parte, como a vizinhança, significa que a circulação de informações dentro do grupo da vizinhança é bastante restrita, mas que a família tem acesso (vide sociograma 8 – jovem envolvido). A junção desse detalhe com a alta densidade de rede, mais a intermediação da família com espaços ocupados pelo “mundo do crime” e os poucos espaços de sociabilidade que os sujeitos envolvidos circulam, contribuem para restringir as informações nessas redes pessoais, prevalecendo os códigos e práticas sociais do “mundo do crime”. O que os resultados mostram é que, diferentemente do esperado, quem ocupa as posições de centralidade da rede dos jovens envolvidos e não envolvidos não são seus amigos, mas sim grande parte dos familiares. Isso sugere a importância de se pesquisar as interações sociais para além da escola, ambiente este analisado pelas pesquisas internacionais até então. Conforme visto na revisão da literatura, ao pesquisar as redes sociais dos jovens dentro da escola os amigos aparecem enquanto centrais, o que levou este estudo a pensar que nas redes mais gerais de jovens isso também aconteceria, em razão da particularidade dessa fase da vida. Os familiares aparecerem enquanto centrais na rede dos jovens não envolvidos sugere que essas figuras de autoridade têm um poder de influência em relação aos jovens participantes da pesquisa, sobretudo como referências positivas, sendo um padrão de relação social esperado pela Teoria do Controle Social (Schreck & Hirschi, 2009; Hirschi, 2004; Haynie & Osgood, 2005). No entanto, esse padrão é contrariado quando os familiares aparecem como centrais nas redes pessoais dos jovens envolvidos, o que indica que outras questões precisam ser avaliadas nessa dinâmica. Isso mostra que não há um padrão para o envolvimento, pois a centralidade de familiares pode representar uma influência positiva para os jovens envolvidos, mas não exclui a influência dos pares e a estrutura da rede (alta densidade) na exposição dos jovens ao “mundo do crime”, mostrando mais uma vez que o conteúdo no processo de comunicação importa, conforme defendido pela Teoria da Associação Diferencial e Aprendizagem Social (Sutherlad, 1955; Warr, 1996). É válido ressaltar, que há familiares (por exemplo, vide sociograma 7) presentes nas redes pessoais dos jovens que também são envolvidos com o “mundo do crime” e residem na mesma vizinhança que os jovens, facilitando a exposição aos códigos e práticas sociais do “mundo do crime”. 84 Com o intuito de observar as aproximações, diferenças e padrões entre as redes pessoais apresentadas, a próxima seção finaliza este capítulo apresentando os resultados das redes pessoais grandes, mas com baixa densidade. 4.2.4 Redes Pessoais Grandes com Baixa Densidade Os sociogramas 09 e 10, a seguir, representam as maiores redes pessoais declaradas pelos jovens não envolvidos (com 30 pessoas nas duas redes), mas com baixa densidade. Optou-se por apresentar as redes de densidade 0,24 e 0,26 respectivamente, por essas seguirem um mesmo padrão: há uma variedade de ambientes de sociabilidade, mas a separação desses ambientes é mais evidente que as redes grandes de alta densidade. Quanto mais alta a densidade da rede, mais conexões existem entre os grupos sociais, situação que não acontece nas redes pessoais de baixa densidade. Em relação ao jovem envolvido, selecionamos a única rede grande declarada (com 25 pessoas) com baixa densidade, representada no sociograma 11. No caso, o mesmo não foi entrevistado nas instituições de socioeducação, mas sim na instituição Guarda Mirim. Declarou, enquanto respondia ao questionário, experiências com seus amigos em roubos e tráfico de drogas, porém, nunca haviam sido apreendidos. É atendido pela instituição como contraturno escolar e aguarda um encaminhamento para o mercado de trabalho. Observa-se, através do sociograma 11, que a relação desse jovem com outros ambientes sociais é mais ampla, comparada com os outros jovens do mesmo grupo em análise. Apesar de os relacionamentos nessas redes de baixa densidade parecerem esparsos, identificou-se forte concentração de relacionamentos por ambientes de sociabilidade. A baixa densidade é dada em razão de não haver tantas conexões entre os grupos/ambientes sociais. Isso significa que há conectividade densa nessas três redes analisadas, mas por segmentos. Veja abaixo os sociogramas 9, 10 e 11. 85 Sociograma 9 - Jovem JWE – Rede grande 30 pessoas – Densidade baixa 0,24 – Não envolvido Sociograma 10 - Jovem GBN – Rede grande 30 pessoas – Densidade 0,26 – Não envolvido Legenda ambiente de sociabilidade: Nº1: Família (5/30) Nº3: Trabalho (5/30) Nº4: Religião (3/30) Nº6: Escola (8/30) Nº7: Guarda Mirim (6/30) Nº12: Atividade física (1/30) Nº612: Escola e atividade física (2/30) Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda ambiente de sociabilidade: Nº1: Família (2/30) Nº3: Trabalho (5/30) Nº6: Escola (13/30) Nº7: Guarda Mirim (2/30) Nº15: Família e lazer (3/30) Nº25: Vizinhança e lazer (2/30) Nº67: Escola e Guarda Mirim (1/30) Nº256 Vizinhança, lazer e escola (1/30) Nº567: Lazer, escola e Guarda Mirim (1/30) Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas 86 Sociograma 11 - Jovem SR – Rede grande 25 pessoas – Densidade baixa 0,24 – Envolvido Para apresentar de que maneira foi analisada a alta densidade por segmentos, elaborou-se um quadro comparativo das três redes pessoais para facilitar a visualização ao leitor. Posteriormente, apresenta-se as aproximações e diferenças entre essas três redes. Quadro 5 - Densidade da rede pessoal por ambiente de sociabilidade - Sociogramas 09, 10 e 11 AMBIENTE DE SOCIABILIDADE Sociograma 09 (NÃO ENVOLVIDO) Sociograma 10 (NÃO ENVOLVIDO) Sociograma 11 (ENVOLVIDO) FAMÍLIA 1.0 0.9 1.0 VIZINHANÇA 0 1.0 1.0 ESCOLA 0.73 0.4 0.2 TRABALHO 1.0 0.6 0 GUARDA MIRIM 1.0 0.33 0.71 IGREJA 1.0 0 0 Legenda ambiente de sociabilidade: Nº1: Família (7/25) Nº2: Vizinhança (5/25) Nº6: Escola (3/25) Nº7: Guarda Mirim (7/25) Nº25: Vizinhança e lazer (1/25) Nº56: Escola e lazer (2/25) Elaborado pela própria autora no software Pajek Quadro elaborado pela própria autora. Dados calculados no software Pajek. Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas 87 O quadro acima mostra, mais uma vez, que a família é um espaço de sociabilidade importante, tanto para os jovens não envolvidos como para o jovem envolvido, sendo, portanto, um segmento bastante denso. No sociograma 11 (jovem envolvido) chama a atenção o alto número de pessoas da família declarado por ele, mas há isolamento da mesma frente aos contatos sociais dos outros campos de sociabilidade enunciados pelo jovem. Nota-se que no sociograma 10 (jovem não envolvido) há a presença de um familiar que já teve experiência no “mundo do crime”. Mesmo assim, o jovem nunca se envolveu nesse tipo de contexto. Em entrevista, conta que o próprio familiar o aconselha sobre os riscos desse tipo de experiência e, por outro lado, os espaços sociais que o jovem circula e o conteúdo da comunicação nesses espaços não estão atrelados ao universo do “mundo do crime”, embora este conteúdo esteja bastante próximo de seu cotidiano na vizinhança. No sociograma 9 (jovem não envolvido) não há relacionamentos com pessoas da vizinhança. Já no sociograma 10 (jovem não envolvido), os relacionamentos com pessoas da vizinhança estão mais presentes através de um “clique”, o que explica a alta densidade desse setor da rede. Porém, estes relacionamentos não ficam restritos somente ao espaço da vizinhança, pois os jovens participam de atividades de lazer conjuntamente, bem como conhecem os amigos da escola e da Guarda Mirim, o que sugere diferentes informações sendo trocadas dentro do contexto da vizinhança. Em comparação, o jovem envolvido (sociograma 11) também possui uma rede densa nesse ambiente, o que pode indicar apoio ou influência negativa da vizinhança em suas ações, sendo que algumas pessoas destacadas na cor cinza, inseridas nesse ambiente, também foram participantes de atividades conjuntas com o sujeito quando o mesmo atuou no roubo e no tráfico de drogas. No sociograma 10 (jovem não envolvido), é apresentado que o jovem não está inserido em relações muito densas na escola, comparado com o que foi apresentado no sociograma 09 (jovem não envolvido). Isso não está atrelado ao isolamento ou baixa popularidade, pois ao observar a rede, percebe-se que o jovem conhece um número considerável de pessoas na escola, ocupando quase toda a sua lista de contatos sociais. O que acontece é que nem todos que ele conhece se conhecem entre si, por isso a baixa densidade (0.4). Ele pode representar nesse contexto uma centralidade, pois conhece uma variedade de pessoas que pertencem a grupos distintos dentro da escola, o que possibilita a troca de informações de maneira diversa. 88 Este mesmo jovem (sociograma 10) também apresenta baixa densidade dos relacionamentos na Guarda Mirim, sendo mais dispersos ao comparar com os outros participantes. Em outros contextos sociais, seus relacionamentos são mais coesos, como no trabalho, na família e na vizinhança. Já o sociograma 11 (jovem envolvido), revela a baixa conexão entre os colegas da escola, sendo possível perceber a dispersão dos relacionamentos estabelecidos nessa instituição, o que indica o próprio depoimento do jovem, que estava sem perspectivas quanto à escola e sem estímulo para estudar. Além disso, demarcamos uma relação de amizade estabelecida com um amigo da escola, em que concilia atividades de lazer, sendo também participante das práticas de roubo juntamente com jovem entrevistado. Entretanto, identificou-se uma alta densidade entre os amigos que frequentam a Guarda Mirim, sugerindo ser um espaço importante para o jovem no momento em que a pesquisa estava sendo desenvolvida, o que pode indicar vínculos positivos e uma nova forma de apoio. Encerraremos esta seção descrevendo no quadro abaixo quem são as pessoas centrais destas três redes apresentadas. Neste caso, houve mudança no padrão visto até agora. Em vez de serem somente os membros da família as figuras centrais na rede pessoal dos participantes, os amigos também aparecem ocupando esta posição nas três redes mencionadas. Quadro 6 - Centralidade de grau e de intermediação - Redes grandes de baixa densidade REDE PESSOAL Nº DE MEMBROS NA REDE CENTRALIDADE DE GRAU - CONHECE QUANTAS PESSOAS NA REDE CENTRALIDADE DE INTERMEDIAÇÃO – MEDIDAS DE CAMINHOS MAIS CURTOS ENTRE TODOS OS CONTATOS Sociograma 09 (JOVEM NÃO ENVOLVIDO) 30 L.IRMÃ (15 PESSOAS); S.MÃE (14 PESSOAS); MM.AMIGO (13 PESSOAS); J.AMIGO (13 PESSOAS) S.MÃE (0.20); MM.AMIGO (0.20); J.AMIGO (0.18); L.IRMÃ (0.12); C.AMIGA (0.12); F1.AMIGA (0.11) Sociograma 10 (JOVEM NÃO ENVOLVIDO) 30 J.NAMORADA (20 PESSOAS); J1.AMIGO (16 PESSOAS); H.IRMÃ (15 PESSOAS); J.AMIGO (15 PESSOAS) J1.AMIGO (0.30); J.NAMORADA (0.23) J.AMIGO (0.16); H.IRMÃ (0.15) Sociograma 11 (JOVEM ENVOLVIDO) 25 WW.AMIGO (12 PESSOAS); R.AMIGO (10 PESSOAS); J3.AMIGO (9 PESSOAS); J.IRMÃ (9 PESSOAS) WW.AMIGO (0.51); R.AMIGO (0.39); J.IRMÃ (0.17); W2.IRMÃO (0.13) Tabela elaborada pela própria autora. Dados calculados no software Pajek. 89 Em relação ao grau de centralidade, observa-se alguns dados novos nas três redes pessoais, independentes de o jovem estar envolvido ou não. Embora alguns membros da família apareçam como centrais por conhecer diretamente várias pessoas que o jovem mantém contato no seu dia-a-dia, repetindo o que foi visto nas seções anteriores, agora aparecem outras figuras de centralidade, compostas pelos grupos de amigos. Vale ressaltar que, na análise das redes grandes de alta densidade as pessoas com alto grau de centralidade, conheciam grande parte dos contatos sociais dos participantes (quase todos). Nesse caso de redes grandes de baixa densidade, as pessoas com alto grau de centralidade conhecem em média a metade dos contatos sociais, mas dividindo essa alta centralidade com mais membros da rede, onde os amigos acabam ocupando essa posição. Além da concentração de relacionamentos por segmentos, os três sociogramas mostram um outro elemento importante para a coesão destas redes pessoais quanto às posições de intermediação de alguns membros, responsáveis em fazer circular informações na rede e entre os espaços de sociabilidade distintos que o jovem frequenta. A intermediação de membros da família e amigos entre os ambientes sociais contribui para fluir novas informações, características de redes de baixa densidade. O fato desses espaços variarem significa que as informações são geradas de maneira diversa: o jovem troca informações sobre conhecimento escolar, questões religiosas, mercado de trabalho, relacionamentos de um modo geral, cultura e entretenimento. Um exemplo é o amigo J1 (da escola e Guarda Mirim) do jovem não envolvido (sociograma 10), que possui forte pontuação como intermediário (0.31), pois estabelece pontes entre a escola, Guarda Mirim, espaço de trabalho e família, representando uma referência positiva. Por outro lado, na rede pessoal do jovem envolvido (sociograma 11) o amigo WW (vizinhança) possui uma alta pontuação na posição de intermediário central (0.51), entre a vizinhança, escola e família do entrevistado. WW já atuou com o entrevistado em atividades ligadas ao roubo e tráfico de drogas. Entretanto, um outro amigo (R), não envolvido, representa uma pontuação de 0.39 como intermediário central, estabelecendo pontes entre a Guarda Mirim e a vizinhança do entrevistado. Este jovem em específico representa a possível chegada de novas informações nesta rede pessoal, sendo um contato social positivo não somente para o sujeito da pesquisa, mas também para o grupo de amigos. Já a irmã e o irmão apresentam valores de intermediações menores, mas não menos importantes, pois sinalizam 90 pontes entre a própria família e o grupo de amigos da escola, vizinhança e lazer do jovem entrevistado, sugerindo que possuem informações privilegiados a respeito do mesmo, mas que nem toda a família acessa: quem são os amigos do jovem; quais os lugares que costumam frequentar; o que costumam fazer, etc., nos levando a indagar se são ou não referências positivas ao entrevistado. Para finalizar este capítulo, na próxima seção será apresentado um balanço geral dos principais achados desta pesquisa até o momento. Este levantamento nos permitirá sintetizar os resultados obtidos e destacar sua relevância. 4.2.5 Síntese dos Achados sobre a Conectividade da Rede dos Jovens Pesquisados O objetivo desta seção foi realizar um balanço dos resultados obtidos até o momento, destacando sua relevância e implicações, especialmente em relação às propriedades das redes pessoais dos sujeitos da pesquisa, como o tamanho das redes, as medidas de densidade e centralidade, e o número de ambientes sociais citados. Esses elementos são cruciais para entender a estrutura e dinâmica das interações observadas. Vale lembrar que uma análise qualitativa mais aprofundada será realizada no próximo capítulo, onde discutiremos essas evidências de forma mais detalhada. Conforme dito anteriormente, a média de densidade da rede do grupo dos não envolvidos é menor (0.37) frente ao grupo dos envolvidos (0.45). Foram observados alguns padrões nas redes dos jovens não envolvidos. Dos 13 jovens, cinco deles declararam redes pessoais de alta densidade e oito declararam redes pessoais de baixa densidade. A maioria das redes desse grupo concentrou-se em pessoas da família e do grupo de amigos como centrais, sendo mais comum pessoas da família ocuparem esse tipo de posição. Quanto aos jovens envolvidos, dos 12 que colaboraram com a pesquisa, 10 declararam redes com alta densidade e somente dois desses jovens declaram redes de baixa densidade. As pessoas provenientes da família são as que mais se destacaram enquanto centrais na rede, seguidas por amigos. Em comparação, os resultados sugeriram que os dois grupos possuem vínculos com os familiares, o que indica que a família também é importante para os jovens envolvidos, especialmente quando grande parte das redes citadas pelos mesmos aparecem familiares como figuras centrais. 91 Nas redes dos jovens não envolvidos, observou-se maior diversidade de relações, de acordo com os ambientes sociais em que os contatos pertencem. Entretanto, nas redes pessoais dos jovens envolvidos notou-se relações mais concentradas e potencialmente menos diversificadas. Isso posto, há grande exclusão dos jovens envolvidos em relação à escola, ao mercado de trabalho, às atividades de contraturno escolar de um modo geral, bem como outros espaços sociais. Isso sugere que esses aspectos estruturais, atrelados às desigualdades sociais, contribuem para a formação de suas redes pessoais, tornando-as mais restritas. Em destaque, uma outra diferença notada foi a presença de contatos sociais da vizinhança entre os jovens envolvidos, que mantêm muitas conexões nesse ambiente. Em contraste, os jovens não envolvidos possuem algumas relações com pessoas da vizinhança. Com a diversidade de ambientes de sociabilidade, percebe-se maior presença de multiplexidade de rede entre os contatos pessoais no grupo dos não envolvidos. Os resultados concordam com as pesquisas desenvolvidas até então, ou seja, que é mais comum encontrar nas redes dos jovens não envolvidos características de multiplexidade de rede, que ocorre quando um mesmo indivíduo participa de diferentes campos de socialização, contribuindo para aumentar a pressão social e monitoramento sobre o mesmo nos diferentes espaços sociais. Portanto, esses resultados concordam com a literatura que discute a multiplexidade de rede enquanto controle social, uma vez que o conhecimento dos pais sobre os amigos dos filhos, provenientes de diferentes esferas sociais, facilita a detecção de amizades e comportamentos divergentes (Krohn, 1986). Ter os mesmos amigos em diferentes esferas sociais é importante para o distanciamento das atividades do “mundo do crime”. Por outro lado, a literatura da associação diferencial também auxilia a pensar na multiplexidade de rede, no sentido de que os mesmos jovens ao participar de diferentes esferas sociais potencializam a circulação de informações diversificadas entre eles (Sutherland, 1955), distanciando do conteúdo do “mundo do crime”. A multiplexidade de rede entre os jovens envolvidos foi bastante tímida, condição que está atrelada às poucas esferas sociais em que os mesmos circulam. Com referência à literatura que discute a análise de redes sociais e delinquência, comparou-se a conectividade das redes pessoais, cujos resultados apresentaram algumas diferenças em relação aos resultados da literatura revisada. Calculou-se o valor de centralidade com o objetivo de verificar quem são as pessoas mais influentes dentro da rede dos sujeitos da pesquisa, tendo em vista observar se 92 as pessoas centrais da rede são envolvidas, ou não, com o “mundo do crime”, pensando na possibilidade dessa condição influenciar o declarante da rede. O fato de considerar pessoas da rede pessoal dos jovens para além da instituição escolar, como foi feito em estudos anteriores, possibilitou acesso a um leque de ambientes de sociabilidade. Mesmo nos casos em que o jovem declarava a frequência em diversos espaços sociais, contatos da família apareceram diversas vezes como centrais, independentemente se a rede pertencia ao grupo dos envolvidos ou não envolvidos. O fato de membros da família aparecerem como centrais nas redes pessoais dos jovens envolvidos indica que os laços afetivos com a família e o monitoramento desempenhado pela mesma podem não ser suficientes para distanciar os jovens da inserção no “mundo do crime”. Isso também contribui para o distanciamento de estereótipos quanto aos jovens em conflito com a lei, que leva a prevalecer a ideia de que possuem laços fragilizados com seus familiares, que se configurariam, por exemplo, em falta de atenção e monitoramento da família ou falta de afeto da família em relação aos mesmos. O que os dados mostram é que a fragilidade dos laços não é um padrão. Com base nesse contexto, entende-se que outros fatores precisam ser melhor investigados, como outras sociabilidades e a qualidade desses relacionamentos. Além da centralidade, foram investigados os valores de densidade, tendo em vista compreender a pressão do grupo sobre o indivíduo, somando-se ao problema ou à vantagem de se obter informações redundantes em determinados contextos, como de associação diferencial ou convencional. Quanto mais as pessoas se conhecem, a difusão de informações ocorre mais facilmente. O que os estudos indicaram até então é que a densidade da rede contribui para fluir conteúdos convencionais ou de associação diferencial (como informações, atitudes, opiniões, crenças, habilidades e conhecimento específicas desses contextos), a depender de quais desses conteúdos tem maior força sobre o indivíduo (Warr, 1996; Haynie, 2001; 2002). A presente pesquisa reforça essa perspectiva, mas contribuindo para mostrar, de modo qualitativo, de que maneira estes conteúdos fluem, considerando algumas categorias de análise pouco discutidas pela literatura vigente. Dado esse contexto, o próximo capítulo se dedica a discorrer sobre a força das redes pessoais dos sujeitos da pesquisa como relevantes para influenciar a aproximação ou distanciamento do “mundo do crime”. Para isso, a discussão da força da rede considera de que modo o jovem entrevistado analisa a sua própria rede 93 pessoal, levando em conta questões que envolvem a durabilidade, a frequência e a intensidade de seus relacionamentos. 94 5. ANÁLISE DAS REDES PESSOAIS DOS JOVENS PARTICIPANTES DA PESQUISA: A FORÇA E A FUNÇÃO DA REDE Este capítulo visa explorar a qualidade dos relacionamentos dos interlocutores, tendo em vista a frequência, a durabilidade e a intensidade dessas relações; bem como acessar a função desempenhada pelos contatos sociais nas redes pessoais. A seção 5.1 discute a força da rede, pois não basta pensar somente nas conexões entre os membros da rede, ou seja, quem conhece quem e qual o ambiente social em que estão inseridos. É necessário entender mais a fundo a qualidade dessas conexões. Para isso, propõe-se três categorias de análise que captam diferentes dimensões da força da rede pessoal do jovem entrevistado, inspiradas na literatura que discute associação diferencial (Sutherland, 1955): a frequência da relação; a durabilidade da relação; e a intensidade da relação. Essas categorias são significativas para examinar a integração dos jovens em suas conexões sociais, considerando se a força das relações pesa para o lado do “mundo do crime” ou para o lado convencional. Entende-se que todos os contatos sociais mencionados pelos jovens desempenham papéis significativos, ou, em alguns casos, menos relevantes na mobilização de recursos para eles. Portanto, a seção 5.2 propõe investigar os contatos sociais que exercem as funções mais significativas nas redes pessoais dos sujeitos, como apoio emocional, assistência financeira e monitoramento, com o objetivo de examinar o acesso pelos jovens aos recursos materiais e emocionais. Portanto, este capítulo é dedicado em operacionalizar as hipóteses da força e da função. Além disso, o capítulo também operacionaliza a hipótese da homofilia. A hipótese da força servirá como um complemento às medidas de rede desenvolvidas no capítulo anterior. Vimos que a concentração de muitos laços dentro de uma rede (densidade) promove aproximação entre as pessoas e facilita a circulação de informações, embora em redes densas as informações não costumam gerar novidade. A discussão da força, portanto, tem como base essa aproximação das pessoas. Presume-se que a inserção no “mundo do crime” é facilitada quando os jovens mantêm relações mais frequentes, duradouras e intensas com indivíduos envolvidos nesse contexto. As relações também podem afastar os jovens desse tipo de contexto a depender do processo de comunicação, ou seja, do conteúdo que circula na rede (Sutherland, 1955; Warr, 1996). Além disso, espera-se que, para assegurar esses 95 vínculos intensos com os jovens, os contatos sociais precisam cumprir com funções dentro da rede pessoal: oferecem apoio emocional (Schreck & Hirschi, 2009); reforços positivos/recompensas (Burgess; Akers; 1966; Warr, 1996; 1993); apoio financeiro; e monitoramento (Krohn, 1986; Haynie & Osgood, 2005). Diante disso, espera-se que o “mundo do crime” também cumpra com essas funções. Por fim, a hipótese da homofilia também será trabalhada nesse capítulo pois esperamos encontrar uma relação entre o acúmulo de amigos ao longo dos anos (relação entre os pares e tempo de amizade) e a inserção no “mundo crime” (Warr, 1996). Além disso, possivelmente as relações entre os pares são condicionadas por um efeito estrutural (Weerman, 2011; Payne; Cornwell, 2007; Young, 2011; Haynie, 2002), em razão de a aproximação ocorrer pela limitação dos jovens ao contexto da vizinhança. 5.1 A FORÇA DAS REDES Propõe-se analisar três categorias que captam a força das redes pessoais dos participantes da pesquisa. A primeira é a frequência da relação. Nesta dimensão, uma relação social é considerada forte se o jovem encontra o contato social diariamente (todos os dias) ou semanalmente. A segunda é a durabilidade da relação. Aqui considera-se uma relação forte aquela que é vivenciada entre o sujeito e o contato social há anos (há mais de 2 anos). Por fim, analisar-se-á a intensidade da relação do ponto de vista dos sujeitos entrevistados. Nesta dimensão, considera-se forte a relação indicada enquanto tal pelo próprio entrevistado. Para sistematizar os dados, os contatos sociais foram vinculados aos ambientes sociais de referência. Dessa forma, foi elaborado um ranking dos ambientes mais mencionados, que compõem a força da rede pessoal dos respondentes, de acordo com as seguintes dimensões: “ambientes sociais onde os sujeitos encontram pessoas com frequência”; “ambientes sociais onde os sujeitos conhecem pessoas há anos”; e “ambientes sociais onde os sujeitos consideram relacionamentos intensos/fortes”. O quadro 7 apresenta essas informações. Ele mostra que, quanto à frequência, durabilidade e intensidade, todos os jovens de ambos os grupos citaram pessoas da família que encontram com frequência e que mantêm um relacionamento duradouro. Tal evidência já era esperada, pois todos os jovens residem com seus familiares, e a família é o primeiro espaço de socialização do indivíduo. Quanto à 96 intensidade da relação, somente um jovem do grupo dos envolvidos não considerou forte o relacionamento com qualquer pessoa da família. Todos os outros jovens, de ambos os grupos, consideraram o relacionamento com a família forte. Esses dados revelam a proximidade com os familiares, independente da condição de envolvido ou não. Contudo, as diferenças entre os grupos ocorrem quando se observam as relações com pessoas de outras esferas sociais. Com base nisso, os dados dialogam com aqueles apresentados nos sociogramas das seções anteriores, mostrando que os jovens não envolvidos encontram com frequência pessoas de diferentes grupos sociais, possibilitando a exposição continuada a diferentes tipos de comportamentos, atitudes e informações em suas rotinas. Já os jovens envolvidos possuem maior frequência de contatos com a família e a vizinhança, decaindo suas conexões na medida em que mencionam a frequência de contato com as pessoas da escola, trabalho e religião. O contato com a família e a vizinhança restringe o acesso desses jovens a oportunidades. Tal dado é significativo por revelar a desintegração dos jovens de ambientes sociais relevantes como a escola, atividades de contraturno escolar e o mercado de trabalho, no sentido de ampliarem suas expectativas em torno de seus projetos pessoais, acesso ao conhecimento e diversidade de socialização. Quanto a durabilidade da relação, os jovens não envolvidos mencionam pessoas da escola e vizinhança como aquelas que conhecem há anos, ocupando o 2º e 3º lugar no ranking respectivamente, diminuindo as menções às atividades de contraturno escolar, religião e trabalho. Já os jovens envolvidos citaram mais pessoas da vizinhança que conhecem há anos, decaindo mais uma vez suas conexões na medida em que mencionam a durabilidade da relação com pessoas da escola, trabalho e religião. Essa diminuição é perceptível entre os dois grupos, pois nem todos os participantes frequentam instituições religiosas e, para alguns, o vínculo com a Guarda Mirim e o mercado de trabalho ocorreu há poucos meses. Porém, o dado que mais se destaca nesta comparação é que os jovens envolvidos não mantiveram relacionamentos estáveis ao longo dos anos com colegas da escola. Ao comparar com o grupo dos não envolvidos, estes citaram pessoas da escola como aquelas que conhecem há anos, ocupando o segundo lugar no ranking da durabilidade. A evasão escolar vivenciada pelo grupo dos envolvidos não permite qualquer proximidade com a comunidade escolar e estabilidade nos relacionamentos, desintegrando os jovens desse contexto. 97 Quadro 7 - Ambientes sociais e a força das redes pessoais dos jovens - Por frequência, duração e intensidade da relação Dimensões Ranking de ambientes de sociabilidade mais citados Não envolvidos (13 participantes) Envolvidos (12 participantes) Ambientes onde os sujeitos encontram pessoas com frequência Ambiente Nº de participantes que citaram Ambiente Nº de participantes que citaram 1º Família 13 1º Família 12 2º Escola 11 2º Vizinhança 8 3º Vizinhança 9 3º Escola 3 4º Trabalho 8 4º Trabalho 3 5º Guarda mirim 7 5º Religião 1 6º Religião 3 ********** ********** Ambientes sociais onde os sujeitos conhecem pessoas há anos Ambiente Nº de participantes que citaram Ambiente Nº de participantes que citaram 1º Família 13 1º Família 12 2º Escola 12 2º Vizinhança 8 3º Vizinhança 12 3º Religião 3 4º Guarda mirim 5 4º Trabalho 2 5º Religião 5 5º Escola 1 6º Trabalho 1 ********** ********** Ambientes sociais onde os sujeitos mantêm relacionamentos intensos/fortes Ambiente Nº de participantes que citaram Ambiente Nº de participantes que citaram 1º Família 13 1º Família 11 2º Escola 12 2º Vizinhança 9 3º Vizinhança 10 3º Religião 4 4º Guarda mirim 9 4º Trabalho 3 5º Religião 5 5º Escola 2 6º Trabalho 3 ********** ********** A escola ocupa o 2º lugar no ranking do grupo dos não envolvidos no que se refere à intensidade da relação. Isso significa que 12 dos 13 jovens não envolvidos consideram relacionamentos fortes com pessoas da escola, ao passo que essa posição é ocupada pela vizinhança, no que se refere ao grupo dos envolvidos. A vizinhança também é bastante citada pelos jovens não envolvidos como um local em que mantêm relacionamentos fortes, ocupando o 3º lugar no ranking, seguida pela Guarda Mirim em 4º lugar, pela religião em 5º e pelo trabalho em 6º. No caso dos jovens envolvidos, as menções decaem após a citação da vizinhança, mas não deixando de aparecer a relevância dada pelos mesmos à religião, ao trabalho e à escola, como locais que consideram importantes como apoio, por alguns atribuírem relacionamento forte com pessoas provenientes desses locais. Vimos no capítulo anterior que pessoas que já foram, ou ainda são envolvidas com o “mundo do crime”, foram citadas como contatos sociais por participantes Tabela elaborada pela própria autora 98 pertencentes aos dois grupos. Somente dois jovens do grupo dos não envolvidos citaram pessoas nesta condição, cujas referências eram familiares, mas que já não estavam mais inseridos nessas práticas. No caso dos jovens envolvidos, todos citaram a presença de pessoas que já foram envolvidas ou ainda estão inseridas nesse meio. Estas ainda inseridas estão presentes em todas as redes pessoais declaradas pelos jovens envolvidos. As pessoas não mais inseridas nesse meio são familiares dos mesmos que já vivenciaram essa experiência. Levando isso em consideração, nos ambientes sociais mencionados, os jovens envolvidos atribuem relacionamento forte com as pessoas que já foram ou são envolvidas com o “mundo do crime”. A informação foi obtida por meio do questionário, que continha uma pergunta acerca da experiência de cada uma das pessoas mencionadas pelos participantes em relação à prática de roubo ou tráfico de drogas, seja no passado ou atualmente. Posteriormente, as pessoas foram vinculadas aos ambientes sociais de pertencimento. Essa integração foi acrescentada à avaliação de como o participante da pesquisa valorizava sua relação com esses contatos específicos. Ademais, levou-se em conta a regularidade e a permanência da relação com eles. Em vista disso, às dimensões apreciadas nesta seção, acrescentou-se a informação acerca do envolvimento do contato social, tais como: “ambientes sociais em que os participantes encontram pessoas com frequência, que já foram ou são envolvidas com o “mundo do crime””; “ambientes sociais em que os participantes conhecem há anos pessoas que já foram ou são envolvidas com o “mundo do crime””; “ambientes sociais em que os participantes consideram os relacionamentos intensos/fortes com pessoas que já foram ou são envolvidas com o “mundo do crime””. As informações estão descritas no quadro 8, a seguir. Os dados expostos no quadro 8 ajudam a entender de que modo os sujeitos da pesquisa estão expostos à associação diferencial ou não. Verificou-se que, quanto mais um jovem encontra uma pessoa envolvida com frequência, quanto mais durável é a relação do jovem com uma pessoa envolvida (desde a infância, por exemplo) e quanto mais intensa considera a relação com uma pessoa envolvida, mais exposição aos códigos e práticas sociais do “mundo do crime” está sujeito e, assim, mais chances de envolvimento. 99 Quadro 8 - Contato com pessoas envolvidas com o "mundo do crime" - Por frequência, duração e intensidade da relação Dimensões Ranking de ambientes sociais mais citados Não envolvidos (13 participantes) Envolvidos (12 participantes) Ambientes sociais em que os participantes encontram pessoas com frequência que já foram ou são envolvidas com o "mundo do crime" Ambiente Nº de participantes que citaram Ambiente Nº de participantes que citaram 1º Família 01 1º Vizinhança 10 2º Família 05 3º Cense 03 4º Escola 01 ********** ********** ********** ********** Ambientes sociais em que os participantes conhecem há anos pessoas que já foram ou são envolvidas com o "mundo do crime" Ambiente Nº de participantes que citaram Ambiente Nº de participantes que citaram 1º Vizinhança 09 1º Família 02 2º Família 06 3º Escola 02 ********** ********** ********** ********** ********** ********** Ambientes sociais em que os participantes consideram seus relacionamentos intensos/fortes com pessoas que já foram ou são envolvidas com o "mundo do crime" Ambiente Nº de participantes que citaram Ambiente Nº de participantes que citaram 1º Família 02 1º Vizinhança 10 2º Família 06 3º Cense 03 4º Escola 02 ********** ********** Nota-se que os jovens envolvidos não fragilizaram seus laços com as esferas sociais convencionais, pois mantêm contatos com pessoas que estão vinculadas e não vinculadas com o “mundo do crime”. O que está em jogo é de que modo acontece a difusão de conteúdos em suas redes pessoais (circulação de informações, conhecimento, comportamento e atitudes) e de que modo ocorre o reforço para que os conteúdos sejam assimilados (Warr, 1996). Para que se possa demonstrar de que maneira a difusão de conteúdos acontece nas redes pessoais, os sociogramas vistos anteriormente serão reapresentados brevemente abaixo, mas com a informação dos tipos de conteúdo das conversas que circulam nas redes pessoais. Diante desses conteúdos, nota-se quem são os responsáveis em circular conteúdos convencionais e quem são os responsáveis em circular conteúdos voltados ao “mundo do crime”. A ordem dos Tabela elaborada pela própria autora 100 sociogramas seguirá a mesma ordem apresentada no capítulo anterior cuja comparação é dada entre redes pessoais de jovens envolvidos e não envolvidos com o “mundo do crime”. O objetivo de reapresentar os sociogramas é para o leitor ter um parâmetro de como ocorre a circulação de informações convencionais e aquelas voltadas para o “mundo do crime”. No decorrer da apresentação dos sociogramas, nota-se que, embora nas redes pessoais dos jovens envolvidos exista conteúdos ligados à rotina do dia-a-dia, encontra-se também como conteúdo das conversas elementos mais direcionados ao “mundo do crime”. A exposição a este conteúdo somada à força da relação, como a frequência, durabilidade e intensidade, contribui para que os códigos e práticas sociais do “mundo do crime” adquiram legitimidade frente aos jovens envolvidos. Sociograma 12 - Conteúdo da rede - Jovem ABC – Rede Pequena 10 pessoas – Densidade 0,66 - Jovem não envolvido Legenda conteúdo da conversa: 26: Mercado de trabalho/Sobre relacionamentos 6: Sobre relacionamentos 4: Lazer 5: Moda/Música/Filmes/Redes Sociais 15: Rotina escolar/Lazer 26: Mercado de Trabalho/Sobre relacionamentos 13456: Rotina escolar/Religião/Lazer/Sobre relacionamentos Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas 101 Sociograma 13 - Conteúdo da rede – Jovem NR - Rede pequena 05 pessoas – Densidade 0,40 – Envolvido Legenda conteúdo da conversa: 6: Sobre relacionamentos 10: Outros 468:Lazer/Sobre relacionamentos/Atividades com os parceiros: roubo/tráfico 48: Lazer/Atividades com os parceiros: roubo/tráfico 68: Sobre relacionamentos/Atividades com os parceiros: roubo e tráfico Sociograma 14 - Conteúdo da rede - Jovem LK – Rede média 16 pessoas – Densidade 0,54 - Não envolvido Legenda conteúdo da conversa: 16: Rotina escolar/Sobre relacionamentos 45: Lazer/Moda/Música/Filmes/Redes sociais 124:Rotina escolar/Mercado de trabalho/Lazer 146: Rotina escolar/Lazer/Sobre relacionamentos 1246: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Lazer/Sobre relacionamentos 12467: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Lazer/Sobre relacionamentos/Política 12456: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Lazer/Moda/Música/Filmes/Redes sociais/Sobre relacionamentos Elaborado pela própria autora no software Pajek Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas 102 Sociograma 15 - Conteúdo da rede - Jovem LC – Rede média 19 pessoas – Densidade 0,53 - Envolvido Legenda conteúdo da conversa: 6: Sobre relacionamentos 8: Atividades com os parceiros: roubo/tráfico 10: Outros 23: Mercado de trabalho/Religião 56:Moda,Música,Filmes,Redes sociais/Sobre relacionamentos 234: Mercado de trabalho/Religião/Lazer 256: Mercado de trabalho/Moda, música, filmes, redes sociais/Sobre relacionamentos 468: Lazer/Sobre relacionamentos/ Atividades com os parceiros: roubo/tráfico 48: Lazer/Atividades com os parceiros: roubo/tráfico Sociograma 16 - Conteúdo da rede - Jovem THG – Rede grande 30 pessoas – Densidade 0,41 - Não envolvido Legenda conteúdo da conversa: 2: Sobre mercado de trabalho 5: Moda, música, filmes, redes sociais 12: Rotina escolar/Mercado de trabalho 23: Mercado de trabalho/Religião 26: Mercado de trabalho/Sobre relacionamentos 29: Mercado de trabalho/Problemas familiares 124: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Lazer 126: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Sobre relacionamentos 1246: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Lazer/Sobre relacionamentos 1269: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Sobre relacionamentos/Problemas Familiares Elaborado pela própria autora no software Pajek Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas 103 Sociograma 17 - Conteúdo da rede - Jovem RFS – Rede grande - 30 pessoas – Densidade 0,41 – Não envolvido Legenda conteúdo da conversa: 45: Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais 345: Religião/ Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais 456: Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais/Sobre relacionamentos 2457: Mercado de trabalho/ Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais/Política 12345: Rotina escolar/Mercado de trabalho/ Religião/ Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais 12456: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais/Sobre relacionamentos 124567: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais/Sobre relacionamentos/Política 1234567: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Religião/Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais/Sobre relacionamentos/Política Sociograma 18 - Conteúdo da rede - Jovem DC – Rede grande 24 pessoas – Densidade 0,80 - Envolvido Legenda conteúdo da conversa: 3: Religião 4: Lazer 6: Sobre relacionamentos 10: Outros 36: Religião/Sobre relacionamentos 46: Lazer / Sobre relacionamentos 48: Lazer/ Atividades com os parceiros: roubo/tráfico 68: Sobre relacionamentos / Atividades com os parceiros: roubo/tráfico 456: Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais/Sobre relacionamentos 2456: Mercado de trabalho/Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais/Sobre relacionamentos 24568: Mercado de trabalho/Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais/Sobre relacionamentos/ Atividades com os parceiros: roubo/tráfico 4568: Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais/Sobre relacionamentos/ Atividades com os parceiros: roubo/tráfico Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas 104 Sociograma 19 - Conteúdo da rede - Jovem KL – Rede grande 24 pessoas – Densidade 0,43 – Envolvido Legenda conteúdo da conversa: 3: Religião 4: Lazer 6: Sobre relacionamentos 9: Problemas familiares 46: Lazer/Sobre relacionamentos 68: Sobre relacionamentos/ Atividades com os parceiros: roubo/tráfico 468:Lazer/Sobre relacionamentos/Atividades com os parceiros: roubo/tráfico 910: Problemas familiares/Outros 45610: Lazer/Moda, música, filmes e redes sociais/Sobre relacionamentos/Outros Sociograma 20 - Conteúdo da rede - jovem jwe – rede grande 30 pessoas – densidade 0,24 – não envolvido Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda conteúdo da conversa: 3: Religião 12: Rotina escolar/Mercado de trabalho 29: Mercado de trabalho/Problemas familiares 1245: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais 12456: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais/Sobre relacionamentos 123469: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Religião/Lazer/Sobre relacionamentos/Problemas familiares 1234569: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Religião/Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais/Sobre relacionamentos/Problemas familiares 1245679: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais/Sobre relacionamentos/Política/Problemas familiares Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas 105 Sociograma 21 - Conteúdo da rede - Jovem GBN – Rede grande 30 pessoas – Densidade 0,26 – Não envolvido Legenda conteúdo da conversa: 13: Rotina escolar/Religião 16: Rotina escolar/Sobre relacionamentos 26: Mercado de trabalho/Sobre relacionamentos 126: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Sobre relacionamentos 146: Rotina escolar/Lazer/Sobre relacionamentos 246: Mercado de trabalho/Lazer/Sobre relacionamentos 247: Mercado de trabalho/Lazer/Política 249: Mercado de trabalho/Lazer/Problemas familiares 346: Religião/Lazer/Sobre relacionamentos 1246: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Lazer/Sobre relacionamentos 123567: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Religião/Moda, música, filmes, redes sociais/Sobre relacionamentos/Política 124567: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Lazer/Moda, música, filmes, redes sociais/Sobre relacionamentos/Política Sociograma 22 - Conteúdo da rede - Jovem SR – Rede grande 25 pessoas – Densidade 0,24 – Envolvido Elaborado pela própria autora no software Pajek Legenda conteúdo da conversa: 2: Mercado de trabalho 7: Política 10: Outros 16: Rotina escolar/Sobre relacionamentos 29: Mercado de trabalho/Problemas familiares 68: Sobre relacionamentos/Atividades com os parceiros: roubo/tráfico 110: Rotina escolar/Outros 126: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Sobre relacionamentos 146: Rotina escolar/Lazer/Sobre relacionamentos 610: Sobre relacionamentos/Outros 1268: Rotina escolar/Mercado de trabalho/Sobre relacionamentos/ Atividades com os parceiros: roubo/tráfico Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas Legenda cores vértices: Cor azul: pessoas não envolvidas / Cor cinza: pessoas envolvidas 106 A maioria dos estudos que relacionam juventudes e criminalidade tem se dedicado em destacar o papel dos pares como fontes de influência para a prática delinquente, o que as nossas evidências reforçam (Warr, 1996; Haynie, 2001; 2002). Entretanto, um dado significativo é que metade dos 12 jovens envolvidos declaram que pelo menos um ente da família esteve ou ainda permanece envolvido com o “mundo do crime”. Isso significa que as relações frequentes, duradouras e intensas com os familiares envolvidos contribui para circular na rede pessoal do jovem conteúdos mais voltados à associação diferencial. A frequência em que encontra um familiar, as relações duradouras estabelecidas com o mesmo, contribuem para que o jovem esteja exposto a esse conteúdo desde a infância, que combinados ao apego familiar, reforça a assimilação dos conteúdos da associação diferencial. Além da família, foram encontradas nas redes dos jovens envolvidos muitas pessoas envolvidas declaradas como vizinhas. Residir muito tempo em um mesmo bairro ou região de moradia, encontrar frequentemente amigos envolvidos que também residem nos mesmos locais, considerar o relacionamento estabelecido com eles como forte, bem como estar exposto ao conteúdo do “mundo do crime”, são elementos importantes para aproximar os jovens dos códigos e práticas sociais desse contexto. O acúmulo de amigos ao longo dos anos e a participação dos mesmos em associações diferenciais contribuem para a inserção dos jovens neste universo, corroborando com os achados de Warr (1996) quando relaciona tempo de amizade e práticas delinquentes. É diante desse contexto das relações com a vizinhança que foi encontrado nas redes pessoais de todos os jovens participantes da pesquisa a forte presença de seus pares de amizade. Contudo, a tabela 2 abaixo mostra que as redes densas concentradas em uma mesma faixa etária foi uma característica dos jovens envolvidos, sugerindo a presença de homofilia por faixa etária neste grupo, pois indica que os jovens gostam de estar com seus pares, em razão de estarem vivenciando experiências e sensações muito específicas desta fase da vida, como a própria construção da identidade e visões de mundo (Haynie, 2001). Em comparação, a alta densidade de rede por faixa etária não foi tão significativa no grupo dos jovens não envolvidos. Isso sugere que seus pares estão distribuídos em diferentes locais nas redes analisadas. Já os laços de amizade dos jovens envolvidos estão altamente concentrados em um mesmo bairro, o que explica a alta densidade por faixa etária. Para sistematizar estes dados, foram elaboradas duas tabelas para demonstrar as 107 informações sobre faixa etária, região de moradia e vizinhança, que compõem as redes dos jovens e a relação com o “mundo do crime” (tabelas 2 e 3, a seguir). A tabela 3 mostra que os dois grupos possuem redes densas quanto à região de moradia e vizinhança, ou seja, que quase todos os contatos pertencentes a esse segmento da rede se conhecem. Todavia, a diferença entre os dois grupos é que os jovens não envolvidos estabelecem laços com pares de outros locais, que não necessariamente se conhecem entre si. Em relação aos jovens envolvidos, além de declararem um maior número de pessoas como vizinhas, foi encontrado forte presença de vizinhos envolvidos em atividades de roubo e tráfico de drogas. No grupo dos não envolvidos, somente um jovem mencionou que tem um familiar que já foi envolvido e que reside na mesma região de moradia. Da média de 25 pessoas declaradas como contatos sociais dos jovens não envolvidos, 17 delas residem na mesma região de moradia, tendo a média de 2,76 pessoas declaradas como vizinhas pelos participantes. Nota-se que, embora os jovens não envolvidos concentrem seus relacionamentos na mesma região de moradia, eles não mantêm estes relacionamentos restritos ao bairro. Já a média de 15 pessoas declaradas como contatos sociais dos jovens envolvidos, 10 delas residem na mesma região de moradia, sendo 6 declaradas como vizinhas. Das 6 pessoas declaradas como vizinhas, 3,9 atuam no roubo e tráfico de drogas. Tabela 2 - Média de número de pessoas e densidade por faixa etária - 12-29 anos Envolvimento Média Desvio padrão Não envolvidos NTOTALredepessoal 25,2308 6,82097 Número de pessoas faixa etária 12-29 anos 17 6,788942745 Densidade por faixa etária 12-29 anos 0,35 0,12470992 Envolvidos NTOTALredepessoal 15,6667 8,02647 Número de pessoas faixa etária 12-29 anos 9 4,66125227 Densidade por faixa etária 12-29 anos 0,52 0,232696642 Tabela elaborada pela própria autora 108 Tabela 3 - Média de número de pessoas declaradas e densidade de rede - Região de moradia, vizinhança do participante e envolvimento Envolvimento Média Desvio padrão Não envolvidos NTOTALredepessoal 25,2308 6,82097 Qtde de pessoas declaradas da mesma região de moradia 17,6923 6,29000 Densidade da rede da região de moradia participante 0,45 0,12478 Número pessoas envolvidas por região de moradia 0,0769 0,27735 Número de pessoas vizinhas do participante 2,76 2,047513 Número de pessoas envolvidas vizinhas do participante 0 0 Densidade da rede – relações com vizinhança 0,59 0,457939 Envolvidos NTOTALredepessoal 15,6667 8,02647 Qtde de pessoas declaradas da mesma região de moradia 10,5833 8,0392 Densidade da rede da região de moradia participante 0,50 0,32209 Número pessoas envolvidas por região de moradia 4,5833 3,91868 Número de pessoas vizinhas do participante 6,58 5,648143 Número de pessoas envolvidas vizinhas do participante 3,91 3,80092 Densidade da rede - relações com vizinhança 0,61 0,397786 As medidas de alta densidade de rede por região de moradia e vizinhança parecem revelar um tipo de homofilia, ou seja, que a similaridade territorial entre as pessoas gera conexão. Há uma tendência das pessoas de se associarem com outras pessoas que são semelhantes, sendo a identidade territorial nesse caso relevante, além de estar atrelada às condições socioeconômicas: jovens com pouco poder aquisitivo, residente em determinados locais da cidade, terão dificuldades de mobilidade para o lazer e entretenimento, por exemplo. Diante disso, temos um problema de rede altamente homofílica quanto ao local de moradia, sobretudo com referência aos jovens envolvidos, situação que não oportuniza aos mesmos a circulação de conteúdos que amplie o acesso a recursos quanto ao mercado de trabalho, escolaridade e diversidade de socialização. Quanto aos jovens não envolvidos que responderam sobre a presença de pessoas que já foram envolvidas, embora apresentem concentração de relacionamentos em suas regiões de moradia, Tabela elaborada pela própria autora 109 no quadro anterior nota-se relações mais diversificadas, para além da família e da vizinhança, o que reforça os achados dos estudos que discutem as características de redes sociais como mecanismos de reprodução de desigualdades sociais e restrição de oportunidades (Marques et al, 2012). Portanto, uma parte da literatura internacional tem discutido que a inserção de jovens em conflito com a lei em redes densas ocorre em razão de se identificarem com aqueles que tem comportamentos parecidos quanto às infrações ou crimes. Uma outra parte de pesquisadores defendem que a alta densidade está atrelada às forças estruturais que restringem as pessoas de se movimentarem, porém, esta perspectiva está ainda muito restrita à análise do universo escolar. O que as evidências deste presente estudo mostram é que estar restrito ao bairro pode limitar os jovens de se movimentar pela cidade, já predeterminando assim quem vai ser os seus amigos e as informações que estarão sujeitos. Esta tese contribui com essas pesquisas, pois argumenta-se que as amizades podem ser geradas devido à proximidade em que as pessoas estão dispostas em um determinado espaço, que no caso seria morar em um mesmo bairro. Por outro lado, os achados parecem contrariar o argumento de que jovens em conflito com a lei escolhem estar com amigos parecidos com eles. Nota-se que há uma condição estrutural para isso. Quanto mais restrito o jovem está em um determinado espaço, mais pressões ele sofrerá do grupo (Haynie, 2001; 2022; Weerman, 2011). As referências quanto a atitudes, comportamentos, visões de mundo, serão sempre redundantes, pois o universo fechado não permite qualquer contato com a novidade. Isso significa que os conteúdos que estão atrelados a esse contexto chegam ao jovem quando os amigos conversam sobre esses conteúdos, como as ações e comercialização, cuidados quanto à polícia, festas relacionadas às parcerias e os códigos de conduta, por exemplo. No universo denso de relacionamentos em que o código do “mundo do crime” circula, somando-se à intensidade da relação com a rede de amizades e familiar, o reforço para a associação diferencial acontece. Vimos que parte da literatura brasileira discute a questão de o “mundo do crime” ser uma acepção nativa que engloba códigos e práticas sociais entre os participantes desse universo. Também é discutido pela literatura a respeito das fronteiras do “mundo do crime”, fazendo indagar como jovens em um mesmo contexto, tendo contato com essas dinâmicas se diferenciam em suas trajetórias quanto ao 110 envolvimento ou não. Em linha com a teoria da Associação Diferencial, pode-se entender o envolvimento no “mundo do crime” como uma forma de associação diferencial, sendo que a inserção não é resultado de fatores individuais, mas um processo complexo que engloba aprendizado. Quanto mais exposto aos códigos e práticas sociais do “mundo do crime”, mais chances um jovem tem de se estabelecer nesse universo, sobretudo se não obtém outras perspectivas, se os relacionamentos estão mais sujeitos a esse tipo de sociabilidade. Somando-se a isso, os resultados desta pesquisa informam que estar restrito dentro de um espaço em que o conteúdo do “mundo do crime” se faz mais presente, como o bairro, a assimilação desses conteúdos ocorre de forma mais efetiva. Mas, e os jovens que estão sob as mesmas condições e não se envolvem? De acordo com as informações apresentadas, isso vai variar conforme o nível de exposição a esses conteúdos. O fato de haver ou não exposição à diversidade de socialização e troca de informações e conhecimento faz diferença. Um ponto importante que as evidências mostram é a permanência e a qualidade das relações dentro da escola, pois essa proporciona o contato com a diversidade de informações e a troca de conhecimento que auxilia na vida pessoal e social. Mesmo o jovem frequentando poucos ambientes sociais, o fato de frequentar a escola é um fator relevante para o distanciamento do “mundo do crime”. Nesse sentido, a associação diferencial é mais provável de acontecer na vizinhança, com jovens que abandonaram a escola. Finalmente, para compreender de que modo ocorre a assimilação de práticas do “mundo do crime” e de práticas convencionais, na próxima seção será discutido que, além de força, os contatos das redes pessoais possuem funções na vida dos jovens, restando compreender de que modo as funções se desenvolvem e contribuem para a aproximação ou distanciamento da associação diferencial. 5.2 A FUNÇÃO DAS REDES Propõe-se analisar quatro categorias que representam a função das redes pessoais dos jovens participantes: 1) acolhimento, que considera quem, dentre os contatos sociais, escuta e acolhe o jovem em momentos difíceis e de tristeza; 2) valorização e reforços positivos, que indica quais contatos sociais elogiam o entrevistado diante de algum feito; 3) apoio instrumental e financeiro, quem considera qual contato social apoia o jovem financeiramente ou com outros bens materiais; e, 111 por fim, 4) avaliação e monitoramento, que capta quem, na rede pessoal do jovem, cumpre a função de ajudar a resolver problemas e advertir o jovem diante de situações reprováveis. Para sistematizar os dados, assim como na seção anterior, os contatos sociais foram vinculados aos ambientes sociais de referência. Desse modo, foi elaborado um ranking dos ambientes mais mencionados, que compõem a função da rede pessoal dos respondentes, de acordo com as seguintes dimensões: “ambientes sociais em que os sujeitos se sentem acolhidos”; “ambientes sociais em que os sujeitos recebem valorização e recompensas”; “ambientes sociais em que os sujeitos recebem apoio instrumental e financeiro”; “ambientes sociais em que os sujeitos são monitorados e recebem advertências quanto a atitudes reprováveis”. Veja o quadro 9 a seguir com estas informações. Além dessa sistematização geral dos dados, através do questionário foi possível descobrir quem são os contatos sociais dos jovens envolvidos que também estão vinculados ao “mundo do crime” e que cumprem algum tipo de função em suas redes pessoais. Desse modo, foi possível identificar qual é o papel dessas pessoas envolvidas na vida dos jovens. Posteriormente, vinculamos essas pessoas aos ambientes sociais de pertencimento. Desse modo, foi mantida a mesma estrutura de organização dos dados, mas acrescentando-se às dimensões apreciadas as características de função da rede somadas à informação de envolvimento do contato social, tais como: “ambientes sociais em que os participantes se sentem acolhidos por pessoas que já foram ou são envolvidas com o “mundo do crime””; “ambientes sociais em que os participantes recebem reforços positivos por pessoas que já foram ou são envolvidas com o “mundo do crime””; “ambientes sociais em que os participantes recebem apoio instrumental/financeiro de pessoas que já foram ou são envolvidas com o “mundo do crime””; e “ambientes sociais em que os participantes recebem advertências por atitudes reprováveis por pessoas que já foram ou são envolvidas com o “mundo do crime””. Destaca-se a importância de conectar os contatos do "mundo do crime" a um contexto de sociabilidade, para mostrar que os indivíduos com quem os jovens se associam nesse universo são figuras que fazem parte de sua rotina, especialmente presentes em ambientes sociais como a família, a comunidade e a escola. Essas informações estão apresentadas no quadro 10. 112 Quadro 9 - Ambientes sociais e a função desempenhada nas redes pessoais dos jovens Dimensões Ranking de ambientes de sociabilidade citados Não envolvidos (13 participantes) Envolvidos (12 participantes) Ambientes sociais em que os sujeitos se sentem acolhidos Ambiente Nº de participante s que citaram Ambiente Nº de participante s que citaram 1º Família 12 1º Família 9 2º Vizinhança 8 2º Vizinhança 5 3º Escola 8 3º Escola 3 4º Guarda Mirim 6 4º Religião 1 5º Trabalho 5 ********** ********** 6º Religião 2 ********** ********** Ambientes sociais em que os sujeitos recebem elogios / reforços positivos Ambiente Nº de participante s que citaram Ambiente Nº de participante s que citaram 1º Família 12 1º Família 10 2º Escola 11 2º Vizinhança 7 3º Guarda mirim 10 3º Religião 3 4º Vizinhança 9 3º Escola 3 5º Trabalho 7 4º Cense 2 6º Religião 3 4º Trabalho 2 Ambientes sociais em que os sujeitos recebem apoio instrumental / financeiro Ambiente Nº de participante s que citaram Ambiente Nº de participante s que citaram 1º Família 11 1º Família 9 2º Escola 8 2º Vizinhança 5 3º Guarda mirim 4 3º Escola 1 4º Vizinhança 3 ********** ********** 5º Trabalho 1 ********** ********** 6º Religião 1 ********** ********** Ambientes sociais em que os sujeitos são monitorados e recebem advertências quanto a atitudes reprováveis Ambiente Nº de participante s que citaram Ambiente Nº de participante s que citaram 1º Família 13 1º Família 11 2º Escola 12 2º Vizinhança 9 3º Vizinhança 10 3º Religião 4 4º Guarda mirim 9 4º Trabalho 3 5º Religião 5 5º Escola 2 6º Trabalho 3 ********** ********** Quadro elaborado pela própria autora 113 Quadro 10 - Ambientes sociais e a função desempenhada nas redes pessoais dos jovens por pessoas envolvidas com o “mundo do crime” Dimensões Ranking de ambientes de sociabilidade citados Não envolvidos (13 participantes) Envolvidos (12 participantes) Ambientes sociais em que os sujeitos se sentem acolhidos por pessoas por pessoas que foram ou são envolvidas com o "mundo do crime" Ambiente Nº de participantes que citaram Ambiente Nº de participantes que citaram 1º Família 04 2º Vizinhança 03 3º Escola 01 1º Família 1 ********** ********** ********** ********** ********** ********** Ambientes sociais em que os sujeitos recebem elogios / reforços positivos por pessoas por pessoas que foram ou são envolvidas com o "mundo do crime" Ambiente Nº de participantes que citaram Ambiente Nº de participantes que citaram 1º Vizinhança 05 2º Família 04 3º Cense 02 1º Família 1 4º Escola 01 ********** ********** ********** ********** Ambientes sociais em que os sujeitos recebem apoio instrumental / financeiro por pessoas por pessoas que foram ou são envolvidas com o "mundo do crime" Ambiente Nº de participantes que citaram Ambiente Nº de participantes que citaram 1º Vizinhança 5 2º Família 3 3º Escola 1 1º Família 1 ********** ********** ********** ********** ********** ********** Ambientes sociais em que os sujeitos são monitorados e recebem advertências por pessoas que foram ou são envolvidas com o "mundo do crime" Ambiente Nº de participantes que citaram Ambiente Nº de participantes que citaram 1º Vizinhança 5 2º Família 4 1º Família 1 ********** ********** ********** ********** ********** ********** ********** ********** Quadro elaborado pela própria autora O quadro 9 mostra que pessoas da família foram as mais citadas por ambos os grupos quanto à função de acolher, de reforçar positivamente algum feito, de apoiá- los materialmente e de auxiliá-los a resolver problemas, bem como adverti-los diante de atitudes reprováveis. Isso mostra que pessoas da família são referências importantes para os jovens que colaboraram com a pesquisa, independente da condição de envolvimento. Entretanto, as disparidades entre os grupos se manifestam quando se analisa as interações com indivíduos de diferentes contextos sociais, bem 114 como a presença de pessoas ligadas ao “mundo do crime” que também desempenham funções nas redes sociais dos jovens envolvidos, conforme exposto no quadro 10. Para melhor organização, os dados referentes aos dois quadros expostos nesta seção sobre a função da rede serão analisados nas seções seguintes de acordo com a divisão das categorias: acolhimento, reforços positivos, apoio material e monitoramento. 5.2.1 O Acolhimento Em relação ao acolhimento dos jovens, tanto o grupo dos não envolvidos como o grupo dos envolvidos, a família, a vizinhança e a escola aparecem em 1º, 2º e 3º lugar, respectivamente, como os locais mais citados pelos jovens onde há pessoas que os acolhem em momentos difíceis. Os pontos mais destacados nas entrevistas são aqueles ligados a problemas emocionais de origem amorosa, a problemas familiares e a problemas financeiros. Em relação ao grupo dos não envolvidos, dos 13 participantes, 12 deles relataram que se sentem acolhidos por familiares em momentos difíceis, ao passo que, dos 12 jovens envolvidos, nove deles relataram receber este acolhimento. Entretanto, quatro destes jovens envolvidos mencionaram que são acolhidos por familiares com experiência no “mundo do crime” que, geralmente, tratava-se de irmãos mais velhos ou primos. Por outro lado, a vizinhança ocupa o 2º lugar no ranking para os dois grupos, sendo que oito jovens não envolvidos declararam a sensação de acolhimento dentro da vizinhança, ao passo que cinco dos jovens envolvidos citaram pessoas da vizinhança que cumprem essa função. Desses cinco jovens, três deles mencionaram pessoas envolvidas com o “mundo do crime” que os acolhem na vizinhança. Já a escola aparece empatada com a vizinhança quanto ao acolhimento dos jovens não envolvidos, sendo citada por 8 jovens. A escola não supre a necessidade de acolhimento de todos os jovens não envolvidos, sendo compensada pela Guarda Mirim, trabalho e religião, ocupando o 4º, 5º e 6º lugar, respectivamente, o que mostra que os jovens não envolvidos possuem diferentes lugares em que podem se sentir acolhidos. Em relação aos jovens envolvidos, o número de citações em torno da escola como espaço de acolhimento é menor, ao comparar com o outro grupo, em razão da 115 evasão escolar, conforme visto nas seções anteriores. No entanto, a escola é citada como um espaço de acolhimento por três jovens envolvidos, mostrando que é um ambiente social importante para esses participantes na época da entrevista. Por outro lado, os dados mostram que um dos jovens cita um amigo envolvido, proveniente da escola em que estava frequentando antes de ser apreendido. Em relação aos dois grupos, a religião como um espaço acolhedor foi o menos citado. Os dados revelam poucos espaços de acolhimento para os jovens envolvidos, ao comparar com os espaços declarados pelos jovens não envolvidos. O acolhimento retrata o modo pelo qual ocorre a afeição dos jovens em relação a essas diferentes esferas sociais, sendo essa categoria inspirada na Teoria do Controle Social. As informações revelam um paradoxo. Por um lado, concorda-se com essa perspectiva ao indicar que estar envolvido com o “mundo do crime” diminui o sentimento de acolhimento em relação aos diferentes ambientes sociais, que são importantes no processo de socialização. Mas os dados também contrariam essa perspectiva ao revelar que os jovens envolvidos possuem afeição pelos familiares, que são figuras centrais em suas redes pessoais. O que a perspectiva ignora é que, dentro do âmbito familiar, podem existir pessoas ligadas ao “mundo do crime” e diante das quais os sujeitos nutrem estima. É nesse processo de se sentir acolhido que o jovem constrói confiança em relação aos seus familiares, sendo estes, muitas vezes, a única referência. Por isso, alguns participantes relatam se sentir apoiados por parentes que já vivenciaram a experiência no “mundo do crime”. Se sentir acolhido e próximo de pessoas envolvidas com o “mundo do crime” é relevante como um impulso para viver também essa experiência. É válido ressaltar que, geralmente, esses familiares estão inseridos nas dinâmicas do próprio bairro, conhecendo pessoas e fazendo parte de histórias que o entrevistado vai tomando nota. Os familiares envolvidos vivenciaram o mesmo processo que os jovens vivenciam, que é a redundância de conteúdos ligados ao “mundo do crime”, não tendo outras perspectivas para além desses códigos e práticas. É importante destacar que, ao comparar com o cenário apresentado na seção anterior que examina a intensidade das relações, observou-se que, a maioria dos jovens consideraram seus relacionamentos fortes, mas agora houve uma diminuição considerável no número de participantes que não se sentem acolhidos por esses mesmos vínculos. Um número expressivo de participantes do grupo dos envolvidos consideraram os vizinhos integrados ao “mundo do crime” como relacionamentos 116 fortes, seguidos de pessoas da família. Entretanto, ao observar a função que cumprem em suas redes pessoais, parece não corresponder com a consideração dada pelos mesmos, ou seja, podem considerar como forte um relacionamento, gostar muito de determinadas pessoas, mas não sentem que são acolhidos suficientemente por elas em momentos difíceis. Por outro lado, sabendo que no universo do “mundo do crime” a busca pela masculinidade é bastante valorizada, a explicação para isso pode estar no fato de que não seria bem visto pelos parceiros. A intensidade das emoções do jovem pode ser afetada caso ele fique desanimado devido a um relacionamento amoroso que não deu certo, a problemas familiares ou a desentendimentos com alguém. No decorrer das entrevistas com os jovens internos do CENSE, o momento pelo qual alguns passavam foi crucial para que os mesmos não se sentissem acolhidos, pois observou-se o sentimento de rejeição em relação ao grupo de amigos e pelos familiares que não compareciam nas visitas de finais de semana. 5.2.2 O Monitoramento Uma outra categoria inspirada na Teoria do Controle Social foi a de “monitoramento”. Essa categoria foi pensada no sentido de que os laços sociais são fundamentais para que os jovens internalizem as regras convencionais. Assim, quanto mais forte os laços sociais, melhor os pais monitoram seus filhos, conforme discutido no capítulo anterior. Frente a isso, essa categoria também foi pensada considerando a disposição dessas pessoas em advertir o jovem quando ele se encontra em situações reprováveis. Os casos de advertências mais citados foram em relação ao fato de ser rude em algum momento com as pessoas, ou problemas de relacionamento de um modo geral; ao fato de não avisar os responsáveis sobre aonde está indo; problemas com o comportamento ou desempenho escolar; atitudes que contrariam os ensinamentos religiosos; tarefas executadas no trabalho que merecem mais atenção. Todos os jovens envolvidos relataram que os responsáveis advertem quanto à participação no “mundo do crime”, demonstrando preocupação. Assim, pessoas da família contribuem com o monitoramento dos jovens, ocupando o 1º lugar do ranking, sendo citada por todos os jovens do grupo dos não envolvidos, enquanto 11 dos 12 jovens do grupo dos envolvidos citaram esse ambiente social. Destes 11, 4 citaram pessoas da família que são integradas ao “mundo do crime” que desempenham esse papel de monitoramento. Assim, mesmo 117 que os códigos do “mundo do crime” estejam presentes no ambiente familiar, os jovens relatam que os parentes que viveram essa realidade recomendam que não trilhem o mesmo caminho. Do mesmo modo, em 2º lugar os jovens envolvidos citam a vizinhança, declarada por 9 jovens. Destes, 5 declararam serem monitorados por vizinhos integrados ao “mundo do crime”. Nesse caso, o monitoramento não está relacionado às regras convencionais, mas está voltado à associação diferencial. Pessoas da vizinhança, envolvidas com o “mundo do crime”, monitoram os jovens envolvidos em relação às suas ações diante da polícia; as atitudes com os parceiros; em relação ao controle de caixa; as relações com a vizinhança; a assiduidade no tráfico, etc. Nesse sentido, para que a coesão das regras seja efetivada, o monitoramento nesse contexto é constante. Em outros termos, os laços fortalecidos também contribuem para a associação diferencial, uma vez que o monitoramento mantém o compromisso dos jovens em não desapontar seus parceiros. O monitoramento, portanto, é uma dimensão central para o próprio funcionamento do “mundo do crime”. Já em relação aos jovens não envolvidos, o monitoramento está continuamente relacionado às regras convencionais e, conforme foi observado no capítulo anterior, os responsáveis conhecem e participam da rotina dos filhos. Isso não implica que entre os envolvidos esse tipo de participação não ocorra; a questão está nos ambientes em que dispõem de conteúdos e referências de associação diferencial que se tornam repetitivos, impedindo o acesso a outras perspectivas. 5.2.3 O Apoio Financeiro/Material No referencial bibliográfico desta tese não há nenhuma menção sobre o apoio financeiro que os jovens recebem nos grupos sociais em que circulam. Neste estudo, entende-se como apoio financeiro/material aquela ajuda em dinheiro ofertada aos jovens para que possam acessar serviços e adquirir produtos como tecnologias, vestuário, dentre outros bens de consumo. Os participantes da pesquisa relataram algumas situações nas quais recebem esse tipo de apoio, como, por exemplo, quando não têm dinheiro para sair com os amigos; para utilizar o transporte público; para o lanche na escola; para comprar vestuários, alimentos, remédios, materiais relacionados à escola e smartphones. Em ambos os grupos pesquisados o apoio financeiro/material geralmente é ofertado pela família. Dos 13 jovens não envolvidos, 11 recebem esse tipo de apoio, 118 ao passo que dos 12 jovens envolvidos, 09 recebem esse apoio familiar. Dessas 09 pessoas, 03 são envolvidas. Os jovens não envolvidos também encontram esse apoio na escola, ocupando o 2º lugar no ranking, já os jovens envolvidos encontram esse apoio na vizinhança, correspondendo a 05 declarações, todas essas atreladas aos parceiros do “mundo do crime”. Pessoas da escola que ofertam apoio financeiro aos jovens envolvidos foram declaradas por somente um jovem e essa mesma pessoa também integra o “mundo do crime”, ocupando o 3º lugar do ranking. Para além da escola não há mais declarações por parte dos jovens envolvidos de pessoas que os ajudam financeiramente, ao passo que para os jovens não envolvidos há menções a pessoas da Guarda Mirim (3º lugar – citada por 04 jovens); pessoas da vizinhança (4º lugar – citadas por 03 jovens); pessoas relacionadas ao trabalho (5º lugar – citadas por 1 jovem); e pessoas da religião (6º lugar – citadas por 1 jovem). É relevante acessar essas informações sobre o auxílio material pois representa uma forma de cuidado, gerando também sentimentos de afeto. O apoio material é direcionado aos momentos de entretenimento, ao suporte necessário para seguir com projetos pessoais e, também, como sobrevivência. Embora haja mais declarações de esferas sociais que ofertam auxílio aos jovens não envolvidos, nota-se que as menções diminuem drasticamente após a declaração da escola. Isso significa que os dois grupos analisados têm pouco apoio financeiro em relação às suas necessidades, indicando que a família é o principal alicerce frente às demandas dos jovens. Um outro ponto a destacar são as menções feitas por parte dos jovens envolvidos de pessoas que integram o “mundo do crime” e que lhes servem de apoio financeiro, sugerindo que esse contexto auxilia aqueles que passam por algum tipo de crise financeira familiar, problemas que se somam à evasão escolar e a desintegração juvenil do mercado de trabalho. 5.2.4 As Recompensas A elaboração de uma categoria analítica relacionada às recompensas direcionadas aos jovens foi inspirada nas teorias da associação diferencial/aprendizagem social (Sutherland, 1955; Warr, 1996). Entende-se que além da exposição às práticas convencionais ou de associação diferencial, há uma dinâmica nas redes sociais dos jovens que reforça a aquiescência das regras do “mundo do crime”, ou não. A recompensa compõe essa dinâmica. 119 As recompensas compreendem os momentos nos quais os jovens recebem prêmios, elogios, aprovações, valorização de algo que tenham conseguido ou feito. Isso se resume em aprovação de ano na escola ou ter o desempenho elogiado pelos professores; consumir produtos relacionados à moda (tecnologias, veículos e vestuário); realizar um novo corte de cabelo, ou outros elementos que envolvem a aparência física; conseguir uma vaga de emprego; ser gentil com alguém e contribuir com a renda da família. A ostentação de produtos como vestuários, calçados, veículos é um tipo de comportamento atrativo no “mundo do crime” que recebe reconhecimento dos parceiros. Para ambos os grupos, os familiares são fundamentais em direcionar recompensas aos jovens. Dos 13 jovens não envolvidos, 12 declararam receber este tipo de valorização de seus familiares. Já em relação ao grupo dos envolvidos, dos 12 participantes, 10 declararam serem recompensados de alguma forma, porém 04 destes mencionaram serem recompensados por familiares envolvidos com o “mundo do crime”. Quanto à escola, 11 jovens não envolvidos declararam pessoas desse contexto como aquelas que carregam a tarefa de valorizá-los, ocupando o 2º lugar no ranking. Já para os jovens envolvidos, a escola ocupa o 3º lugar no ranking, sendo citada por somente 3 jovens, sendo que 1 deles declarou que seus feitos são recompensados por um amigo envolvido que frequenta a mesma instituição. O 3º lugar no ranking dos jovens não envolvidos foi ocupado pela Guarda Mirim, citada por 10 dos 13 participantes. A vizinhança ocupou o 2º lugar do ranking dos jovens envolvidos, pois de 12 jovens, 07 declararam que pessoas da vizinhança costumam dirigir-lhes algum tipo de recompensa, sendo que 05 dessas pessoas são envolvidas com o “mundo do crime”, ao passo que a vizinhança foi citada por 9 dos 13 participantes não envolvidos. O trabalho ocupou o 5º lugar no grupo dos não envolvidos, sendo citado por 07 jovens, ao passo que esse ambiente social ocupa o 4º lugar no grupo dos envolvidos, posição também ocupada pelo CENSE, sendo citados por 2 jovens. Por fim, a religião ocupou o 6º lugar no ranking do grupo dos não envolvidos, pois 3 dos 13 participantes mencionaram pessoas ligadas à religião como importantes para direcionar reconhecimento diante de algum feito. Já entre os jovens envolvidos, a religião foi citada por 3 deles, ocupando o 3º lugar conjuntamente com a escola. Os jovens não envolvidos estão mais expostos às práticas convencionais e são recompensados com base nessas práticas. Pode haver ruídos em suas redes sociais diante da presença de amigos, familiares, com experiência no “mundo do crime”, mas 120 diante dessa exposição não há reforços suficientes para que se insiram nesse universo. Porém, as regras convencionais também chegam aos jovens envolvidos. Recebem incentivos, especialmente dos familiares, ao falarem sobre suas tentativas de abandonar o "mundo do crime" ou ao expressarem o desejo de retomar os estudos ou conseguir um emprego formal. Ao mesmo tempo, quando alguns desses jovens buscam ajudar com a renda da casa, os familiares reagem com reprovação (condenando as ações e recusando o dinheiro), já que os recursos provêm do tráfico de drogas. Ademais, quando são apreendidos, as visitas dos familiares ao jovem nas instituições de socioeducação costumam diminuir ou não acontecer, funcionando como uma punição. Além de entrarem em contato com os códigos e costumes sociais convencionais, os jovens que aderiram ao “mundo do crime” se inserem nesse contexto recebendo recompensas de círculos sociais que, a priori, deveriam afastá- los desse universo. Os dados mostraram que, dentro da família, da vizinhança e da escola existem pessoas envolvidas que possuem a função de recompensar os jovens diante de seus feitos atrelados às práticas de associação diferencial. Por exemplo, durante a pesquisa de campo, os jovens envolvidos contavam que nas atividades do tráfico ganhavam dinheiro para ostentar vestimentas, calçados, veículos, nem que seja por um curto espaço de tempo. Nessa linha, conseguem conquistar mulheres e serem bem vistos face aos parceiros. Somando-se a isso, o jovem que, mesmo sofrendo violência policial, ao ser apreendido e retornar ao “mundo do crime”, será visto como “monstro” pelos parceiros, ou seja, alguém corajoso e resistente. Em suma, recebem elogios dos parceiros quando conseguem manter o tráfico de modo organizado, ao fechar o caixa corretamente, saber lidar com os enquadramentos policiais, a lidar no relacionamento com os companheiros e saber como agir no atendimento aos clientes. Comparando com os dados de acolhimento, nota-se que as pessoas envolvidas da vizinhança se fazem mais presentes para recompensar o jovem em vez de acolhê-lo. A recompensa é necessária para reforçar os códigos e práticas sociais do “mundo do crime”. Frequentemente o jovem circula por ambientes como a família, a vizinhança e o CENSE. Em tais contextos os códigos do “mundo do crime” se manifestam, além de haver vantagens ao agradar os companheiros, os referenciais desse meio serão fortalecidos, não deixando alternativas além desse ciclo repetitivo. 121 Percebe-se que os sujeitos da pesquisa mantêm vínculos com indivíduos que direcionam recompensas. Contudo, há uma discrepância em relação à quantidade de declarações feitas que é inferior no grupo dos envolvidos, sugerindo que esse grupo recebe menos recompensas em seus feitos quando comparado com o grupo dos não envolvidos. Parte dessas recompensas quando recebidas provém do “mundo do crime”. Apesar da disparidade entre os dois grupos quanto às declarações feitas em relação à escola, trabalho e contraturno escolar, as poucas menções dadas pelos jovens envolvidos à escola e ao trabalho como locais que os incentivam, mostram uma situação ambígua. Por um lado, isso evidencia o problema de evasão escolar e o distanciamento desses jovens do mercado de trabalho; por outro, revela que alguns deles, ao ainda frequentar esses locais, podem receber referências positivas, desde que haja diversificação no conteúdo que compõe a comunicação nesses espaços. Se no espaço ainda persiste o contato com os códigos e práticas sociais do “mundo do crime” e para o jovem isso é reforçado, a educação escolar não surtirá efeito, o que também é válido para as outras esferas sociais. 122 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta tese foi desenvolvida para responder à seguinte questão de pesquisa: de que modo as redes de contatos pessoais dos jovens que estão ou não envolvidos com o “mundo do crime” se diferenciam e podem auxiliar na compreensão do envolvimento ou não envolvimento com esse contexto? Buscou-se responder a essa questão pautando-se na Teoria do Controle Social e na Teoria da Associação Diferencial. Como foi apresentado, a Teoria do Controle Social enfatiza a importância de fortalecer os vínculos sociais para entender por que os jovens se afastam de comportamentos delinquentes. Esse fortalecimento acontece quando os jovens se sentem valorizados e acolhidos, ao perceberem que são significativos para figuras de autoridade e, assim, desejam não desapontá-las. Além disso, também ocorre quando preenchem seu tempo livre de maneira produtiva e se afastam de atividades desestruturadas, moldando, desse modo, suas crenças de acordo com normas convencionais. Por outro lado, a Teoria da Associação Diferencial sustenta que a aprendizagem dos códigos e práticas sociais delinquentes ocorre da mesma maneira em que ocorre o aprendizado dos códigos e práticas sociais convencionais, sendo necessária a imersão do indivíduo nesse contexto. Sob essa perspectiva, a imersão do indivíduo acontece com base na durabilidade, frequência e intensidade de sua relação com os outros. Em outras palavras, a proximidade dos laços sociais é um fator relevante para a adesão aos códigos e práticas das associações diferenciais. Utilizando a Análise de Redes Sociais como ferramenta analítica, pesquisadores tem desenvolvido estudos para avaliar as predições da Teoria do Controle Social e da Teoria da Associação Diferencial. Esta pesquisa teve como intuito contribuir com este debate. Assim, a primeira hipótese, referente à multiplexidade, sugere que na rede social dos adolescentes não envolvidos, um contato social quando circula em várias esferas de sociabilidade – especialmente figuras de autoridade –, facilita o monitoramento dos jovens (como os familiares, por exemplo). Isso gera um impacto considerável que desestimula esses jovens a se envolver no "mundo do crime". Em contraste, os jovens que estão envolvidos possuem uma rede social onde essa característica não é prevalente. Os resultados desta pesquisa corroboraram com essa hipótese. Assim, observou-se a multiplexidade nas redes pessoais dos jovens não envolvidos, o que indica que esses jovens transitam por vários contextos sociais, 123 diferenciando-os dos seus pares que estão envolvidos. Por outro lado, na rede pessoal dos jovens envolvidos, a presença de multiplexidade é mais limitada, visto que a variedade de ambientes sociais em que estão inseridos é bem reduzida. A hipótese da centralidade sugere que nas redes sociais dos jovens existem muitos amigos que ocupam posições centrais, sendo conhecidos por um número elevado de integrantes dessa rede. Esses amigos centrais funcionam como referências para os participantes, fortalecendo os vínculos entre eles. Alguns deles desempenham o papel de intermediários, disseminando informações ligadas ao “mundo do crime” ou a aspectos convencionais. A expectativa era identificar uma diferença nas redes, relacionada ao tipo de conteúdo que esses indivíduos centrais compartilham: se está associado ao "mundo do crime" ou a comportamentos convencionais. Os resultados não confirmaram essa expectativa. Nas redes pessoais, os familiares se destacaram como figuras centrais, tanto entre os jovens não envolvidos quanto entre os envolvidos. Essa centralidade dos familiares nas redes dos jovens não envolvidos está alinhada com a literatura relacionada à Teoria do Controle Social, que sugere que essas pessoas atuam como referências positivas para os jovens, um fenômeno que já observamos nos efeitos da multiplexidade das redes. Entretanto, esse padrão é desafiado quando os familiares dos jovens envolvidos também ocupam uma posição central nessas redes. Isso sugere que, embora esses familiares possam servir como referências positivas, também existem outras influências na rede que podem expor os jovens ao "mundo do crime". A hipótese de densidade e homofilia ajuda a elucidar esse fenômeno. A hipótese da densidade sugere que uma parcela significativa das pessoas que forma a rede social dos jovens entrevistados se conhece. A literatura aponta que isso reflete uma certa familiaridade entre eles, o que pode fortalecer os vínculos e facilitar a troca de informações. Os estudos existentes têm se concentrado principalmente em investigações dentro do ambiente escolar, indicando um foco em práticas delinquentes de menor gravidade. Em redes sociais densas, onde o conteúdo compartilhado está conectado a códigos convencionais, é mais provável que os jovens continuem seguindo essas diretrizes. Por outro lado, se esses códigos se referem a comportamentos delinquentes, os jovens tendem a adotar tais condutas. Nesse contexto, a hipótese sobre a densidade foi corroborada por esta pesquisa. Quando um jovem se encontra em uma rede densa constituída por pessoas ligadas ao “mundo do crime”, ele passa a estar em contato com os códigos e as práticas desse ambiente, 124 se integrando a essa realidade. Isso indica que a recorrência das informações dificulta a busca por novas vivências. A repetição dessas informações acerca dos códigos e práticas sociais associados ao “mundo do crime” é potencializada pela própria configuração da rede, uma vez que redes de maior densidade costumam ser mais fechadas. Esse isolamento favorece a troca interna de narrativas, regras e comportamentos, solidificando a unidade do grupo e tornando mais difícil a influência de fatores externos. Os resultados desta pesquisa enriquecem o debate presente na literatura ao evidenciar relações sociais que ocorrem fora do ambiente escolar, abrangendo outras dimensões sociais e, por conseguinte, modalidades mais complexas de crime e violência, que levam os jovens a se envolverem em dinâmicas mais severas, como o “mundo do crime”. A avaliação da densidade de rede foi essencial para viabilizar a exploração da hipótese da homofilia neste estudo. A partir desta hipótese, buscou-se identificar como a homofilia se manifesta em relação à faixa etária nas redes pessoais de ambos os grupos, considerando que os jovens tendem a formar amizades com pessoas de idades semelhantes. Essa proximidade não apenas fortalece laços, mas também promove uma influência recíproca, podendo conduzir ao envolvimento com atividades criminosas ou à manutenção de comportamentos convencionais. A literatura aponta que delinquentes tendem a se associar a outros delinquentes, fazendo com que coexistam tanto a homofilia por faixa etária quanto a homofilia relacionada à delinquência. Para este estudo específico, esperava-se encontrar um contexto significativo na vizinhança que favorecesse a aproximação entre pares, especialmente aqueles ligados ao "mundo do crime", uma vez que estão restritos ao âmbito de seu bairro e carecem de acesso a outros espaços sociais. Dessa forma, a hipótese da homofilia se confirmou em certa medida. Observamos uma maior concentração de relações na faixa etária entre os jovens envolvidos, enquanto entre os jovens não envolvidos essas conexões eram mais dispersas. Essa diferença se deve ao fato de os jovens não envolvidos encontrarem seus pares em diversos contextos sociais, ao passo que os jovens envolvidos tendem a restringir seus relacionamentos mais à vizinhança ou à família. Assim, registrou-se uma forte concentração de laços sociais entre os jovens envolvidos e seus pares no âmbito do bairro, corroborando a literatura que discute a importância da proximidade entre pares e das condições estruturais. Esta pesquisa também contribui com a literatura voltada às redes sociais e delinquência em razão de não focar somente nos aspectos quantitativos da análise 125 de redes sociais, uma vez que os estudos até então tem se concentrado mais nas métricas das redes sociais. A proposta desta tese é iniciar o desenvolvimento de análise qualitativa dos laços sociais dos sujeitos, contribuindo para uma maior profundidade analítica na interpretação das redes pessoais. Por isso a necessidade de trazer para esta pesquisa a hipótese da força e da função das redes, que foram fundamentadas nas teorias base desta pesquisa que é a Teoria do Controle Social e a Teoria da Associação Diferencial. Considerando esse cenário, a hipótese da força e função sugeriu que a entrada no “mundo do crime” é favorecida quando os jovens estabelecem conexões mais frequentes, duradouras e intensas com pessoas envolvidas nesse ambiente, em comparação com aqueles que não têm esse envolvimento (Sutherland, 1955; Warr, 1996). O fortalecimento desses vínculos ocorre na medida em que os jovens valorizam os relacionamentos com indivíduos desse contexto. A intensidade desses laços também está relacionada à duração e à frequência das interações. Relações que são intensas, frequentes e duradouras aumentam a exposição dos jovens aos códigos e práticas sociais convencionais, assim como aos códigos e práticas do “mundo do crime”, dependendo do conteúdo e da forma como esse conteúdo circula na rede. Para que os jovens assimilem esses códigos e práticas sociais, é fundamental que as interações sociais ofereçam suporte emocional, financeiro e supervisão, que são fatores que facilitarão uma melhor absorção dessas normas e comportamentos. Dessa forma, a hipótese sobre a força e a função se confirmou. Ambos os grupos mantêm relações frequentes, duradouras e intensas com seus contatos, sendo que a principal diferença reside no fato de que os jovens não envolvidos têm redes sociais mais amplas em comparação aos jovens que estão inseridos em contextos mais restritos. Esses últimos tendem a cultivar relações limitadas à família e à vizinhança. Essa pesquisa sugere que passar longos períodos em um mesmo bairro, encontrar frequentemente amigos de longa data envolvidos com o “mundo do crime”, considerar forte a conexão com eles e estar exposto às influências dos códigos e práticas do “mundo do crime” são aspectos significativos que atraem os jovens para esse universo. Jovens que não estão envolvidos podem estabelecer contatos com pessoas relacionadas a esse ambiente, mas a intensidade dessas relações e a exposição ao conteúdo associado ao “mundo do crime” não são suficientes para integrá-los a esse universo, devido às diversas relações que eles estabelecem em contextos que vão além da família e da vizinhança. Observamos que esses jovens frequentam ambientes 126 como a família, a vizinhança, a escola, o trabalho e atividades como a Guarda Mirim, que oferecem a eles novas experiências e informações que podem ser úteis para orientar e enriquecer seus projetos pessoais, algo que não se registrou entre o grupo de jovens envolvidos. Por fim, além da exposição em que os jovens estão sujeitos, a adequação aos códigos e práticas sociais convencionais ou ligadas ao “mundo do crime” depende do peso das relações, ou seja, o quanto as atitudes dos jovens são recompensadas ou reconhecidas, o quanto são acolhidos emocionalmente e apoiados em suas demandas materiais bem como o quanto são acompanhados/monitorados. Isso significa que não basta somente estar exposto aos conteúdos que circulam nas redes, é preciso mecanismos de fixação desses conteúdos, sendo que a hipótese da função foi validada, visto que a função é realizada tanto pelos contatos sociais convencionais quanto por intermédio de contatos sociais ligados ao “mundo do crime. Os resultados, portanto, sugerem que o acolhimento ocorre tanto nas esferas convencionais quanto nas associações diferenciais, o que indica um paradoxo no que se refere às defesas da Teoria do Controle Social. Por um lado, concorda-se com a teoria tendo em vista que o jovem se sentir acolhido é um ponto chave para o distanciamento do “mundo do crime”. Por outro lado, a teoria não conta com o fato de que os próprios familiares, pelos quais os jovens sentem afeição, podem estar vinculados a esse universo e podem também cumprir a função de acolhimento em relação a esses jovens. Assim, conclui-se que se sentir acolhido e próximo às pessoas integradas ao “mundo do crime” é um impulso para viver também essa experiência. Um outro ponto a destacar é em relação ao apoio material/financeiro que os jovens recebem dos contatos sociais. Notou-se que os dois grupos recebem este tipo de apoio dos familiares; e o grupo dos não envolvidos contam com mais pessoas que prestam esse tipo de apoio, pois mencionam pessoas de outras esferas sociais. Um outro elemento a destacar são as menções feitas por parte dos jovens envolvidos de pessoas que integram o “mundo do crime” que lhes oferecem suporte financeiro. Isso indica que esse ambiente também atua como uma forma de assistência material para os jovens, especialmente para aqueles que enfrentam crises financeiras em suas famílias. Esses problemas se agravam ainda mais com a evasão escolar e a dificuldade de inserção dos jovens no mercado de trabalho. Os jovens que participaram da pesquisa, pertencentes a ambos os grupos, relataram que suas famílias demonstram preocupação em relação aos locais que 127 frequentam e às amizades que estabelecem. Isso indica uma forte ligação entre os jovens e seus familiares, corroborando as informações que destacam a relevância das redes familiares em suas vidas. Esse aspecto contraria alguns argumentos da Teoria do Controle Social, que postula a fragilidade dos vínculos dos jovens envolvidos com seus familiares. Por outro lado, o monitoramento também foi revelado enquanto um mecanismo de controle do “mundo do crime”. A fim de garantir a coesão das normas no “mundo do crime”, a supervisão nesse ambiente é incessante. Os laços fortes também favorecem a formação de associações diferenciais, já que a vigilância assegura que os jovens mantenham seu compromisso de não decepcionar seus companheiros. Todos os jovens respondentes da pesquisa revelaram que recebem recompensas ou algum tipo de reconhecimento diante de algum feito, embora os jovens não envolvidos tenham declarado mais pessoas de diferentes ambientes sociais que cumprem essa função de reforço positivo. A influência que pesa sobre os jovens envolvidos se origina do “mundo do crime”. As recompensas geradas nesse contexto parecem centrais para fortalecer os códigos e as práticas sociais desse universo. Somando-se a isso, é relevante ser mencionada a restrição dos ambientes sociais disponíveis para os jovens envolvidos, bem como a exposição deles aos conteúdos relacionados ao “mundo do crime” devido a essas limitações, o que impede a possibilidade de novas experiências e diferentes perspectivas. Os resultados contribuem para refletir sobre as políticas públicas voltadas para as juventudes, que poderiam ser desenvolvidas para expandir as diversas relações dos jovens em geral, e, de forma particular, aqueles que se encontram em conflito com a lei dentro do contexto abordado. Esta pesquisa sugere ser importante promover a circulação de crianças e jovens entre diferentes espaços sociais, considerando que aspectos estruturais relacionados às desigualdades sociais restringem o acesso das juventudes a esses diferentes espaços. Essa restrição mostrou-se presente na vida dos jovens envolvidos com o “mundo do crime” desde a infância. Embora muitos desses jovens residissem nos mesmos locais em que os jovens não envolvidos residiam, ainda há persistência de limitações de acesso às oportunidades por parte das juventudes (educação escolar de qualidade; emprego; lazer; artes; esporte, etc.), sobretudo das camadas menos favorecidas. Este estudo apresenta algumas limitações. A abrangência da amostra é restrita, o que pode ter influenciado a falta de variedade nos perfis juvenis analisados. Por 128 exemplo, notou-se uma predominância de jovens já inseridos no mercado de trabalho, devido ao tipo de instituição onde foi realizada parte da pesquisa. Em pesquisas futuras, outras instituições podem colaborar para tornar o acesso a uma gama diversificada de jovens com experiências variadas, permitindo uma comparação mais rica com os resultados deste estudo. Em suma, os achados desta pesquisa sugerem que a restrição de circulação dos jovens em diferentes ambientes sociais que está associada às desigualdades sociais, bem como a importância que os jovens conferem a seus relacionamentos, o tipo de conteúdo que é disseminado nas redes pessoais e o papel que seus contatos sociais exercem, são elementos que parecem impactar as relações sociais e podem colaborar para a inserção, ou não, de jovens no “mundo do crime”. 129 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADORNO, S. Conflitualidade e violência: reflexões sobre a anomia na contemporaneidade. Tempo Social, São Paulo, 10(1), maio/1998, pp. 19-47. Disponível em: http://www.fflch.usp.br/sociologia/temposocial/pdf/vol10n1/conflitualidade.pdf AKERS, Ronald L.; JENNINGS, Wesley G. Social Learning Theory. In: MILLER, J. Mitchell (org.). 21st Century Criminology: a reference handbook. Londres: Sage Publications Ltd., 2009, p. 323-331. ALMEIDA, Jorddana Rocha de. 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Renda familiar (somando de todos que moram em sua casa – inclusive você): ( ) menor que R$ 1.212,00 ( ) entre R$ 1.212,00 a R$ 2.424,00 ( ) entre R$ 2.424,00 a R$ 4.848,00 ( ) mais que R$ 4.848,00 137 Subseção 2: Dados sobre participação em atividades em conflito a lei 1) Você já praticou algumas destas atividades abaixo? ( ) Roubo ( ) Tráfico de Drogas ( ) Homicídio ( ) Nunca participei destas atividades citadas acima 2) Há quanto tempo isso ocorreu? ___________________________________________________ 3) Se participou destas atividades, chegou a cometê-las: ( ) Sozinho ( ) Com um amigo ( ) Em grupo 4) Se participou destas atividades, a decisão tomada para cometê-las, partiu de: ( ) Sozinho ( ) um amigo ( ) meu grupo de amigos 138 SEGUNDA PARTE: COLETA DE DADOS RELACIONAIS QUESTIONÁRIO REDES PESSOAIS SUBSEÇÃO 3: DADOS RELACIONAIS COM O ALTER Elementos da Rede/gerador de nomes. Citar somente a primeira letra do nome Tipo de relação/vínculo Faixa de idade Gênero Raça Região de moradia (resposta aberta) Ocupação (resposta aberta) Especificar se esta pessoa participa das atividades em conflito com a lei, citadas acima. Durabilida de da relação (força da rede) Há quanto tempo mantém o relacionam ento com esta pessoa? Frequência de contato (força da rede) Com qual frequência costuma encontrar esta pessoa Intensida de da relação (força da rede) Considera ndo a proximida de com esta pessoa, se existe afeto entre vocês: se for para atribuir uma força ao relaciona mento com esta pessoa, você considera ria: 139 Cite até 30 nomes que convivem com você no dia-a-dia ou que você mantém/manteve um outro tipo de contato. Além das pessoas mais próximas, é preciso citar os conhecidos, aquelas pessoas que não costuma conversar muito. 1. Família 2. Vizinhança 3. Trabalho 4. Religião 5. Lazer 6. Escola 7. Guarda Mirim 8. CREAS 9. CENSE 10. Outros 1. Familiar 2. Amigo(a) 3. Amorosamente ligados 4. Assistente social/psicólogo/educ ador/professor 5. Conhecido 1. 0 a 6 anos 2. 6 a 11 anos 3. De 12 a 17 anos 4. De 18 a 21 anos 5. De 21 a 30 anos 6. De 31 a 40 anos 6. 41 a 59 anos 5. acima de 60 anos 1. Homem 2. Mulher 1. Preto 2. Pardo 3. Branco 4. Nipônico 1. Roubo 2. Tráfico 3. Homicídio 4. Não participa 1. Há semanas 2. Há meses 3. Entre 01 e 02 anos 4. Há anos 1. Diariam ente 2.Algu mas vezes por semana 3. Alguma s vezes por mês 4.Algum as vezes por ano 1. Forte 2. Fraco 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 140 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21. 22. 23. 24. 25. 26. 27. 28. 29. 30. 141 CONTINUAÇÃO - QUESTIONÁRIO REDES PESSOAIS SUBSEÇÃO 3: DADOS RELACIONAIS COM O ALTER Apoio emocional (função da rede) Esta pessoa lhe oferta apoio emocional? Ajuda instrumental (função da rede) Esta pessoa lhe oferta auxílio quando: MONITORAMENTO (função da rede) Esta pessoa lhe diz quando você tomou alguma atitude/decisão correta ou errada. Se você tem agido corretamente ou não diante de problemas. Esta pessoa te adverte quando você teve uma atitude reprovável? CONTEÚDO Geralmente, o assunto da conversa com esta pessoa costuma ser sobre: 1. quando você está triste, essa pessoa te acolhe. 2.Esta pessoa comemora ou te elogia quando você consegue conquistar algo. 1. Você precisa de dinheiro/bens materiais? 1. Sim 2. Não 1. Conhecimento escolar. 2. Informações sobre o mercado de trabalho: onde há contratações; como se comportar em uma entrevista de emprego. 3. Crenças religiosas 4. Sobre lazer, onde haverá uma festa ou algum tipo de entretenimento. 5. Sobre moda, música, filmes, canais da internet e redes sociais. 6. Conversas sobre suas ações ou sobre as ações de outras pessoas. 7. Política. 8. Atividades com os parceiros: roubo/tráfico 9. Problemas familiares 10. Outros (especificar) 142 SUBSEÇÃO 4: Dados relacionais entre os alters (entre os indivíduos que compõem a rede pessoal) 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21. 22. 23. 24. 25. 26. 27. 28. 29. 30. 143 P1 e P2 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P3 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P4 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P5 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P6 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P7 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P8 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P9 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P10 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P11 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P12 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P13 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P14 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P15 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P16 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P17 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P18 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P19 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P20 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P21 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P1 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 2 P2 e P3 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P4 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P5 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P6 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P7 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P8 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P9 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P10 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P11 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P12 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P13 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P14 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P15 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P16 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P17 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P18 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P19 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P20 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P21 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P2 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem 144 Pessoa 3 P3 e P4 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P3 e P5 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P3 e P6 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P3 e P7 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P3 e P8 ( ) Não se 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) Se conhecem Pessoa 4 P4 e P5 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P6 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P7 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P8 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P9 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P10 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P11 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P12 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P13 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P14 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P15 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P16 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P17 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P18 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P19 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P20 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P21 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P4 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 5 145 P5 e P6 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P7 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P8 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P9 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P10 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P11 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P12 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P13 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P14 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P15 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P16 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P17 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P18 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P19 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P20 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P21 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P5 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 6 P6 e P7 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P8 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P9 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P10 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P11 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P12 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P13 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P14 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P15 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P16 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P17 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P18 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P19 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P20 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P21 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P6 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 7 146 P7 e P8 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P9 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P10 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P11 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P12 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P13 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P14 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P15 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P16 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P17 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P18 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P19 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P20 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P21 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P7 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 8 P8 e P9 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P10 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P11 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P12 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P13 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P14 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P15 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P16 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P17 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P18 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P19 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P20 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P21 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P8 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 9 147 P9 e P10 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P11 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P12 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P13 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P14 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P15 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P16 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P17 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P18 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P19 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P20 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P21 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P9 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 10 P10 e P11 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P12 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P13 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P14 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P15 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P16 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P17 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P18 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P19 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P20 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P21 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P10 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 11 148 P11 e P12 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P13 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P14 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P15 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P16 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P17 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P18 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P19 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P20 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P21 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P11 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 12 P12 e P13 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P14 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P15 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P16 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P17 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P18 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P19 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P20 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P21 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P12 e P29 ( ) 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conhecem ( ) Se conhecem P14 e P18 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P14 e P19 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P14 e P20 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P14 e P21 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P14 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P14 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P14 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P14 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P14 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P14 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P14 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P14 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P14 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 15 150 P15 e P16 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P15 e P17 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P15 e P18 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P15 e P19 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P15 e P20 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P15 e P21 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P15 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P15 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se 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P18 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P17 e P19 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P17 e P20 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P17 e P21 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P17 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P17 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P17 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P17 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P17 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P17 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P17 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P17 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P17 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 18 151 P18 e P19 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P18 e P20 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P18 e P21 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P18 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P18 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P18 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P18 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P18 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P18 e P27 ( ) Não se 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Se conhecem P20 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P20 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P20 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 21 152 P21 e P22 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P21 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P21 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P21 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P21 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P21 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P21 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P21 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P21 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 22 P22 e P23 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P22 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P22 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P22 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P22 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P22 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P22 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P22 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 23 P23 e P24 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P23 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P23 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P23 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P23 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P23 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P23 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 24 P24 e P25 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P24 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P24 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P24 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P24 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P24 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem 153 Pessoa 25 P25 e P26 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P25 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P25 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P25 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P25 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 26 P26 e P27 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P26 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P26 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P26 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 27 P27 e P28 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P27 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P27 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Pessoa 28 e 29 P28 e P29 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P28 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem P29 e P30 ( ) Não se conhecem ( ) Se conhecem Elaborado por Pires (2017)